Santiago, 27/07/2007 – Os países da América Latina e do Caribe completarão em 2008 seis anos consecutivos de crescimento econômico, segundo projeções da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. Aproveitar esta bonança a longo prazo requer estratégias nacionais de desenvolvimento. O informe econômico apresentado ontem em Santiago pela Cepal insistiu neste aspecto e estimou que o produto interno bruto da região crescerá 5% neste ano e 4,6% em 2008, depois de uma alta de 5,6% no ano passado.
“Caso se confirmem estes prognósticos, no final do sexto ano de crescimento consecutivo – desde 2003 – o produto por habitante da região terá acumulado aumento de 20,6%, equivalente a uma alta média de mais de 3% anual”, diz o Estudo Econômico da América Latina e do Caribe 2006/2007. Trata-se do período de maior crescimento do PIB por habitante desde os anos 80. “A bonança vai durar. Os melhores termos do intercâmbio comercial chegaram para ficar. Parece-me que é uma coisa estrutural que pode durar vários anos”, disse à IPS o argentino José Luis Machinea, secretário-executivo da Cepal.
Este cenário “gera possibilidades de maiores recursos e a oportunidade de repensar políticas e estratégias de longo prazo, coisas que não se pode fazer quando a conjuntura é muito apertada”, acrescentou Machinea. “A estratégia (dos países) tem de passar por agregar valor, conhecimento. Isto significa inovação, criação de redes entre os setores público e privado e uma educação de maior qualidade. Parece-me que (os países) deveriam utilizar parte dos recursos desta bonança para destiná-los a esses setores”, afirmou. Porém, este economista assegurou que pouquíssimos países seguem esta direção, embora tenha destacado o trabalho do Brasil e do Chile, país que criou um fundo de inovação com o dinheiro arrecadado a título de lucro com a mineração.
Entretanto, “os mercados financeiros não estão tão claros, há muita volatilidade, incerteza. Aí é preciso ser mais cuidadoso e, portanto, manter uma política prudente”, alertou. Segundo projeções da Cepal, este ano a América do Sul em seu conjunto crescerá 5,7%, enquanto América Central e México crescerão 3,6%. Para a sub-região do Caribe prevê-se cresciemento de 5,5%. Os países que mais crescerão em 2007 são Panamá 8,5%, República Dominicana 7,5% e Argentina 7,5%. Alguns dos que menos crescerão são Haiti e Equador, com 3,5% cada um, e México com 3,2%, além de Jamaica com 3% e Belize 2,5%. Por outro lado, o Escritório Nacional de Estatísticas de Cuba informou que esse país cresceria cerca de 10%.
A Cepal projeta uma expansão regional de 4,6% em 2008. A economia da América do Sul cresceria 4,9%, a da América Central e México 4%, e a caribenha 5,1%. De acordo com o informe, “em 2006 continuaram manifestando-se e aprofundando-se duas características deste período de expansão que o distingue de episódios anteriores: superávit paralelo na conta corrente da balança de pagamentos e na balança primária do setor público”.
Estes superávit foram favorecidos pela forte recuperação dos termos de intercâmbio, equivalentes a 3,4% do PIB, fenômeno que se observa sobretudo nos países da América do Sul. O volume exportado de bens e serviços da região cresceu 7,3% no ano passado, enquanto o importado aumento 14,2%. “À persistência da demanda externa por matérias-primas exportadas pelos países da América Latina e do Caribe, somou-se o maior dinamismo da atividade econômica e da demanda interna da região, o que impulsionou um comércio intra-regional de produtos manufaturados”, diz o documento de 97 páginas.
O estudo também mostra um panorama positivo em matéria de mercado de trabalho, já que não só diminuiu o desemprego real, de 9,1% em 2005 para 8,6% em 2006, como melhorou a qualidade dos postos de trabalho. Em média, América Latina e Caribe tiveram uma inflação de 5% em 2006, depois de anotarem 6,1% em 2005. o Brasil experimentou a maior queda neste item de 5,7% para 3%.
Outro aspecto destacado pelo informe é a redução da vulnerabilidade dos países da região, graças a uma “notória redução da carga da dívida externa, tanto em relação ao PIB (de 26% para 22%) quanto com as exportações regionais”, de 101% para 84%. “Tanto a evolução da economia internacional quanto a relativa solidez que mostram as economias da região permitem manter um cauteloso otimismo sobre o futuro próximo”, diz o informe.
Entretanto, apresentam-se “alguns dilemas de política econômica que não só influem na evolução da economia no curto prazo como também podem condicionar a definição do perfil produtivo de cada país”, acrescenta o texto. Neste aspecto, Machinea explicou que preocupa a Cepal a evolução recente da taxa de câmbio real, a sustentabilidade dos equilíbrios fiscais, o baixo investimento, a aceleração da inflação observada em alguns países e a maior volatilidade dos mercados financeiros internacionais.
“Especificamente, o excesso de oferta no mercado cambiário exerceu uma pressão para baixo nas taxas de câmbio real dos países da região, cuja intensidade varia de um caso a outro”, explica o estudo. “Os primeiros meses deste ano registram uma contínua apreciação da taxa de câmbio real, que afeta principalmente as economias da América do Sul e começa a despertar certa preocupação, na medida em que se começa a observar uma importante perda de dinamismo das exportações”, acrescenta o documento. Por fim, Machinea insistiu em que é necessário definir uma estratégia de crescimento a longo prazo. “A região tem uma oportunidade e a pergunta é se está aproveitando”, concluiu. (IPS/Envolverde)

