Washington, 05/07/2007 – O presidente George W. Bush deve, por momentos, ter olhado com inveja seu colega russo, Vladimir Putin, durante a cúpula que os reuniu na residência de verão junto ao mar que seu pai tem em Kennebunkport, no estado do Maine. A boa imagem que Putin desfruta na Rússia lhe garante uma grande influência política durante os nove meses que restam de seu mandato. Não é o caso do mandatário norte-americano, cuja popularidade atingiu o ponto mais baixo, segundo pesquisas divulgadas na última semana, e cuja influência inclusive dentro de seu próprio Partido Republicano parece diminuir à velocidade da luz.
Isto ficou evidente, com efeito devastador, quando na semana passada 37 dos 49 senadores republicanos abandonaram a lealdade partidária e ignoraram os desejos do presidente em uma votação-chave. Em conseqüência, os planos de Bush para implementar uma profunda reforma migratória nos restantes 18 meses de seu mandato parecem condenados ao fracasso. A votação marcou a derrota do projeto mais importante, e, talvez, o mais simples, dos quatro que Bush identificou como suas prioridades em nível nacional para seu segundo mandato.
Os outros se referiam a reforma da assistência social, reduções de impostos e legislação destinada a desalentar as demandas coletivas, casos judiciais em que grande número de pessoas com uma queixa comum iniciam um processo em conjunto contra uma empresa ou o Estado. Segundo o jornal The Washington Posto, Bush agora está “praticamente zero a quatro”. Mas, a derrota de seu projeto de lei sobre a imigração foi apenas um de uma série de episódios que na última semana minaram a força política residual que o mandatário podia desfrutar antes da chegada do verão ao país.
Na semana passada começou com uma declaração de independência, e total frustração, de dois senadores republicanos importantes: Richard Lugar, ex-presidente da influente Comissão de Relações Exteriores, e George Voinovich. Ambos se distanciaram da decisão presidencial de manter sua atual política para o Iraque até depois do próximo outono boreal (primavera no Sul). Um discurso de Lugar no Senado, calorosamente apoiado pelo ex-presidente da Comissão de Defesa John Warner, enviou uma mensagem clara.
Bush, seus comandantes militares e os diplomatas em Bagdá não têm mais do que 75 dias (até meados de setembro) para produzir uma mudança total em sua política a respeito do Iraque ou enfrentar uma irresistível pressão política no Congresso para começar a retirar as tropas desse país, no início de 2008, no máximo. Em seguida, Lugar comparou esse discurso com seu rompimento com o ex-presidente Ronald Reagan (1981-1989) quando este vetou em 1980, uma lei contra o apartheid, o regime de segregação racial institucionalizada que vigorou na África do Sul em prejuízo da maioria negra até 1994. Lugar teve papel fundamental na decisão do Congresso de deixar sem efeito o veto presidência, única vez em que isso ocorreu durante os oito anos de Reagan na Casa Branca.
Na última sexta-feira, a semana terminou com o fim do período de cinco anos no qual Bush desfrutou do chamado “fast-track” (via rápida) para aprovação de tratados comerciais com outros países. Por este mecanismo, os legisladores podem aprovar ou rejeitar os acordos, mas não emendá-los. Os líderes do opositor Partido Democrata na Câmara de Representantes aproveitaram a ocasião para reclamar a rejeição de dois acordos comerciais pendentes, um com a Colômbia e outro com a coréia do Sul. A renovação do “fast-track” era outra prioridade do governo Bush que agora parece ter escorrido ralo abaixo.
Com se esses contratempos não fossem suficientes, o jornal The Washington Post publicou uma série de artigos de investigação sem precedente sobre o papel desempenhado pelo vice-presidente, Dick Cheney. Nela retrata o presidente como o jovem “delfim” de Cheney, que desempenha um papel semelhante ao do cardeal Richelieu no século XVII na França. O Cardeal Richelieu (1585-1642) foi a figura política e religiosa mais poderosa da França. Entre outros cargos, foi primeiro-ministro do rei Luis XIII, que o nomeou para esse cargo em 1624. Richelieu sempre foi o poder por trás do trono.
Os conhecedores dos segredos do poder em Washington tinham essa impressão há muito tempo, mas os detalhes operacionais dessa relação até agora eram nebulosos. David Broder, veterano colunista político do the Washington Post e um dos mais prestigiados nos Estados Unidos por décadas, disse que os artigos revelam um vice-presidente “que usa a ampla autoridade que lhe confere um presidente complacente para torcer o processo de tomada de decisões para seus próprios fins, freqüentemente passando por cima da vontade de outros membros do gabinete e funcionários do Executivo”.
A série de artigos, que abastecem de novos grãos os moinhos dos comediantes e apresentadores de programas noturnos de televisão, não tem outro efeito que não afundar ainda mais a posição de Bush. A imagem do presidente, nas últimas pesquisas de opinião, caiu ao nível mais baixo de sua história e seus níveis de popularidade estão se aproximando dos registrados pelo ex-presidente Richard Nixon (1969-1974) às vésperas de sua renúncia por causa do escândalo de espionagem no edifício Watergate, onde funcionava a sede do Partido Democrata em Washington.
Os artigos coincidiram com a insistente atitude de Cheney, motivo de piada generalizada, de argumentar que ele não deve se ater a certas regras sobre informação secreta já que – argumentou – como presidente do Senado (posição que ocupa por ser vice-presidente) não faz parte do Executivo. Isto só fez aumentar o nível de piadas que têm o governo como alvo. A popularidade de Cheney também chegou ao fundo. Em uma pesquisa da rede CBS de televisão feita na semana passada, apenas 28% dos entrevistados aprovaram a maneira como se conduz no cargo.
No começo de 2006 sua popularidade era de 36% e havia chegado a 56% em agosto de 2002, mês em que lançou sua campanha para conseguir apoio para a invasão do Iraque. A mesma pesquisa da CBS indica que apenas 27% dos entrevistados têm uma opinião positiva sobre Bush, apenas um ponto percentual acima de seu pior nível, registrado na semana anterior em uma pesquisa da revista Newsweek. A rede Fox News de televisão, cujas medições em geral mostram números mais favoráveis do que as demais, também apresentou o nível mais baixo até o momento, com apenas 31% de aprovação.
A popularidade de Bush caiu abaixo de 50% na maioria das pesquisas, entre sua reeleição, em novembro de 2004, e o início de seu segundo mandato dois meses mais tarde. Desde então nunca se recuperou. Trata-se, segundo o The Washington Post, de “a mais prolongada rejeição por parte do povo norte-americano” a um presidente na história moderna do país. Embora o veemente rechaço da direita republicana ao projeto de lei de imigração de Bush ajude a explicar sua queda nas pesquisas, o Iraque continua sendo o fator mais importante para explicá-la.
Na pesquisa da CBS, 23% disseram concordar com sua maneira de lidar com a guerra no Iraque, enquanto 70% dos consultados expressaram seu descontentamento, entre eles um terço que se identificou com republicano. Ainda mais: uma enorme maioria (77%) respondeu que via “algo ruim” (30%) ou “muito ruim” (47%). Quarenta por cento dos entrevistados disseram que as tropas devem retiradas, enquanto 26% afirmaram que seu número deve ser reduzido. Uma pesquisa da rede CNN apresentou números semelhantes.
Faltando 16 meses para as eleições presidenciais, os republicanos que têm cargos eletivos coincidem cada vez mais que a dobradinha busCheney se converteu em uma séria ameaça para suas aspirações políticas. Na medida em que a votação se aproxima, a pressão para romper lanças com a Casa Branca – a menos que haja uma grande mudança no Iraque – ficará irresistível. Tal como ocorreu na semana passada com o projeto de lei sobre imigração. (IPS/Envolverde)

