México, 05/07/2007 – Seja o primeiro ou o segundo homem mais rico do mundo, observadores mexicanos consideram insultante a riqueza de Carlos Slim, enquanto os 10% mais pobres da população do México recebem apenas 1,3% da renda nacional. A revista de negócios Forbes se recusou, na terça-feira, a ratificar se Slim é de fato a pessoa mais rica do mundo, como afirmou o jornal financeiro Sentido Común. O chamado Rei Midas’, numa referência ao monarca que transformava em ouro tudo o que tocava, possui propriedades, empresas e investimentos avaliados em US$ 67,8 bilhões, cerca de US$ 9 bilhões a mais do que o dono da Microsoft, Bill Gates, que a Forbes considera o homem mais ricos do mundo.
Sentido Común divulgou esse resultado após calcular os últimos aumentos do valor das ações das empresas de Slim. Mas, desde Nova York, a Forbes não quis confirmar o cálculo e disse que somente informará sobre suas novas estimativas em março de 2008. Nas listas da revista, Slim saltou do 35º lugar, em 2003, para o segundo este ano. “A riqueza de Slim demonstra que não diminui seu talento e olfato empresariais, isso se potencializados com os favores de governos e políticos e a tolerância aos abusos que comete com o consumidor”, disse à IPS o comentarista político Matías Castañeda, da Universidade Nacional Autônoma do México (Unam).
Slim deu dinheiro para ajudar políticos de todo o espectro político, desde o Partido Revolucionário Institucional, que governou o México entre 1929 e 2000, até o conservador Ação Nacional, no poder desde então, passando pelo esquerdista Partido da Revolução Democrática, a primeira força de oposição. Castañeda afirma que a fortuna e o poder de Slim definem e confirmam o rosto do México como um dos países mais desiguais e injustos do mundo.
Os 10% da população mais rica concentram 35% da renda, enquanto os 10% mais pobres ficam com apenas 1,3%. Na porção dos mais ricos estão Slim e outros nove mexicanos com fortunas entre US$ 4,6 bilhões e US$ 2,1 bilhões cada um. Dos 103 milhões de habitantes do país, 47% vivem em pobreza patrimonial, um parâmetro oficial de medição que inclui os que recebem até US$ 3,6 por dia na área rural e até US$ 5,5 na área urbana.
Slim, nascido em 1939 e dono do grupo Carso, um conglomerado de telecomunicações, lojas, tabaco, televisão, construção, alimentos e música, está no ponto mais alto dos ricos latino-americanos, onde muitos o veneram e outros o temem. Até o início do século poucos se atreviam a questioná-lo e colocar em dúvida a origem e o manejo de sua fortuna, mas isso mudou. Em círculos acadêmicos e meios de comunicação onde o empresário não tem investimentos, as vozes que o criticam sobem de tom.
A especialista política Denise Dresser, do Instituto Tecnológico Autônomo do México, uma das poucas que lança dardos contra Slim desde os anos 90, afirma que essa mudança se deu com o processo de abertura democrática, mas, sobretudo, com a evidência de que uma riqueza tão grande não deveria encaixar em um país tão pobre. “(Slim é o) deus dual do capitalismo disfuncional que lhe permitiu chegar à posição privilegiada que ocupa e assegurar que ninguém, e menos ainda o governo, possa tirá-lo dali”, afirmou Dresser.
O dinheiro de Slim começou a se multiplicar desde meados da década de 90, quando comprou por cerca de US$ 400 milhões a então empresa Telefones do México (Telmex) que, segundo diversas investigações, valia na época US$ 12 bilhões. Hoje essa companhia controla 90% do mercado local e uma boa fatia da telefonia celular na América Latina, e cobra no México tarifas muito maiores do que as aplicadas por outras empresas nos Estados Unidos. Estudos indicam que os mexicanos pagam 260% mais pela conexão à Internet de banda larga do que seus vizinhos, 312% mais pelo celular e 65% mais na telefonia básica.
Um relatório do Banco Mundial apresentado em novembro afirma que grande parte da pobreza do México se deve à concentração de riqueza no setor empresarial e aos monopólios, entre eles a Telmex. Essa companhia foi denunciada por empresas estrangeiras por usar seu poder e influência para impedi-las de entrar na competição dentro do mercado mexicano. Segundo o Banco, as instituições do Estado encarregadas de regular a competição são frágeis, e, portanto, presa fácil dos atores privados que deve fiscalizar. Mas, Slim não se sente culpado de nenhuma injustiça e assegura que seu império foi construído com muita força de vontade e sem receber favores especiais de ninguém. Além disso, é pródigo em obras de caridade e é o mais solicitado nas reuniões da filantropia mexicana.
Em 2005, promoveu a assinatura do Acordo de Chapultepec, ao qual aderiram centenas de empresários e políticos, que estimula que o México somente progrediria se fosse promovido o respeito ao Estado de direito, à segurança fiscal e jurídica e ao crescimento econômicos. O presidente Felipe Calderón, um dos signatários desse documento, prometeu lutar contra os monopólios e as posições privilegiadas no mercado. Entretanto, até agora tudo se mantém igual. É de domínio público que Slim apoiou com dinheiro a candidatura de Calderón à presidência, mas que também deu dinheiro ao seu adversário, o esquerdista Andrés López Obrador, aplicando a política de não colocar todos os ovos na mesma cesta. (IPS/Envolverde)

