Baquba, 21/08/2007 – A maior operação militar dos Estados Unidos em Baquba, 50 quilômetros a nordeste de Bagdá, deixou um rastro de sofrimento para seus habitantes. A operação “Arrowhead Ripper” (Ponta de flecha destripadora) foi lançada dia 18 de junho com o objetivo de erradicar células da rede terrorista Al Qaeda nesta cidade, capital da província de Diyala, e de outras áreas no distrito. A região foi palco do maior número de ataques contra tropas norte-americanas, que ocupam este país desde 2003. Pouco antes de ser lançada a ofensiva, que se estendeu por junho e julho, o exército admitiu que quase 80% dos militantes da Al Qaeda haviam fugido.
Os moradores da área esperavam que se pusesse fim às incursões e seqüestros de grupos criminosos e esquadrões da morte, mas a operação militar não lhes proporcionou nenhum alívio. “As pessoas têm medo, porque as forças da coalizão ocidental sempre expulsam os membros da Al Qaeda das cidades, mas eles voltam quando as tropas se retiram”, disse a IPS Mohammed Hulail, morador em Baquba. “Não nos dão uma solução”, acrescentou. Um funcionário local, que pediu para não ser identificado, disse à IPS que integrantes da Al Qaeda já retornaram a algumas partes da cidade. “Estamos certos de que a polícia e o exército iraquiano não poderão derrotá-los, porque estão bem entrincheirados nos edifícios e nas ruas”, afirmou.
As pessoas temem todos os envolvidos no conflito. “Somos as vítimas desta guerra, porque estamos entre as tropas norte-americanas e os combatentes da Al Qaeda”, afirmou o professor secundário Jabbar Ibrahim. Os rebeldes fogem quando os soldados da coalizão chegam para enfrentá-los “e deixam que os civis sofram os bombardeios”, acrescentou. Muitos moradores se queixam de detenções indiscriminadas pelas tropas dos Estados Unidos, em sua tentativa de localizar integrantes da rede terrorista internacional liderada pelo fugitivo saudita Osama bin Laden. “Muitas prisões são arbitrárias, trata-se de pessoas que não têm nada a ver com a violência. Os verdadeiros combatentes escapam”, disse a IPS um morador que não quis se identificar.
O Partido Islâmico Iraquiano denunciou que as forças da coalizão mataram muitas pessoas nas primeiras semanas da operação. Em uma declaração, o partido afirmou que a ofensiva liderada pelos Estados Unidos provocou mais de 350 mortos, muitos deles ainda estão sob os escombros” na zona ocidental de Baquba. Muitas pessoas nesta cidade de 300 mil habitantes afirmam que a ofensiva militar piorou as condições de vida. “Estivemos 12 dias sem água, eletricidade e alimentos”, contou à IPS um ex-funcionário local, Hamid Shaaban, de 51 anos. As tropas norte-americanas não foram de grande ajuda, acrescentou. “Tenho sete filhos. Fui pedir comida e água e me deram apenas algumas garrafas”, contou.
A escassez de água aconteceu na pior época do ano. “A temperatura oscilava entre 45 e 51 graus. Foi algo terrível”, disse uma senhora idosa. A maioria das pessoas com os quais a IPS conversou disseram que abandonariam a cidade se pudessem, mas carecem do dinheiro necessário ou simplesmente não têm para onde ir. As tropas dos Estados Unidos costumavam prender os que ficaram em suas casas durante os ataques porque, segundo vários moradores, isso era visto como um gesto de desafio. Agora, praticamente todos parecem fartos da violência e intimidação dos dois lados.
“As pessoas querem segurança para voltar ao trabalho e ganhar a vida”, disse o dono de uma loja de alimentos. “Isso é responsabilidade das forças da coalizão e do governo iraquiano”, acrescentou. Alguns acreditam que Washington não deseja realmente resolver o problema. Um oficial da reserva do exército do Iraque disse à IPS que “os Estados Unidos sempre tendem a criar um inimigo para poder combatê-lo e mostrar aos governos fracos, como o do Iraque, que não podem prescindir do apoio do poderio norte-americano”. (IPS/Envolverde)
(*) Ahmed Ali é correspondente na província de Diyala, Ahmed trabalha em colaboração com Dahr Jamail, especialista em Iraque da IPS, que vive nos Estados Unidos e viaja freqüentemente pela região.
Crédito da imagem: Sgta. Antonieta Rico/Departamento de Defesa dos EUA

