Mundo: Sul do Líbano ocupado por bombas de fragmentação israelenses

Beirute, 21/08/2007 – As bombas de fragmentação constituem a nova modalidade israelense de ocupação, segundo agricultores do sul do Líbano que ficaram sem acesso à suas terras por culpa do milhão de explosivos sem detonar que continuam ali desde a guerra do ano passado. Em julho e agosto de 2006, em sua guerra contra o islâmico Partido de Deus (Hezbolá) libanês, Israel lançou na área cerca de quatro milhões dessas bombas e outros projéteis que destruíram aldeias, fizeram milhares de refugiados e causaram enormes prejuízos econômicos.

A quarta parte das terras de cultivo nessa área está até hoje intransitável por essa razão, segundo diversas estimativas. As perdas do setor pecuário são calculadas em quase US$ 22 milhões. “Em três fazendas da aldeia fronteiriça de Aita al-Shaab morreram todos os animais, não apenas pelo bombardeio, mas também porque ficaram sem alimentos nem água após a fuga dos moradores”, contou Saada Allaw, jornalista do diário libanês em língua árabe Assafir. A maioria dos pequenos produtores do sul, cuja produção é destinada à sua própria subsistência e ao comércio local, perderam mais de um terço de sua renda pela presença das bombas de fragmentação.

“Quando a guerra acabou não permitiram que entrássemos em nossas terras até estarem livres de todas as bombas de fragmentação. Encontraram 75 delas aqui”, disse Rima, produtora rural do povoado de Adloun. “Habitualmente ganhamos entre US$ 1 mil e US$ 1,3 mil anuais com a venda de tomilho fresco. Mas este ano perdemos a época de plantar”, lamentou. As bombas de fragmentação, lançadas por meio de artilharia terra-terra, contêm até 650 pequenas bombas. Freqüentemente, estas não explodem com o impacto.

Projetadas para serem usadas contra alvos militares, estes explosivos permanecem na superfície da terra ou acabam enterradas, transformando-as em virtuais minas terrestres. As pequenas bombas ficam ocultas nas pastagens e nos galhos de árvores, ou seguem o curso de colinas depois das chuvas, deslocando-se para áreas que já foram limpas de explosivos. “Destruir a agricultura é uma tática especialmente importante. Esta atividade conecta as pessoas com a terra, que é fonte de sustento mas também onde estão arraigados os hábitos, os costumes e a cultura local”, explicou Rami Zurayk, professor de manejo de ecossistemas na American University em Beirute.

No dia 12 de julho de 2006, membros do Hezbolá ingressaram em território de Israel onde assassinaram oito solados israelenses e seqüestraram outros dois, que ainda permanecem prisioneiros. No dia seguinte, Israel lançou sua resposta militar, que afetou grandes setores da população civil libanesa. No conflito, que durou 34 dias, morreram 1.200 libaneses e 160 israelenses, segundo a Organização das Nações Unidas. O uso de bombas de fragmentação por parte de Israel deu origem a uma onda de indignação internacional que teve conseqüências políticas.

O Comitê de Designações dos Estados Unidos resolveu em junho, por proposta dos senadores do opositor Partido Democrata Patrick Leahy e Dianne Feinstein, restringir a venda ou transferência destas armas por parte de Washington. Segundo o projeto, esses explosivos deverão ter uma proporção de falhas menor que 1%. Os contratos de venda ou transferência terão de especificar que estas bombas apenas serão usadas contra objetivos militares definidos claramente, e de modo algum em locais onde haja civis.

“As bombas de fragmentação foram utilizadas nas últimas 72 horas das operações militares israelenses. O governo pensava que essa era a maneira de destruir o Hezbolá, mas, no entanto, destruiu aldeias, vidas e recursos para a sobrevivência”, afirmou Sarah Leah Whitson, diretora para o Oriente Médio da organização Human Rights Watch. “Os Estados Unidos são um importante fornecedor de bombas de fragmentação de Israel”, disse Whitson. As bombas foram lançadas apesar de um acordo entre os dois países “que proíbe os israelenses de usarem submunições de fragmentação em áreas ocupadas por civis”, acrescentou.

Quase 90% da economia de Aita al-Shaab se baseia no cultivo de tabaco. “Vivo da colheita de tabaco. Ainda estamos esperando que revisem as bombas de fragmentação para poder plantar, por isso este ano não haverá colheita”, disse uma mulher que pediu para não ser identificada. Muitos agricultores expressaram seu descontentamento com a falta de compensações governamentais. A maioria está endividada após perder suas colheitas, e não sabe o que acontecerá se não conseguir pagar os empréstimos. Depois da guerra do ano passado, as autoridades ofereceram empréstimos de milhões de dólares aos produtores de tabaco, o único cultivo que o governo ainda subsidia.

“Na última guerra, o governo não ofereceu nenhuma ajuda econômica às pequenas empresas, especialmente as locais”, disse o analista político Rafi Madayan. “Deveria participar junto com a ONU de programas de desenvolvimento nas aldeias, para dar mais assistência ao setor agrícola. “No início deste mês, a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) anunciou um programa de US$ 3,3 milhões para ajudar os produtores do sul a melhorarem sua produtividade, concentrado nos setores de hortaliças e pecuarista.

“Os criadores de gado que perderam seus animais receberam ajuda para adquirir novos animais. Também foram tomadas medidas para melhorar a produtividade nas áreas afetadas”, informou a FAO. “Durante a ocupação israelense (do sul do Líbano), entre 1982 e 2000, a população não teve livre acesso às suas próprias terras e boa parte da área foi minada. Os israelenses ainda hoje se negam a entregar mapas das zonas que minaram”, acrescentou. A lembrança da ocupação israelense persiste fortemente entre os habitantes da região, predominantemente xiita.

Israel já usava bombas de fragmentação no Líbano nos anos 80. Nessa época, os Estados Unidos impuseram restrições ao seu uso e, em seguida, uma moratória à transferência destas armas para Israel, preocupados com as vítimas civis. As bombas de fragmentação lançadas há mais de duas décadas continuam afetando os agricultores. Esse tipo de bombas e outros artefatos que não explodiram quando lançados mataram, pelo menos, 30 pessoas e feriram 209 desde o fim das hostilidades, em 14 de agosto de 2006. (IPS/Envolverde)

Simba Shani Kamaria Russeau

Simba Shani Kamaria Russeau is an award-winning multimedia storyteller. She has worked as a photographer, radio correspondent and writer in many countries, including East Timor, South Korea, Philippines, Haiti, Japan, the United States, Tunisia, Lebanon, Egypt and Dubai. She has conducted several workshops with streets kids, ex-prisoners, children of migrant workers and refugees on the use of photography and interviewing as a tool for self-empowerment in underrepresented communities as means of dealing with racism, poverty, prejudice and war. Currently she is working on multimedia essays documenting displaced faces around the world, migrant workers and women, and is the founder and organiser of the "Taste Culture" initiative.

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