Jogos Olímpicos-China: Mais um ano em busca da perfeição

Pequim, 08/08/2007 – Nada ficará ao acaso quando a capital do antigo “Império do Centro” for cenário dos próximos Jogos Olímpicos. As autoridades chinesas, zelosas com sua imagem e temerosas dos deslizes de relações públicas, fazem um meticuloso ensaio um ano antes do grande evento.

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As Olimpíadas começarão às 08h08 do dia 8 de agosto de 2008. A data do ensaio desta quarta-feira não chegou a ser tão redonda, mas isto não impede que todos os esforços se concentrem na busca da perfeição. Uma cerimônia transmitida pela televisão, com discursos de funcionários do governo e do Comitê Olímpico Internacional, marcará a abertura das “mini-Olimpíadas”, que se constituirão de 10 eventos esportivos internacionais.

Os Jogos Olímpicos de Pequim serão os mais caros da história: a capital chinesa já gastou 10 vezes mais do que os US$ 4 bilhões que a cidade de Atenas investiu em infra-estrutura para os Jogos de 2004. As autoridades falam de “uma oportunidade única” para que a China exiba sua capital modernizada e seus avanços econômicos e culturais. Em Pequim, a ascensão da China moderna se reflete de maneira simbólica nas novas construções de estilo futurista, aparentemente erguidas da noite para o dia, como o estádio nacional que parece um ninho de passarinho e o centro de natação fechado que se assemelha a um cubo de gelo.

Quando começarem os Jogos, dentro de um ano, a capital chinesa também contará com um novo e exuberante terminal e um trem de alta velocidade em seu aeroporto internacional, além de um sistema de transporte subterrâneo e 11 instalações esportivas de nível mundial. Um teatro de ópera ultramoderno e uma nova torre de televisão projetada pelo famoso arquiteto holandês Rem Koolhaas serão outras das maravilhas arquitetônicas que se somarão à paisagem de Pequim. Mas a arquitetura e infra-estrutura de vanguarda são apenas parte da radical renovação de imagem que as autoridades da capital planejaram. Pequim também quer descontaminar seu meio ambiente e agilizar seu trânsito, tarefa que parece ser bastante difícil.

A cidade prometeu “Olimpíadas verdes” e investiu US$ 13 bilhões em seu meio ambiente, aumentando o consumo de energia limpa e plantando 28 milhões de árvores. Preocupados com a fumaça que cobre a cidade de forma permanente, as autoridades municipais determinaram que um milhão de automóveis deixem as ruas este mês, e as medidas de controle do trânsito e do smog ficarão cada vez mais rígidas. Quase todas as centrais de energia foram retiradas do centro da cidade, assim como todos os fornos à carvão. A maior contaminadora da capital (Shougang Corp, a terceira maior fábrica de aço do país) foi deslocada para uma ilha na vizinha província de Hebei.

“O ar limpo e o céu azul é importante não apenas para a cerimônia de abertura dos Jogos, mas também para os atletas e os moradores locais”, destacou Wang Wei, vice-presidente-executivo do Comitê Organizador de Pequim para os Jogos Olímpicos, em uma entrevista coletiva realizada esta semana. “O que mais nos importa não é a imagem, mas a saúde dos atletas e das pessoas, incluindo os visitantes, durante os jogos”, acrescentou. Pequim declarou que os Jogos Olímpicos de 2008 serão as “Olimpíadas do Povo”. Mas há quem desconfie desta intenção declarada do governo.

O Centro pelo Direito à Habitação e contra os Despejos, com sede em Genebra, afirmou que pelo menos 15 milhões de pessoas foram despejadas para dar lugar à renovação de Pequim. Observadores independentes insistem em dizer que até três milhões de habitantes foram desalojados no processo de modernização da capital, muitos deles à força. “Por trás das Olimpíadas há ambiciosos urbanizadores”, afirmou Zeng Xiaoyan, cuja casa no distrito Dongcheng da capital foi demolida no ano passado. “Uma vez que se deram conta de quanto poderiam fazer com estas terras, nada pôde detê-los”, ressaltou.

Mas as expressões de desacordo com o gigantesco projeto de engenharia social de Pequim estiveram ostensivamente ausentes da imprensa. Os jornais oficialistas preferem se concentrar nos esforços das autoridades municipais para erradicar os arraigados hábitos de seus habitantes de cuspir, furar filas, fumar, xingar e jogar lixo na rua. O China Daily descreveu esses hábitos como “doenças arraigadas que prejudicam a imagem da cidade-capital”. O governo municipal anunciou multas de até 50 yuans (US$ 6,5) para que for pego cuspindo em público e ameaçou vigiar a indústria dos serviços para que o tratamento oferecido seja amável.

Mesmo os habitantes mais antigos, testemunhas de várias campanhas de patriotismo e moralidade nos primeiros anos do regime comunista, estão impressionados com esta implacável campanha pela perfeição. “Me pergunto se é possível fazer com que tudo, dos edifícios às pessoas, seja perfeito. Por acaso, alguém tem de ser?”, perguntou o professor universitário aposentado Dong Yuohui. (IPS/Envolverde)

Antoaneta Bezlova

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