Washington, 08/08/2007 – As facções rebeldes da zona sudanesa de Darfur acordaram uma posição comum com vistas às próximas negociações com Cartum, depois de intensas conversações na Tanzânia. Foi o que anunciaram com pompa os mediadores do conflito: a Organização das Nações Unidas e a União Africana. Os rebeldes esperam que esta posição unificada permita que as conversações de paz com o governo do Sudão comecem nos próximos dois ou três meses, disse o enviado especial da ONU para Darfur, Jan Elliason. Mas a ausência de líderes rebeldes-chave nas conversações poderia limitar a importância deste acordo, alertaram analistas.
“É um passo adiante, mas o verdadeiro trabalho está para ser feito”, disse à IPS o analista Alex de Wall, especialista em Darfur do independente Social Science Research Council, com sede em Washington. As conversações, realizadas na cidade tanzaniana de Arusha desde sexta-feira passada até a última segunda-feira, aconteceram uma semana depois que o Conselho de Segurança da ONU aprovou uma resolução para criar a maior força de paz do mundo, que será enviada a Darfur. Elliason e o enviado da União Européia, Salim Ahmed Salim, disseram que as conversações produziram uma plataforma comum sobre “divisão do poder, questões de saúde, segurança, terras e humanitários”. Mas de Wall alertou que as posições dos rebeldes ainda não são muito firmes.
As convesações em Arusha reuniram representantes do Exército Sudanês de Libertação (SLA) e o Movimento de Justiça e Igualdade. Os dois grupos se subdividiram em facções que se enfrentam desde que começou o conflito em Darfur, há quatro anos. Mas as duas figuras principais, Suleiman Jamous e Abdel Wahid Mohammed al-Nur, não estiveram presentes em Arusha. Observadores disseram que estas ausências colocam em risco o êxito das conversações. Jamous, o coordenador humanitário do SLA e uma figura muito admirada entre os rebeldes, esteve sob custódia no Sudão por mais de um ano em um hospital da ONU. O governo sudanês ameaçou prendê-lo se deixasse o local.
“Jamous conseguiu um perfil importante por sua atitude altamente conciliatória, por sua qualidade de estadista com experiência e pelo fato de não ter sangue em suas mãos”, disse à IPS o acadêmico Eric Reeves, especialista em Darfur. “Sua presença é muito importante, porque pode ter um papel conciliatório. Mas é por essa razão que o governo de Cartum o mantém recluso”, acrescentou. O SLA, um dos maiores grupos rebeldes, ameaçou boicotar as negociações se Jamous não puder participar. Entretanto, a agência Reuters informou que depois esta facção voltou atrás em sua postura.
Al Nur, presidente-fundador do SLA, também esteve ausente por decisão pessoal. Na sexta-feira, criticou as conversações em uma entrevista ao Sudan Tribune, dizendo que “os mediadores falam de unidade rebelde, mas de fato estimulam as divisões por convidarem qualquer um que tenha uma arma, um veículo e um telefone celular”. Embora agora Al Nur viva em Paris e já não comande nenhuma milícia em Darfur, continua sendo uma figura sumamente respeitada entre os 2,5 milhões de refugiados por causa do conflito. “Al Nur ainda é visto pela maioria nos acampamentos como a voz dos refugiados”, disse Reeves à IPS. “Será muito difícil as negociações terem sucesso se ele as boicotar”, ressaltou.
Reeves também alertou que “seria a mesma receita de fracasso que se viu em Abuja se for considerada apenas uma minoria dos grupos rebeldes para conseguir um acordo”. O acordo de maio de 2006 entre rebeldes e Cartum, alcançado em Abuja, foi assinado apenas pela facção do SLA liderada por Minni Minawi, e logo se converteu em letra morta. Por outro lado, enquanto muitos grupos humanitários expressaram otimismo pela resolução do Conselho de Segurança da ONU para criar uma força de paz de 26 mil soldados, outros disseram que o tempo previsto para o envio desse contingente é muito demorado e que a resolução foi debilitada significativamente para conseguir o aval da China.
Jan Pronk, ex-enviado da ONU ao Sudão, expulso desse país em outubro de 2006 por ter criticado as autoridades de Cartum, expressou dúvidas sobre a resolução do sábado. Em uma entrevista ao jornal holandês Trouw, Pronk disse que a resolução se diluiu “enormemente” e lamentou que os membros da força de paz não terão autoridade para apreender armas ilegais. Pronk também criticou a lentidão no envio, dizendo que “demorará muito tempo antes que a missão seja plenamente operacional”. (IPS/Envolverde)

