América Latina: A democracia capenga da América Latina

México, 28/09/2007 – Embora valorizem o sistema democrático, milhares de latino-americanos consultados questionam sua legitimidade e desconfiam dos partidos políticos, dos parlamentos, da justiça e das instituições policiais. Esse é um dos principais resultados da pesquisa do ano passado feita pelo Barômetro das Américas e apresentada ontem na capital mexicana, e que pela primeira vez em sua história recopila dados de 23 países do continente americano, do Canadá à Argentina.

A pesquisa denominada “Desafios para a democracia na América Latina e no Caribe: Evidência desde o Barômetro das Américas 2006”, que envolveu 32 mil americanos ouvidos por especialistas de todos os países, mostrou que a democracia tem maior apoio nos Estados Unidos, Canadá, Uruguai, República Dominicana e Costa Rica. Um panorama oposto apresentam Equador, Haiti e Peru, segundo esse estudo, impulsionado pela Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional e o Projeto de Opinião Pública da América Latina e financiado em parte pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento e pelo Centro para as Américas da Universidade de Vanderbilt (EUA).

Os níveis de aceitação diminuem quando se trata de legitimidade. Por exemplo, Canadá, Estados Unidos, Costa Rica, Uruguai e México são os que gozam de maior legitimidade, em comparação com os que estão no fim da tabela, Equador, Bolívia, Paraguai, Nicarágua e Haiti. “Uma coisa é crer na democracia e outra é avaliar a legitimidade do sistema”, disse o especialista norte-americano Mitchell Seligson, coordenador do Barômetro e professor de Ciência Política da Universidade de Vanderbilt. O instrumento estatístico, que não considerou Cuba e que ainda não incorpora os dados da Venezuela, indica que valores como tolerância política e confiança institucional e interpessoal precisam ser reforçados na região. Estados Unidos, Jamaica, Costa rica e Haiti são os países politicamente mais tolerantes, em contraposição a Peru ou Bolívia.

“A confiança internacional é o conceito determinante mais importante do apoio à democracia”, disse, por sua vez, a boliviana Vivian Schwarz-Blum, que participou da análise. Nesse sentido, os cidadãos consultados que mais fé têm nos membros de sua comunidade, um aspecto ligado ao capital social, são os do Canadá, Estados Unidos, Honduras e Costa rica, enquanto os mais desconfiados são os mexicanos, bolivianos, peruanos e haitianos. Para Alejandro Moreno, especialista em pesquisas do Instituto Tecnológico Autônomo do México, o Barômetro, construído ao longo de 2006, se destaca por “sua ênfase no sistema de partidos políticos”.

Precisamente, a percepção continental após este trabalho é de que as agrupações políticas funcionam, em geral, de costas para a sociedade e que seu vínculo com os cidadãos é muito distante, para não dizer inexistente. “Estes dados afetam realmente a classe política? Creio que não. Aos dirigentes encanta a desconfiança dos cidadãos, porque os deixa operar em absoluta liberdade. Predomina a opacidade onde são tomadas as decisões públicas”, criticou Eduardo Bohórquez, diretor-executivo da não-governamental Fundação Este País, dedicada a realizar estudos políticos sobre o México.

Outro dado fundamental fornecido pela pesquisa continental é a relação dos cidadãos com a corrupção e o crime, que parecem ser o pão de cada dia das sociedades latino-americanas. Quase a metade dos entrevistados disse ter se envolvido em atos de corrupção e sido vítima de um ato criminoso. “Há muito pouco respeito pela lei e pelas instituições. A América Latina tem uma relação estreita e permanente com a corrupção, que é uma epidemia e prospera onde há condições para crescer”, disse Bohórquez, que também preside a Transparência Mexicana, a versão local da Transparência Internacional.

A critério de Dinorah Azpuru, especialista da Associação de Pesquisa e Estudos Sociais da Guatemala, a insegurança dos cidadãos ameaça a governabilidade da região. “Em cada pesquisa, sempre se destacam os temas do crime e da violência”, disse. Na Guatemala e em El Salvador, que sofreram prolongados conflitos armados internos, lideram as estatísticas de fatos criminosos. Segundo o Barômetro, cinco em cada 10 pesquisados apóiam um golpe de Estado militar justificado pela violência.

Os responsáveis pelo projeto, que também inclui temas como a efetividade dos governos, segurança pública e as administrações locais, pretendem que as diferentes autoridades levem em conta seus resultados e que estes sejam considerados na hora de definir políticas públicas. “O Barômetro agora tem de se voltar para a cidadania e aliar-se com a sociedade civil”, recomendou Bohórquez.

Emilio Godoy

Emilio Godoy es corresponsal de IPS en México, desde donde escribe sobre ambiente, derechos humanos y desarrollo sustentable. En el oficio desde 1996 y radicado en Ciudad de México, ha escrito para medios mexicanos, de América Central y de España.

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