Infância: Os sonhos que a guerra destrói

Baquba, Iraque, 06/09/2007 – Grande parte das crianças da cidade iraquiana de Baquba não podem desfrutar da escola nem das brincadeiras, que lhes são roubadas pela violência desatada pelas contínuas operações militares. Somente duas escolas provinciais públicas e um jardim de infância particular funcionam hoje em dia nesta localidade, 50 quilômetros ao norte de Bagdá, cujos 280 mil habitantes muitas vezes não têm nem o alimento de que precisam. “Ninguém fala de chocolate ou pastéis. Sabemos que não são importantes”, disse à IPS Wissam Jafar, morador em Baquba. “Os país apenas podem conseguir uma alimentação básica”, acrescentou Mahdi Hassan, pai de quatro filhos. E muitas vezes, nem isso. “As crianças comem o mesmo que os demais membros da família. As brincadeiras e os jogos acontecem apenas em festas e ocasiões especiais”, disse Jafar.

Baquba, capital da província de Diyala, esteve no centro de fortes operações militares norte-americanas para combater a rede terrorista Al Qaeda. Seus habitantes fogem da violência causada pelos dois lados. Agora, para toda uma geração de crianças iraquianas, a simples sobrevivência é um assunto fundamental.Meio milhão de crianças morreram durante o período de sanções econômicas impostas ao Iraque na década de 90, segundo a Organização das Nações Unidas. Em 1996, a jornalista Lesley Stahl perguntou à então secretária de Estado norte-americana Madeleine Albright no programa “60 minutos” da rede CBS, se ela considerava que o preço de meio milhão de crianças mortas valia a pena. Albright respondeu: “Penso que esta é uma opção muito dura, mas vale a pena”. Nesse período, morreu uma em cada oito crianças iraquianas por desnutrição, doenças que podem ser prevenidas e falta de remédios.

“Nos anos 90, as crianças estavam desnutridas, mas podiam encontrar um lugar para brincar nas ruas. Hoje, nem mesmo podem sair de casa por culpa da violência. E muitíssimas foram assassinadas”, disse à IPS o economista local Khalid Ali. Em Baquba existe um parque com alguns balanços para as crianças brincarem. Outro foi renovado há pouco tempo por uma organização não-governamental iraquiana. Os dois ficam cheios de gente nos feriados e nas férias, dias em que os pais se sentem obrigados a esquecer os riscos para que seus filhos se divirtam, ainda que somente um pouco. Em outros dias, não são vistas nesses parques mais do que duas ou três famílias. Para Sajid Assim, que ganha salário de US$ 175 por mês no Departamento de Água, o dinheiro basta apenas para alimentar sua família. “É certo que não haverá dinheiro extra para comida, roupa e brinquedos, ou para levar as crianças a um pic-nic”, afirmou. E a situação é ainda pior para que não tem emprego, que são muitos.

“O ensino foi golpeado pela situação política no Iraque”, disse à IPS Salma Majid, diretora de uma escola primária de Baquba. “Freqüentemente, as crianças não podem ir à aula. Podemos ter mais de três dias livres em uma semana. Todo ano escolar pode ficar atrasado devido à violência extrema deste ano”, lamentou. “A escola pode dar as crianças a oportunidade de brincar, mas, às vezes, isso não é seguro. Os morteiros atingiram vários edifícios escolares”, acrescentou.

Segundo informe da organização Oxfam sobre o Iraque divulgada dia 30 de julho, “92% das crianças têm problemas de aprendizado que são amplamente atribuíveis ao atual clima de temor. As escolas habitualmente estão fechadas, pois professores e alunos sentem medo. Aproximadamente 800 mil crianças podem estar fora das escolas”, acrescenta o estudo, baseado em uma estimativa da filial britânica da organização internacional Save the Children. A Oxfam também alertou que a desnutrição infantil aumentou de 19% antes da invasão de 2003 para 28% atualmente. “Mais de 11% dos bebês nasceram com peso insuficiente em 2006, contra 4% em 2003”, afirma a organização.

A escassez gerou todo tipo de dificuldade para as crianças. “Coloco um sanduíche na mochila do meu filho quando sai para a escola. Ao voltar, diz que não pôde comer porque seus colegas de sala não tinham nada para levar de lanche”, contou uma mãe que se negou a dar seu nome. Professor em uma escola primária local, Alí Abbas disse que agora é comum os alunos chegarem de estômago vazio. “Um dia, uma menina desmaiou. A levamos imediatamente até a diretoria. Quando recuperou a consciência disse que não havia comido nada naquele dia”, contou Abbas. (IPS/Envolverde)

Ahmed Ali

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