Rangun, 27/09/2007 – Em uma tentativa desesperada para manter-se no poder, a ditadura da Birmânia pisoteou ontem a tradição religiosa do país, ao reprimir ferozmente monges opositores em uma data na qual a maioria budista lota os pagodes. Os militares não mostraram compaixão ao reprimir monges budistas desarmados, que haviam contado durante dias o “metta sutta”, uma oração que se refere à bondade, e reclamando o rertorno da democracia, durante os protestos nas ruas. Os monges foram atacados durante todo o dia por policiais antimotins em Rangun, capital comercial do país. Muitos apanharam e, segundo diversas versões, entre um e cinco morreram devido aos ferimentos. Mais de cem foram presos. Diante do templo budista mais sagrado, o pagode Shwedagon, um grupo de monges iniciou uma marcha pela rua antes de começar a violência. Quando foram bloqueados pela polícia responderam com um gesto pacífico: ficaram de joelhos e pediram permissão para entrar no pagode. “Temos ordens de disparar”, disse um dos policiais. Numerosos civis presentes ao local para apoiar os monges em um novo dia de protestos começaram a gritar palavras de ordem contra os militares. “O treinamento que lhes dão não é para matar pessoas”, gritou um grupo de mulheres.
O ânimo dos monges não era diferente. Havia desaparecido a imagem de resistência pacifica que milhares deles mostraram ao liderar os civis nas manifestações de rua que esta semana reuniram mais de cem mil pessoas, um número que não era alcançado há 20 anos. “Não nos preocupam as forças de segurança. Vamos continuar com nossa marcha”, disse à IPS um jovem monge, com voz desafiadora. À noite, a junta militar parecia pronta para tomar medidas mais drásticas. O toque de recolher imposto no dia anterior foi prolongado para manter as pessoas nas ruas desde o anoitecer até o amanhecer.
“Não creio que o governo se preocupa com a pressão internacional. Eles sabem que contam com o apoio dos países não-ocidentais”, disse um jornalista desta cidade. Não é surpresa que membros do governo eleitos democraticamente, hoje no exílio, prevejam um recrudescimento da violência, devido aos ataques contra símbolos sagrados como os monges budistas. “Isto provocou a ira de muitas pessoas”, disse à IPS em Bangcoc Sann Aung, ministro do governo nacional de coalizão da Birmânia no exílio. “Os ataques contra os monges e este derramamento de sangue é algo sério. Os militares não serão perdoados por cruzarem esta linha sagrada. Colocaram claramente a força acima da religião”, acrescentou.
A sorte dos monges presos também indignará a população, segundo ex-prisioneiros políticos birmaneses que informaram sobre a situação dos direitos humanos em seu país desde a cidade de Mae Sot, no norte da Tailândia. “Podem ser torturados antes de serem enviados para a prisão de Insein, em Rangun”, disse à IPS Bo Kyi, um dos líderes da Associação de Assistência aos Prisioneiros Políticos. A clara divisão entre a junta e os religiosos ocorre pouco depois que os monges terem decidido excomungar os militares e seus seguidores, em resposta ao ataque por forças do governo, no começo deste mês, a um grupo de clérigos que protestava. Declararam que enquanto a junta não pedir desculpas não aceitaram alimentos dos militares nem compartilharão as orações com eles e os partidários do regime.
A Comissão Asiática de Direitos Humanos, com sede em Hong Kong, divulgou uma carta enviada por um monge ao homem forte da Birmânia, general Than Shwe. “O titular original do poder, o povo, foi feito vítima inocente, cada vez mais reprimido e empobrecido”, escreveu U Thangara Linkara, abade do mosteiro de Dhamma Yeiktha. “General, se o senhor realmente quer resolver as dificuldades atuais, devolva rapidamente o poder a quem ele pertence, o povo”, acrescentou. Essa é a posição da maioria dos monges, que assumiram a liderança nas marchas que se transformaram em uma revolta popular. Os religiosos declararam que se identificavam com o povo. Muitos empobreceram por causa da situação econômica.
A faísca que gerou os protestos foi a decisão da junta de aumentar o preço do combustível em 500% no mês passado. As manifestações são as maiores desde 1988, quando uma revolta popular que reclamava democracia foi brutalmente sufocada pelos militares, quando cerca de três mil pessoas foram assassinadas. Os militares, que estão no poder há 45 anos, não mostram sinais de arrependimento por essa brutal repressão. Segundo o ministro de Culto, general Tura Myint Maung, a raiz do problema está na ação de agitadores “com ciúmes do desenvolvimento nacional e da estabilidade”. Os protestos, acrescentou, são “sistematicamente manipulados desde o exterior”.

