Naciones Unidas: Dívida dos EUA afeta missões de paz da ONU

Nações Unidas, 27/09/2007 – No momento em que o presidente George W. Bush se dirigia à Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas na terça-feira, seu governo se dispunha a acumular uma dívida de quase US$ 2 bilhões com a ONU. Como principal promotor de missões de manutenção da paz das Nações Unidas, Washington é o responsável por assegurar a provisão de recursos para essa gestão, advertiu a não-governamental Fundação das Nações Unidas. Porém, os Estados Unidos não cumpriram a responsabilidade por suas dívidas com o fórum mundial, afirma a fundação, com sede em Nova Yorque e fundada pelo empresário Ted Turner.

Os Estados Unidos acumulam uma dívida superior a US$ 1 bilhão por suas contribuições regulares com a ONU, incluídas as destinadas a missões de paz. O orçamento para o ano fiscal de 2008 prevê pagamento às Nações Unidas de US$ 1,1 bilhão, valor bem abaixo dos US$ 2,6 bilhões que, segundo as previsões, este país comprometeria para as missões de manutenção da paz nesse mesmo ano. A aprovação da missão de paz para a região sudanesa de Darfur (Unamid) elevou os gastos previstos para Washington na matéria. Mas, até agora nem o governo Bush nem o Congresso norte-americano destinaram dinheiro ao contingente.

Perante a Assembléia Geral Bush reiterou que a crise em Darfur é um “genocidio” e enfatizou que a “ONU deve responder ao desafio e cumprir sua promessa de enviar logo uma missão de manutenção da paz” na região. Mas, Timothy E. Wirth, presidente da Fundação das Nações Unidas, recordou que o Poder Executivo nos Estados Unidos “pediu financiamento para apenas 20% de sua parte da missão em Darfur, e que se encaminha a ficar devendo mais de US$ 1 bilhão apenas para as missões de manutenção da paz das Nações Unidas”. A Unamid, com 26 mil soldados, será uma força híbrida, pois dela também participará a União Africana, sendo a mais difícil, complexa e cara da história da ONU. A operação começará em outubro.

Incluindo o deslocamento e gastos para o resto do ano se prevê que a Unamid terá custo superior a US$ 3 bilhões ao longo de 2008. A parte de Washington é calculada em US$ 884 milhões. Uma lei orçamentária destinou em janeiro US$ 160 milhões para a manutenção da paz em Darfur, por isso restam US$ 724 milhões. “Os Estados Unidos trabalharam com outras nações para assegurar a criação de uma força internacional que detenha a horrenda violência na região”, disse Wirth. “Agora deve cumprir sua palavra e financiar a missão em Darfur, bem como outras que a ONU tem. É impossível este fórum internacional, “cumprir sua promessa” de enviar uma força de paz a Darfur se países como os Estados Unidos não pagam as missões que eles mesmos votam no Conselho de Segurança”, lamentou.

A dívida norte-americana com as missões de paz cresce quando Washington vota a favor da criação de cada vez mais contingentes, e maiores. Em seu caráter de membro permanente do Conselho de Segurança, os Estados Unidos poderiam ter vetado alguma das 18 missões hoje em curso na ONU. Mas, isso não ocorreu, muito pelo contrário. No passado recente, aprovou com seu voto a multiplicou por sete do contingente no Líbano, a ampliação da Unamid, o adiamento do fim do mandato da missão no Haiti, a renovação da missão em Timor Leste e novas operações no Chade, Nepal e na República Centro-africana.

O orçamento dos Estados Unidos para 2008 destina US$ 169 milhões para a missão na República Democrática do Congo (Monuc), quase a metade do que foi indicado no orçamento anterior. Este corte pode desestabilizar o país africano, em um momento delicado após eleições que renovaram os conflitos, segundo a Fundação Nações Unidas. Também diminuiu a contribuição de Washington para a missão da ONU na Libéria, que requer US$ 110 milhões. Nos últimos três anos, o Conselho de Segurança criou nove novas missões de manutenção da paz, e a quantidade de soldados que as integram triplicou.

O Departamento de Operações de Manutenção da Paz (DPKO) da ONU registra hoje mais de cem mil soldados e policiais. Trata-se da segunda força armada organizada e regular do mundo, depois da norte-americana. Em dezembro de 2006, os Estados Unidos acertaram com a ONU uma negociação de suas dívidas. Por outro lado, as missões de paz têm apoio em altos níveis da administração Bush. A Controladoria Geral dos Estados Unidos (GAO), órgão que funciona na órbita do Congresso mas que faz suas avaliações de maneira independente, calculou que este país gastaria oito vezes mais se assumisse sozinho as tarefas de paz encomendadas pela ONU.

Mithre J. Sandrasagra

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