Pintadas, Bahia, 01/10/2007 – Quando Pintadas atreveu-se a eleger uma prefeita do então opositor e esquerdista Partido dos Trabalhadores em 1996, a represália foi imediata. O conservador governo da Bahia fechou o único banco existente neste pequeno e pobre município do nordeste do Brasil. A comunidade local passou a depender dos serviços bancários de Ipirá, a 50 quilômetros de distancia, no entanto, já contava com uma organização suficiente para superar o problema. Em pouco mais de um ano criou a Cooperativa de Crédito Rural com 50 sócios e apenas R$ 10 mil de capital. Hoje o banco tem quase três mil sócios, seu capital multiplicou por mil e seus serviços bancários convencionais e de microfinanças se expandiram rapidamente e já possui sucursais em três cidades vizinhas.
Incorporada ao Sistema de Cooperativas de Crédito do Brasil (Sicoob), integra uma rede nacional com mais de um milhão de beneficiários. O condutor deste triunfo, Valcyr Almeida Rios, é o atual prefeito de Pintadas, que sucedeu Neusa Cadore, cuja eleição em 1996 provocou essa mudança na área financeira, que não é uma conquista isolada. O Índice de Desenvolvimento Humano municipal aumentou de 0,502 em 1991 para 0, 625 em 2000, um nível médio no Estado da Bahia, embora no quarto inferior dos 5.507 municípios brasileiros. Houve uma melhora sensível em educação. Pintadas ficou em 34º lugar na lista de 417 municípios baianos nas últimas provas de avaliação escolar, afirmou Cadore.
Além disso, houve avanços em saúde e qualidade de vida. Quase todos os 1.600 domicílios rurais do município contam com cisternas para armazenar água de chuva. Dessa forma, Pintadas avançou a meta da Articulação do Semi-árido (ASA), uma rede de mais de 700 organizações que promove a construção de um milhão dessas cisternas no sertão, a região nordestina escassa em recursos hídricos, para assegurar água potável aos seus 8,3 milhões de habitantes rurais. Já foram instaladas mais de 200 mil. Pintadas, de apenas 11 mil habitantes, sem riquezas naturais e com um clima desfavorável, parece comprovar que o desenvolvimento comunitário constitui no longo prazo um fator importante para que uma pequena coletividade possa superar a pobreza e escassez de recursos materiais.
Em matéria econômica, o município tem pouco a oferecer. É um dos 20 de menor arrecadação de impostos da Bahia, grande parte de seus alimentos vê de fora e três mil de seus habitantes deixam a cidade a cada ano para trabalhar na safra de cana-de-açúcar ou na colheita de laranja no distante Estado de São Paulo. Além do banco Siccob Sertão, os moradores criaram a Escola Família Agrícola para evitar o êxodo de jovens e recuperar a agricultura, e a Cooperativa Agroindustrial, que apóia a pecuária com financiamento e um abatedouro, além de várias associações. No total são 11 entidades que desde 1999 se articulam na chamada Rede Pintadas, mobilizando mulheres, jovens, apicultores, agricultores e religiosos.
Alguns fatos, com a luta de 16 famílias camponesas que recuperaram suas terras com apoio comunitário e um projeto agrícola de autogestão, em meados dos anos 80 e início da década seguinte, produziram novas organizações. Esse forte movimento associativo partiu da Igreja Católica, criadora das Comunidades Eclesiais de Base, uma ação que se intensificou com a chegada de religiosos italianos e do Estado de Santa Cataria nos anos 70 e 80. Cadore, enfermeira e ativista social laica, foi parte de um grupo de 32 pessoas ligadas à Igreja em Santa Catarina que se dispuseram a cumprir uma missão em diferentes partes da Bahia a partir de 1984. O compromisso era por dois anos, mas ele ficou em Pintadas com uma colega.
Sua atividade de 13 anos como agente pastoral em comunidades e associações e sua qualidade de liderança a converteram na candidata à prefeitura em 1996, quando o movimento social considerou necessário ampliar suas lutas no campo político, para transformar suas iniciativas em políticas públicas, recordou Cadore. Durante sua gestão, a população escolhia as prioridades em debates públicos. A água foi a primeira, e o resultado é a universalização das cisternas no meio rural. Mas, também na cidade os moradores construíram cisternas por conta própria para substituir a água que chega pela torneira – salobra e vista como sendo de baixa qualidade – para beber e cozinhar. Sem nenhum rio perene, o município procura aproveitar as escassas chuvas da melhor forma.
Outra prioridade foi construir as pequenas represas que retêm a água e criam condições para irrigar a agricultura local. Em Pintadas, “a prefeitura é aliada do movimento social”, define Rios, também do PT. E é uma experiência que permanecerá, não importa que esteja à frente do governo municipal, porque a organização social é independente e formou uma ampla liderança. “Mais de cem pessoas já dirigiram algum componente desse movimento”, afirmou.
O exemplo se espalha. Cadore foi eleita deputada estadual em 2006 com 2.860 votos dos eleitores de Pintadas, a metade dos votos locais validos, e mais de 32 mil de outros municípios, especialmente os vizinhos. A projeção regional das realizações do Município, refletida em visitas e contatos, animou sua nova candidatura eleitoral. Todos os votos de seu município eram insuficientes para elegê-la. A missão de seu novo mandato, no âmbito estadual, é ampliar esse alcance e a articulação com outros movimentos, reconheceu Cadore.
No entanto, Pintadas é um caso singular. Os missionários católicos e as Comunidades Eclesiais de Base, incentivados pela corrente progressista da Teologia da Libertação, foram ativos em numerosas partes do País, mas sem conseguir semelhante organização e mobilização social. No Nordeste há outras experiências de sucesso e pouco conhecidas, mas este município se destaca por “seu forte tecido associativo”, por seus líderes comunitários em renovação e por um projeto político com “visão de longo prazo e uma proposta de transformação social”, avaliou Carlos Milani, professor da Universidade Federal da Bahia.
A “competição política de baixa qualidade” da oposição conservadora, carente de propostas convincentes, também contribuiu para o processo, segundo Milani, que incluiu Pintadas em seus estudos sobre capital social e desenvolvimento local, destacando o caráter “coletivo” e “contestador” de seu movimento sob influencia da Igreja progressista e em luta contra as desigualdades sociais. O Município “já se diferenciava, tinha espírito comunitário” e de trabalho coletivo desde antes, o que favoreceu a ação pastoral baseada na Teologia da Libertação, afirmou Cadore. O “respeito à autonomia” do movimento social por parte da Igreja e uma população pouco numerosa, na qual todos se conhecem e se ajudam, contribuíram para consolidar a organização, acrescentou o professor. Para o prefeito Rios, o relativo isolamento da cidade, com acesso difícil em uma estrada de 48 quilômetros sem pavimentação, foi outro fator positivo.
“O longo tempo e a persistência na proposta” foram elementos do êxito, além do desenvolvimento de lideranças múltiplas, especialmente da Associação de Mulheres, afirmou Thais Corral, fundadora e coordenadora de Rede de Desenvolvimento Humano e de Comunicação, Educação e Informação em Gênero, duas organizações não-governamentais que apóiam o progresso em Pintadas. “Minha experiência em diferentes projetos sociais indica maior espírito coletivo e de colaboração quando há maioria de mulheres com voz ativa”, acrescentou.
Corral coordena, junto com o italiano Daniele Cesano, especialista em energias renováveis, o Projeto Pintadas Solar, que busca testar e desenvolver em dois anos tecnologias para adaptar as terras semi-áridas às mudanças climáticas, por meio de irrigação sustentável para promover a segurança alimentar. Pintadas foi escolhida para essa experiência por dispor de organização social e infra-estrutura hídrica, representada em mais de 60 pequenas represas, explicou. O projeto-piloto estimula o uso de energias renováveis, como a solar, para bombear água das represas para irrigar por gotejamento as plantações, uma técnica que não desperdiça esse precioso liquido. Mas, embora a organização seja “um ativo importante”, não garante por si só o futuro de uma comunidade se esta se acomoda, se isola e não enfrenta os novos desafios da “sustentabilidade social, tecnológica e econômica”, ressaltou Corral.
Crédito de imagem: Di Cavalcanti (Envolverde/ IPS)

