Montevidéu, 01/10/2007 – “Daniel San Juan Tolentino cavou seu próprio túmulo. Uma montanha de terra caiu sobre ele e o sepultou”. Assim começa a reportagem sobre as crianças diaristas do México, ganhadora do Concurso Jornalístico América Latina e os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, organizado pela IPS e pelo PNUD. Daniel, de 12 anos, tinha de cavar uma barreira para evitar que as chuvas arruinassem a colheita onde trabalhava. Mas uma enxurrada de barro o venceu.
Sua história foi uma das descritas com arte na série “Crianças diaristas”, publicada no jornal mexicano Excelsior entre 27 e 29 de junho por uma equipe encabeçada por Marcela Turati, Laura Toribio e Lucía Irabién, que obteve o primeiro lugar no concurso organizado pela agência de notícias IPS (Inter Press Service) e pelo PNUD (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento).
A idéia de “um concurso jornalístico latino-americano dedicado a premiar trabalhos que melhor reflitam os conflitos da região para alcançar os esquivos e tantas vezes distantes Objetivos de Desenvolvimento do Milênio são como jogar sal na ferida”, afirmou um dos membros do júri, o escritor cubano Leonardo Padura. Foram apresentados 446 trabalhos de 19 países da América Latina e do Caribe, escritos em espanhol, português e inglês para órgãos de imprensa da região, entre 1º de outubro de 2006 e 30 de junho deste ano. “Esse outro jornalismo, desconhecido e esquecido por razões obvias, mostrou suas credenciais e demonstrou que no universo latino-americano, oculto atrás do jornalismo mais difundido, existe este, com vocação de participação e sentido de utilidade”, acrescentou Padura.
Outros seis trabalhos de jornalistas de Brasil, México, Uruguai e Honduras foram premiados pelo júri integrado por Padura, seu colega mexicano Carlos Monsiváis; a presidente da Fundação para a Liberdade de Imprensa da Colômbia, Maria Teresa Ronderos; o diretor-geral da IPS, Mario Lubetkin, e pela diretora regional do PNUD para a América Latina e o Caribe, Rebeca Grynspna.
O segundo prêmio foi para “Fases da Maternidade”, de Bruna Cabral de Vasconcelos e Mona Lisa Dourado, publicada no Jornal do Commercio de Recife. Trata-se de um relato das experiências de muitas mães e “apresenta um rico e cruel panorama da maternidade no Brasil”, afirmou o júri. “Nenhum dos rituais cotidianos da estudante de biologia Flávia Santiago, de 26 anos, que com sete meses de gravidez espera ansiosa a chegada do primeiro filho, jamais foi experimentado por Nadja Batista Borges, de 29 anos, que abandonou o curso primário no terceiro ano. Ela também está grávida. Do sétimo filho”. De acordo com Bruna e Mona Lisa, “o amor pelo filho pode ser o mesmo. O que muda é o endereço. Nadja mora em uma favela em Santo Amaro. Flavia vive com seu marido em um confortável apartamento no bairro de Espinheiro”.
Para a colombiana Ronderos, o concurso foi “uma maravilhosa oportunidade de descobrir o que acontece conosco, como nos vemos como latino-americanos, com estamos pensando nossos graves problemas sociais e como buscamos saídas”. A contaminação e outros dramas ambientais, os problemas da violência na infância e na juventude, a pobreza, a exploração, a desigualdade de gênero foram alguns dos caminhos trilhados pelos autores, todos levando a essa esquiva agenda do milênio que os governos do mundo se comprometeram a cumprir no prazo de 15 anos, no começo deste século.
A extensa reportagem “Morrer na pobreza”, publicada na revista mexicana Contralínea por Zósimo Camacho e sua equipe, e “Mata Atlântica, a floresta esquecida”, de Paulo Aurélio Martinelli e Raquel Lima para o jornal brasileiro Correio Popular, dividiram o terceiro lugar. O quarto prêmio foi para César Bianchi, autor de “O pequeno Comcar”, publicada no jornal uruguaio El País, sobre uma escola para crianças com “comportamento tão ruim que não podem freqüentar escolas normais”. O escritor Monsiváis disse que “foi frutífera e aterradora a experiência de ler estes trabalhos. São, na qualidade de sua informação e em seu olhar crítico, realmente excepcionais”.
Para o diretor da IPS, trata-se de um “quadro muito vivo dos dramas e das esperanças de nosso continente. Muitos deles conseguem hoje com sucesso transmitir a gravidade dos problemas e a urgência de encontrar soluções”, disse Lubetkin.
“Tolupnaes, paraíso dos abandonados”, de César Antonio Rivera Irias e publicado no jornal hondurenho El Heraldo, e “Violência extrema nas escolas”, de Humberto Padggett Leon para a revista Emeequis, do México, dividiram o quinto prêmio.
A diretora regional do PNUD, Grynspan, alegrou-se em “compartilhar a emoção de ler estes trabalhos da realidade latino-americana e o importante é que este prêmio proporciona relevância ao esforço dos jornalistas e dos órgãos de comunicação para colocá-la sobre a mesa”.
Os três primeiros colocados têm prêmios de US$ 5 mil, US$ 2.500 e US$ 1.000, respectivamente. A cerimônia de premiação acontecerá na capital mexicana no mês que vem. A IPS vai publicar um livro reunindo todos os artigos premiados.
(Envolverde/ IPS)

