Birmânia: Continua a perseguição de opositores na Birmânia

Rangun, 05/10/2007 – As noites já não são as mesmas para um monge budista de 45 anos que vive em um monastério na área de Myay Ni Gone, perto do coração desta cidade da Birmânia. Também os sonhos não são os mesmos. “Vivo com medo quando escurece. Não posso dormir pensando que os soldados invadirão novamente, durante a noite”, disse, enquanto fazia sua caminhada matinal por uma rua de Rangun, olhando desconfiado ao redor. “Me sinto inseguro quando vejo soldados ou policiais antimotins. Penso que vão me bater como fazem com outros monges. Tenho medo de ser preso”, acrescentou.

Este é um sentimento compartilhado por muitos birmaneses nos últimos dias, não apenas os reverenciados monges budistas. “Quando falamos com alguém fora de nossas casas o fazemos sussurrando. Nos olhamos com suspeita”, disse um homem de 30 anos que tem um pequeno negócio em outra zona desta cidade. Esta sensação de vulnerabilidade contrasta com a euforia mostrada na semana passada pelas dezenas de milhares de pessoas que, lideradas pelos monges, marcharam em protestos de uma magnitude inédita na Birmânia nos últimos 20 anos. As pessoas que estavam nas ruas ou janelas dos edifícios os aplaudiam e incentivavam.

Mas, depois começou a repressão. O exército, a polícia antimotins e milícias organizadas pelo governo usaram balas e cacetetes para silenciar os monges e civis que expressaram sua raiva pelas penúrias econômicas e pela permanência da junta militar no poder. No fim de semana, Rangun tinha o aspecto de uma cidade ocupada, com tropas nas proximidades de pagodes, edifícios públicos e nas esquinas. Para a junta foi suficiente demonstrar que havia recuperado o controle das ruas coincidindo com a chegada do enviado especial da Organização das Nações Unidas, Ibrahim Gambari.

O diplomata começou no sábado uma visita de quatro dias. Reuniu-se com o homem forte da junta, general Than Shwe, e com a líder da oposição democrática, Aung San Suu Kyi, que está em prisão domiciliar. Gambari comunicou aos generais o mal-estar da comunidade internacional pela sangrenta repressão dos protestos pacíficos. Mas, é claro que a junta não tem intenções de ceder. O chanceler Nyan Win disse esta semana na Assembléia Geral da ONU que a “normalidade” havia retornado ao país.

“A situação não teria se deteriorado se os protestos iniciais de um pequeno grupo de ativistas contra o aumento no preço dos combustíveis não tivesse sido explorada por políticos oportunistas”, afirmou Win. Segundo o chanceler, as tropas agiram “com a maior moderação” diante da “provocação” dos manifestantes. Quando Gambari deixou a Birmânia, as autoridades se dedicaram durante dois dias a prender moradores e trabalhadores das áreas onde aconteceram os protestos, incluindo as proximidades dos pagodes de Shwedagon e Sule. Os monges budistas não ficaram imunes às detenções.

“A situação piorou esta semana. As tropas e a polícia se mobilizam com as fotos das pessoas que procuram”, disse à IPS, em Bangcoc, Soe Aung, porta-voz para relações exteriores do Conselho Nacional da União da Birmânia, um grupo político opositor. “Estão ameaçando muitos os que consideram participantes dos protestos”, acrescentou. Inclusive os comerciantes que estão nas ruas pelas quais os manifestantes marcharam foram ameaçados, disse à IPS Zin Linn, diretor de Informação do governo Nacional de Coalizão da União da Birmânia, que foi democraticamente eleito e forçado a se exilar pelos militares.

As prisões desta semana seguem-se às de aproximadamente 700 monges e civis detidos durante os protestos, incluindo um menino de 13 anos que estava perto da entrada do pagode de Shwedagon. Os monges foram tirados de seus monastérios em incursões militares noturnas. Os presos desta semana foram classificados em três grupos: os manifestantes e seus líderes, os que demonstraram seu apoio, incluindo quem aplaudiu os monges quando estes passavam, e os que estavam na zona de protesto e foram testemunhas da repressão. Inclusive, um membro da delegação da ONU foi preso. Os detidos estão em Mingalardon, área nos arredores de Rangun que tem uma grande base militar, e no Instituto Tecnológico, no norte da cidade.

Nestes último local, ontem, cerca de 20 soldados montavam guarda em uma grande estrutura, recém-pintada e com aspecto de um deposito. De longe, aparentava ter poucas janelas e ventilação. Acredita-se que cerca de 1.700 pessoas estejam detidas nesse lugar. As detenções alteraram a vida da cidade. Há poucos monges nas ruas realizando o ritual matutino comum: caminhar em fila buscando almas que enchessem suas tigelas. Em uma casa de Rangul era comum alimentar nove monge por dia. Depois das prisões, apenas um reiniciou esta prática habitual.

( IPS / Envolverde)

Marwaan Macan-Markar

Marwaan Macan-Markar is a Sri Lankan journalist who covered the South Asian nation's ethnic conflict for local newspapers before joining IPS in 1999. He was first posted as a correspondent at the agency's world desk in Mexico City and has since been based in Bangkok, covering Southeast Asia. He has reported from over 15 countries, writing from the frontlines of insurgencies, political upheavals, human rights violations, peace talks, natural disasters, climate change, economic development, new diseases such as bird flu and emerging trends in Islam, among other current issues.

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