Washington, 29/10/2007 – Os Estados Unidos anunciaram novas sanções econômicas contra o Irã, pelo permanente desafio que supõem as aspirações nucleares do regime islâmico e seus supostos vínculos com organizações terroristas. O anuncio feito pelo governo de George W. Bush na quinta-feira coincide com o agravamento das tensões com o Teerã e com uma aceleração da espiral retórica de Washington., “OS Estados Unidos adotam uma política global para enfrentar a ameaça que supõe o governo iraniano”, afirmou a secretária de Estado, Condoleezza Rice em entrevista coletiva junto com o secretário do Tesouro, Henry Paulson. “O secretário Paulson e eu anunciamos novas medidas para elevar o custo para o Irã de seu comportamento irresponsável”, afirmou Rice.
Rice e Paulson apontaram três grandes bancos iranianos e os Guardiões da Revolução, força de segurança do regime xiita, como patrocinadores do terrorismo e do programa nuclear que pode dotar o país da bomba atômica. “O governo iraniano rechaça nossa oferta de manter negociações abertas e, por outro lado, coloca em risco a paz e a segurança ao insistir em contar com tecnologia nuclear, capaz de dotá-lo de armas atômicas e perigosos mísseis, e em apoiar militantes xiitas no Iraque e terroristas no Afeganistão, Líbano e nos territórios palestinos”, disse Rice.
O ex-presidente Jimmy Carter (1977-1981) foi o primeiro a implementar sanções contra o Irã em 1979. Na época a medida foi tomada pela ocupação da embaixada norte-americana em Teerã por estudantes iranianos que haviam aderido ao flamante regime islâmico encabeçado pelo aiatolá Ruollah Khomeini. Na ocasião circulavam rumores de que a sede diplomática seria usada para uma tentativa de recolocar no trono o xá Mohammad Rez Pahlevi, pouco depois de sua derrubada pela Revolução Islâmica desse ano. Desde então, as sanções dispostas pela Casa Branca endurecerem e passaram a integrar a legislação.
Estas últimas sanções são unilaterais e extra-territoriais e impedem que organizações nacionais e estrangeiras, mas com dependências nos Estados Unidos, tenham negócios com pessoas pertencentes aos bancos, às forças de segurança e a outras organizações iranianas detalhadas nos documentos oficiais. As sanções extra-territoriais foram impugnadas por serem ilegais em numerosos tribunais norte-americanos e freqüentemente são invalidades porque atentam contra a soberania de outros países. As novas medidas deixarão ainda mais tensas as relações, já críticas, dos Estados Unidos com seus aliados. Apesar de tudo, “Washington continua comprometido em encontrar uma solução diplomática com o Irã”, ressaltou Rice por duas vezes.
Porém, numerosos críticos afirmam que com essa atitude os Estados Unidos somente conseguirão o contrário. “O governo de Bush coloca as sanções no contexto de seu enfoque diplomático”, disse William Reinsch, presidente do Conselho Nacional de Comércio Exterior e um dos presidentes da USA*Engage, coalizão de empresários contra as sanções unilaterais pelos prejuízos que causa à economia norte-americana. “As sanções visam castigar o Irã, mas seus principais efeitos serão sentidos nas empresas de terceiros países. Por isso, é pouco provável que tenham resultados diplomáticos positivos”, ressaltou Reinsch.
As sanções foram anunciadas após provocadoras declarações do presidente Bush e do vice-presidente, Dick Cheney, que levaram numerosos críticos a especular se as novas sanções fazem parte de um plano de enfrentamento mais agudo. Bush declarou há alguns dias que se o Irã se dotar de armas nucleares o planeta caminhará para a “terceira guerra mundial”. Por sua vez, Cheney disse que “a comunidade internacional se prepara para impor duas conseqüências” no caso de o Irã não cumprir as demandas.
“Os Estados Unidos recorrem muito a paus e não a cenouras na disputa com Irã’, afirmou Jim Cason, do não-governamental Comitê de Amigos da Legislação Nacional, com sede em Washington. “O aumento de ameças dos Estados Unidos sempre fez elevar as do Irã. Estas sanções afetarão a política iraniana, mas a empurram para o enfrentamento”, acrescentou. As sanções se estendem a toda pessoa ou organização com relações com os Guardiões da Revolução. A força foi criada pouco depois da derrubada do xá em 1979. acredita-se que seja integrada por cerca de cem mil efetivos, que possuem vínculos estreitos com o governo do Irã e que participa da atividade econômica desse país.
“Os Guardiões da Revolução estão tão imersos na economia e no comércio do Irã que se alguém tem negócios com esse país também tem com essa força”, disse Paulson, ao afirmar que os Estados Unidos sabem que as sanções vão prejudicar toda a economia da República Islâmica. As novas sanções contra os Guardiões também fecharão as portas a funcionários de alto nível. “A metade do gabinete atual e 30% do parlamento” iraniano têm vínculos com essa força de segurança, disse Cason. Com uma política manifestamente tendente a isolar o Irã, existe a preocupação de que as sanções acabem por colocar os setores da população mais afins com os Estados Unidos contra esse país.
“Os iranianos vêem televisão e navegam pela Internet”, disse Cason. “Se não estivesse no Irã e soubesse disso, não levaria a sério essas soluções diplomáticas. Há boas pessoas nos Estados Unidos e no Irã que procuram promover o diálogo e se vêem desiludidas por estas sanções radicais”, acrescentou. Rice disse ao povo iraniano: “Nos Estados Unidos não temos nenhum conflito com vocês. Queremos que tenham oportunidades para se desenvolverem e prosperar com dignidade, incluído o uso pacifico da energia nuclear”.
Porém, esse comentários foram recebidos com desconfiança à luz das declarações feitas no mês passado pelo diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica, Mohamed El Baradei. “O Irã proporcionou acesso e informação adicional à agência para resolver uma quantidade de questões pendentes há tempo”, disse El Baratei, que pediu maior participação e pesquisa no programa nuclear. “O que Washington diz é que primeiro se deve alcançar um acordo e depois conversarmos”, explicou Carson. “Mas, não é assim que se negocia. Primeiro se fala, e depois chega-se a um acordo”, acrescentou. (IPS/Envolverde)

