Pequim, 29/10/2007 – O governo da China lançou sua primeira sonda lunar em missão de exploração e pretende promover seu êxito, a fim de ressaltar sua vontade de descer o véu que cobria seu muito criticado e secreto programa espacial. O lançamento do foguete levando a sonda Chang’e 1, na quarta-feira, foi um espetáculo de Estado, transmitido ao vivo pela televisão, divulgado e vendido com antecipação por agências de viagem, supervisionado e dirigido por uma dezena de especialistas espaciais em todos os meios de imprensa. Essa publicidade sem precedentes marca um absoluto contraste com os tempos em que o programa espacial de Pequim estava envolvido pelo segredo.
Os objetivos que a China persegue agora também diferem dos que tinha nos anos 60, quando desenvolveu seus primeiros satélites em um período de isolamento político. “Isto nada tem a ver com o clima da Guerra Fria ou a busca da hegemonia”, disse Zhu Yilin, membro da Academia Internacional de Astronáutica. “A exploração espacial é um reflexo do poderio nacional e de seu prestígio internacional. O lançamento da Chang’e 1 é um marco para a China. Significa que preenchemos as lacunas de nosso programa de exploração espacial”, acrescentou.
A data escolhida também foi carregada de simbolismo político. O lançamento aconteceu a poucos dias do encerramento do 17º Congresso do Partido Comunista, que consagrou a herança do “desenvolvimento cientifico” promovido pelo presidente, e líder partidário, Hu Jintao. A China tem uma longa tradição de levar adiante missões científicas para celebrar a conclusão de acontecimentos políticos importante.s mas este apego aos costumes significou deixar o Japão na liderança da não declarada corrida espacial na região.
No mês passado, o Japão se converteu no primeiro país da Ásia a enviar uma sonda à lua, batizada de Kaguya, em homenagem a uma princesa lunar protagonista de um conto de fadas. Os cibernautas chineses deploraram esse atraso no início da missão e lamentaram que o país tenha se atrasado em uma competição que aqui está carregada de matizes nacionalistas. O nome da sonda, Chang’e 1, uma deusa lunar, também deu rédeas soltas a todo tipo de cenários fictícios sobre potenciais encontros entre as duas naves espaciais. “Kaguya começou com vantagem, mas logo veremos quem chega primeiro”, dizia uma mensagem colocada em um site da internet.
Os funcionários chineses, porém, foram cuidadosos em evitar qualquer sugestão sobre uma rivalidade na corrida espacial. “O Japão começou suas pesquisas de exploração lunar muito antes de nós. Por isso sempre enfatizamos que com a missão de Chang’e1 não queremos falar sobre quem está na frente”, disse Zhang Jianqi, diretor do Centro de Lançamento de Satélites Jiuquan. Os objetivos científicos da China e do Japão são muito semelhantes e os cronogramas de seus programas praticamente idênticos. As duas sondas vão explorar a lua durante um ano, elaborando mapas e transmitindo à Terra informação geoquímica. Tanto Pequim quanto Tóquio planejam enviar uma missão tripulada em 2025.
Os dois paises estão um passo à frente da Índia, que planeja enviar sua sonda Chandrayaan 1 no próximo ano, quando os Estados Unidos também lançarão seu Orbitador de Reconhecimento Lunar. Este novo impulso na exploração da lua ocorre após uma pausa de mais de 30 anos desde a finalização do programa Apolo, processado nos anos 60 e 70. especialistas chineses negaram que Pequim esteja meramente repetindo o que outros países já fizeram. Destacaram que o principal incentivo é a riqueza da lua em recursos naturais, especialmente suas abundantes existências de hélio-3, uma fonte de energia de fusão raramente disponível na Terra.
“É verdade que a China faz parte da segunda grande onda de exploração lunar, mas ser membro deste clube não é apenas um testemunho de nosso progresso espacial, mas também é nosso dever cientifico”, disse He Weiliang, professor da Universidade de Aeronáutica e Astronáutica de Pequim, o geólogo Ouyang Ziyuan, decano do programa nuclear chinês, foi mais explicito sobre o aspecto político das ambições espaciais do país. “A expedição aumentará a influência política da China no mundo”, disse em uma declaração publicada no site da Academia Chinesa de Ciências.
O governo chinês foi acusado de manter extremamente secreto seu programa espacial, que após anos de fracassos progrediu enormemente, em linha com o espetacular crescimento econômico das últimas décadas. A China é o terceiro país que conseguiu colocar cosmonautas em órbita terrestre usando seus próprios foguetes. E este ano causou alarme nos Estados Unidos e em outras nações asiáticas ao exibir sua avançada tecnologia antimísseis com a derrubada de um de seus velhos satélites meteorológicos.
Desde então, aumentou a preocupação sobre as intenções do programa e as dúvidas sobre o compromisso da China em manter o espaço livre de armas. A publicidade sem precedentes dada ao lançamento da sonda foi uma mensagem para acentuar o caráter pacíficio das atividades espaciais de Pequim. “A China não embarcará em uma corrida à lua com nenhum país e adere a uma política de uso pacífico do espaço”, disse à agência estatal de notícias Xinhua o comandante do projeto orbital, Luan Enjie.
Os Estados Unidos, entretanto, não deixam de lado suas suspeitas e até o momento rechaçaram os esforços da China para fazer parte da Estação Espacial Internacional. Porém, alguns especialistas alertam que isolar Pequim somente estimulará seu desejo de seguir avançando por conta própria. Seja por acidente ou por causa de um cuidadoso planejamento, o lançamento da Chang’e 1 ocorreu apenas horas depois do lançamento do ônibus espacial norte-americano Discovery rumo à Estação Espacial Internacional. (IPS/Envolverde)

