Saúde: A maior complicação do parto é a desigualdade

Nações Unidas, 15/10/2007 – Os Estados Unidos figuram no 41º lugar em uma nova análise sobre mortalidade materna em 171 países elaborada por especialistas em saúde pública da ONU. Apesar de sua enorme riqueza e avançada tecnologia, esta nação está muito atrasada em relação a outros países industrializados – e, inclusive, em relação a alguns em desenvolvimnto – na hora de dar adequada atenção à saúde das mulheres durante a gravidez e o parto. O estudo, apresentado sexta-feira na sede da Organização das Nações Unidas, mostra que inclusive um país considerado “em desenvolvimento” pela comunidade internacional, como é o caso da Coréia do Sul, está em uma posição superior à norte-americana nesta área.

“As mortes desnecessárias por complicações ligadas à gravidez e ao parto se devem ao fato de os Estados Unidos seguirem por um caminho incorreto”, disse Beneva Shulte, da Women Deliver, organização com sede em Washington que defende os direitos reprodutivos das mulheres e seu acesso aos serviços de saúde pública deste país. Baseado em dados de 2005, o estudo, feito pela Organização Mundial da Saúde, o Fundo das Nações Unidas para a Infância e Fundo das Nações Unidas para a População, mais o Banco Mundial, indica que uma em cada 4.800 mulheres nos Estados Unidos corre risco de morte na gravidez.

Em contraste, entre os 10 países industrializados que ocupam os primeiros lugares da lista, menos de uma em cada 16.400 enfrenta situação semelhante, diz o documento, intitulado “Maternal Mortality in 2005”. Segundo os especialistas, a razão é que em muitos países europeus e no Japão no mundo industrializado, garante-se às mulheres serviços de saúde e planejamento familiar de boa qualidade, que minimizam seu risco de morte. Especialistas independentes e legisladores responsabilizam a atual política de saúde pública do governo norte-americano por seu péssimo desempenho, pois 47% dos cidadãos dos Estados Unidos não têm acesso a seguro saúde. A maioria deles é de negros e outras minorias étnicas ou religiosas.

“Devemos nos assegurar que as grávidas tenham cobertura. Embora tenhamos a melhor tecnologia, nem todos possuem acesso a cuidados médicos”, disse à IPS a congressista democrata Lois Capps, lembrando que o alcance do problema pode ser ainda pior do que aparenta. “Temos que melhorar nossa coleta de dados. Não creio que tenhamos toda a informação”, explicou. Especialistas da ONU que prepararam a análise disseram ter desenvolvido novos critérios para calcular a mortalidade materna, para superar a falta de dados em alguns países e corrigir os que estão disponíveis e contêm erros por informarem menos casos do que os reais e classificá-los mal.

Afirmam que essa inconsistência nos dados sobre mortes e em sua classificação cria amplas incertezas em muitos lugares, inclusive em países industrializados. Mas, quase com certeza, todos os cálculos subestimam o problema. Eve Lackritz, chefe de Saúde Materna e Infantil nos Centros para o Controle das Enfermidades, identificou a “desigualdade racial” como o principal fator da alta mortalidade materna dos Estados Unidos. “As mulheres negras são quatro vezes mais vulneráveis do que as brancas”, disse Lackritz à IPS. Segundo esta alta funcionária, a obesidade e hipertensão são nos Estados Unidos duas importantes causas de riscos na gravidez. “Devemos ser mais responsavis. Este é um dos nossos grandes problemas”, afirmou.

O outro extremo do espectro mostra 10 países – todos eles na África, menos o Afeganistão – onde a elevada fertilidade e os deficientes sistemas de saúde causam riscos extremos às mulheres grávidas. Segundo os investigadores, em países como Chade, Malí, Nigéria e Somália, mais de uma em cada 15 mulheres têm probabilidade de morrer por causas relacionadas com a gravidez. O estudo indica que uma em cada sete mulheres no Níger é vulnerável à morte durante a gestação. Está análise chega num momento em que ativistas pelo desenvolvimento e funcionários da ONU avaliam os progressos mundiais no cumprimento dos oito Objetivos de Desenvolvimento do Milênio.

Estas metas, definidas em 2000 pela Assembléia Geral da ONU, incluem reduzir em dois terços a mortalidade infantil e em três quartos a materna até 2005, em relação a dados de 1990. também figuram entre os objetivos reduzir pela metade o número de pessoas que sofrem pobreza e fome; garantir educação primária universal; promover a igualdade de gênero; combater a aids, malária e outras doenças; assegurar a sustentabilidade ambiental e fomentar uma associação mundial para o desenvolvimento.

Especialistas acreditam que nos últimos sete anos o mundo não mudou muito para milhões de mulheres pobres em relação ao seu bem-estar econômico e seu acesso a serviços de saúde. Na semana passada, a revista médica The Lancet disse que, no ritmo atual, quase não há esperanças de que o mundo consiga o objetivo de reduzir em 75% a mortalidade materna. A cada ano, cerca de 20 milhões de mulheres se submetem a abortos inseguros, o que, de acordo com a publicação, é uma importante causa de doenças e mortes maternas.

Ativistas pelos direitos reprodutivos dizem que os governos devem tomar medidas drásticas para reverter a situação se não for levado a sério o cumprimento do objetivo relativo à mortalidade materna. “Estamos como há 20 anos”, disse Ann Starrs, da organização independente Family Care International, em uma declaração escrita. “Meio milhão de mulheres morrem por ano devido a complicações no parto”, disse. Um estudo do professor Ken Hill, da Universidade de Harvard (EUA) indica que entre 1990 e 2005 as mortes maternas diminuíram, mas menos de 1% ao ano.

Hill e muitos outros pesquisadores calculam que pelo menos entre 10 milhões e 20 milhões de mulheres sofrem anualmente problemas devido a complicações no momento de dar à luz. Os especialistas dizem que este sofrimento poderia ser facilmente evitado se os doadores internacionais contribuíssem com apenas US$ 6,1 bilhão nos próximos sete anos. Entre os dias 18 a 20 deste mês, mais de 1.500 líderes mundiais se reunirão em Londres na conferência “Women Deliver”, que se concentrará em criar vontade política e fortalecer os sistemas de saúde para prevenir as mortes de “uma mulher a cada minuto de cada dia durante a gravidez e o parto”. (IPS/Envolverde)

Haider Rizvi

Haider Rizvi has written for IPS since 1993, filing news reports and analyses from South Asia, Washington, D.C. and New York. Based at United Nations headquarters, he specialises in international human rights issues and sustainable development as well as disarmament, women's rights, and indigenous peoples' rights. He is a two-time winner of the Project Censored Award.

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