Boston, EUA, 02/10/2007 – Meninos, meninas e adolescentes são mais vulneráveis à transmissão do vírus causador da aids por sofrerem abuso sexual, incesto ou manter relações sexuais precoces, segundo o diretor-executivo do Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Onusida), Peter Piot. Muitos programas estão centrados em mulheres grávidas e menores portadores do HIV (vírus da deficiência imunológica humana), e são registrados avanços na matéria, disse Piot à IPS, entrevistado durante uma conferência na Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, na cidade norte-americana de Boston. Entretanto, “existe muito mais do que a transmissão de mãe para filho. E este aspecto foi descuidado”, assegurou. “Não temos de esconder a cabeça como o avestruz. É preciso prevenir novas infecções com HIV”, causador da aids, afirmou. A falta de atenção a esses problemas afeta em especial a população feminina, que agora representa 48% de todos os infectados como o HIV, segundo a Atualização Epidemiológica de Aids, elaborada todos os anos pela Onusida e a Organização Mundial da Saúde. Cerca de 17,7 milhões de mulheres têm o vírus, de acordo com o informe divulgado em dezembro do ano passado.
As mulheres têm mais possibilidades de serem vítimas de abusos e de manter relações sexuais não desejadas devido à desigualdade de gênero em matéria de educação, direitos de propriedade e desigualdades entre o casal, segundo Piot. Cada vez é maior o número de mulheres infectadas com o HIV, levando a uma “feminização” da pandemia, acrescentou. A situação é mais grave na África, onde quase 60% dos portadores do vírus são mulheres, em relação aos 50% mundial. Na África subsaariana, aproximadamente 75% da população entre 15 e 24 anos portadores do HIV são mulheres, segundo um informe da OMS deste ano. É preciso organizar debates no âmbito nacional para criar consciência sobre a necessidade de educação sexual e respeito às mulheres, e também deve haver maior distribuição de preservativos e material explicativo sobre as formas de prevenção, afirmou Piot. “A princial via de contaminação de menores é pela violação, entre meninas e homens adultos, relações sexuais entre adolescentes e incesto. É necessário centrar-se nesses aspectos. Violações existem em todo o mundo. Como a violência contra as mulheres, o abuso sexual é um assunto de normas sociais”, ressaltou.
A Onusida trabalha junto com a Coalizão Mundial de Mulheres e aids, iniciativa própria criada em 1994, para chamar a atenção dos líderes sobre a necessidade de políticas e leis que protejam os direitos das mulheres, a propriedade e a prevenção da violência. Em alguns grupos sociais é permitido aos homens terem várias parceiras sexuais. As mulheres temem pedir que usem camisinha por medo de represália ou pela dependência econômica. O marido se contagia com o HIV e o propaga a todas suas esposas, segundo a Coalizão.
Meninos e meninas crescem com HIV e há poucas iniciativas centradas em suas necessidades de apoio em matéria de tratamento, socialização e relações sexuais entre adolescentes, disse Piot. “É uma nova realidade mal entendida”, acrescentou. Os jovens não costumam ter acesso a preservativos nem a informação vinculada à prevenção por razões políticas ou tabus culturais. Quase a metade dos novos casos registrados por ano são jovens adultos, afirmou Piot. “A educação sexual não é universal nas escolas. É um problema que diz respeito a todos os continentes, apesar de a Organização das Nações Unidas declarar que as crianças têm direito a contar com informação que possa salvar-lhes a vida”, ressaltou.
As meninas que recebem educação sexual tendem a atrasar o início da atividade sexual e manter relações seguras, segundo o não-governamental Instituto Alan Guttmacher, com sede em Nova Yorque, voltado à pesquisa em saúde sexual e reprodutiva. Mas, em geral, há uma grande ignorância a respeito entre os jovens. “É algo incrível de se ver”, afirmou. Os trabalhadores sociais desconhecem muitas das necessidades dos adultos jovens com HIV porque não foram incluídos em um grupo separado na coleta de dados. “Há grande diferença entre um adolescente de 15 anos infectado e uma mulher de 24, entre uma criança de 5 e um recém-nascido. É um fracasso das organizações internacionais e dos epidemiologistas”, ressaltou Guttmacher.
Há pesquisas sugerindo que os adultos jovens que perderam uma pessoa próxima por causa da aids sofrem traumas pela experiência e buscam relações sexuais precoces, afirmou Douglas Webb, especialista em aids em crianças, do escritório para a África austral e oriental do Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef). Um estudo feito no Zimbábue, onde há muitos casos de gravidez em adolescentes, revelou que as meninas que perderam suas mães são muito vulneráveis ao HIV por manterem relações sexuais precoces, afirmou. Em Suazilândia, um em cada quatro lares tem um chefe de família menor por causa da morte de seus país em razão da aids, segundo a Onusida.
O estigma dos adolescentes com HIV é muito duro e se interpõe no tratamento e na escolaridade, disse Noerine Kaleeba, ativista do Malawi. Kaleeba cuida de 28 meninos e meninas portadores do HIV, incluindo três adolescentes tratados com anti-retrovirais. As terapias anti-retrovirais reduzem a carga de HIV no organismo, retardando o avanço da doença e prolongando a vida. “É difícil para eles seguir o cronograma de tratamento porque na escola são vítimas de brincadeiras”, disse Kaleeba. “O que se pode fazer por estas crianças que precisam se trata?”, pergunta.
Por sua vez, John Williamson, do Fundo de Crianças e Órfãos Refugiados, iniciativa da Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (Usaid), disse que as crianças e os adolescentes portadores do vírus têm muitas necessidades. “A realidade é que a maioria dos menores com HIV não recebe ajuda fora de sua família extensa”, afirmou.
(Envolverde/ IPS)

