Saúde: Novo tratamento especial para crianças com Aids

Boston, EUA, 02/10/2007 – Uma nova forma de tratamento contra a aids infantil, especialmente focada nas famílias que vivem em áreas rurais, estará disponível em alguns meses, informou um funcionário da Organização Mundial da Saúde (OMS). O tratamento se baseia em medicamentos anti-retrovirais conhecidos, mas sua administração será mais simples. Os tratamentos atuais requerem a ingestão de várias pílulas mais de uma vez por dia e são tão complicados que somente farmácias ou hospitais podem fornecê-los, disse Charlie Gilks, chefe de tratamento da Unidade de Aids na OMS. “Esta é a razão pela qual tão poucas crianças recebem tratamento fora das capitais de muitos países”, disse Gilks à IPS durante uma entrevista organizada pela Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard, em Boston. Os pacientes também devem ir ao hospital regularmente para receber os medicamentos e seguir uma complicada dosagem para que tenham efeito. Isto exclui muitas famílias de áreas rurais, já que os meios de transporte até os centros de saúde são inadequados ou muito caros para elas. Mas, as novas pílulas poderão ser administradas até por uma enfermeira de uma clínica rural, o que torna o tratamento muito mais acessível, ressaltou Gilks.

A OMS estima que 2,3 milhões de crianças menores de 15 anos estejam infectados com o HIV (vírus da deficiência imunológica humana, causador da síndrome de deficiência imunológica adquirida). Aproximadamente 780 mil precisam tomar anti-retrovirais para prolongar suas vidas, mas apenas cem mil estão recebendo tratamento. A esperança é que o novo medicamento mude esta situação, já que combina dois ou três medicamentos utilizados no tratamento de pacientes com aids em uma única pastilha. “Dessa forma será muito mais simples treinar o pessoal dos centros de saúde”, afirmou Gilks. As pílulas terão uma ranhura central, que permite dividi-las facilmente em duas partes para fornecer uma dose menor às crianças menores. Também poderão ser pulverizadas e misturadas à comida.

Jim Kim, ex-diretor da Unidade de Aids da OMS, afirmou que isto representará um grande avanço no tratamento das crianças que sofrem dessa doença. ‘Os medicamentos eram muito difíceis de serem administrados”, disse à IPS. Não tinham vida útil longa e sua distribuição era cara por causa do peso das embalagens, acrescentou Kim, que atualmente dirige o projeto de saúde e direitos humanos da Universidade de Harvard. De acordo com o plano da OMS para a infância, famílias inteiras receberão as novas pílulas, que poderão ser tomadas em doses maiores pelos país. A melhor garantia para o bem-estar das crianças com HIV é que suas mães estejam em boas condições para cuidar delas, ressaltou Gilks.

Os adultos com HIV que recebem um bom atendimento médico podem viver mais de 10 anos antes de se tornarem vulneráveis às doenças relacionadas com a aids. É comum nesse momento quando são aplicados os anti-retrovirais. Estes remédios combatem a proliferação do retrovírus HIV no organismo humano, reduzem drasticamente a mortalidade e melhoram a qualidade de vida. Cerca de 90% das crianças com HIV se infectam com o vírus ao nascer. Se não recebem anti-retrovirais ficam rapidamente doentes, especialmente se estão mal-nutridas.

O Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/Aids (Onusida) afirma que a maioria das crianças infectadas desde o começo da pandemia morreram por falta de bons cuidados médicos e de tratamento. Entretanto, quando são ministrados os anti-retrovirais a vida de uma criança muito doente pode mudar totalmente em apenas 18 meses, disse Gilks. “As crianças respondem melhor quando a infecção é detectada precocemente”, acrescentou. Os benefícios dos últimos medicamentos para a aids podem ser vistos claramente no Brasil, acrescentou. “Nos anos 80, apenas 25% das crianças infectadas com HIV sobreviviam após três anos de tratamento. Hoje essa índice chega a 80%”, explicou.

A OMS trabalhou no projeto das novas pílulas em associação com a União Européia e a fundação criada pelo ex-presidente dos Estados Unidos Bill Clinton (1993-2001) durante mais de um ano e já estão prontas para serem distribuídas. Falta apenas a aprovação das autoridades sanitárias dos diferentes países do mundo. “Lutar com regulamentações tem sido um pesadelo”, comentou Gilks, que não revelou o nome dos laboratórios que produzem a nova pastilha nem o custo do tratamento.

A grande maioria das crianças que necessitam de anti-retrovirais encontra-se na África subsaariana. São, aproximadamente, 680 mil, segundo Gilks. “A África do Sul será um dos nossos maiores mercados”, afirmou. Neste país, apenas 21% das crianças que precisam desses medicamentos os recebem atualmente, acrescentou. Mas, embora a África do Sul seja freqüentemente criticada por causa deste problema, nos últimos anos aumentou em 50% a quantidade de crianças tratadas com anti-retrovirais.

O novo tratamento simplificado chega após o desenvolvimento de uma pílula de dose única para adultos, que está à disposição nos Estados Unidos desde 2006. agora também estará disponível em países em desenvolvimento, por iniciativa da Fundação Clinton e da Unitaid, um fundo internacional para a compra de medicamentos criado por Brasil, Chile, França, Grã-Bretanha e Noruega.

(Envolverde/ IPS)

Correspondentes da IPS

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *