Bali: As ilhas esquecidas se fazem ouvir

Nusa Dua, Indonésia, 14/12/2007 – SIDS e AOSIS, duas siglas que se repetiam insistentemente há 10 anos na cidade japonesa de Kyoto, parecem ter evaporado no calor tropical da ilha de Bali, na Indonésia. Os SIDS (sigla em inglês de Pequenos Estados Insulares em Desenvolvimento), que são 38, e AOSIS (Aliança de Pequenos Estados Insulares Independentes), com 43 membros, são grupos formados por países de todo o planeta: África, Caribe, oceano Indico, Mediterrâneo, Pacifico e mar da China Meridional.

O Protocolo de Kyoto é considerado o primeiro passo importante para um regime mundial de redução das emissões de gases causadores do efeito estufa que pode estabilizar as concentrações destes na atmosfera e assim limitar os efeitos da perigosa mudança climática. Porém, o Protocolo expira em 2012. A conferência da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que deve terminar hoje em Bali, tem o objetivo de lançar negociações para preparar um acordo em Copenhague em 2009. “Negociem o que acontecerá depois de Kyoto, mas não esqueçam nossas preocupações particulares”, foi a mensagem dos representantes dos SIDS e da AOSOS nas discussões oficiais de Bali.

O vice-ministro do Meio Ambiente de Tuvalu, Tavau Tell, disse que seu país, assim como outras pequenas nações insulares, em nada contribuíram para o fenômeno, e, entretanto, seus efeitos são catastróficos e crescentes, como previu o Painel Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC). Entre estes efeitos se destacam o aumento das temperaturas globais até o final deste século em mais de quatro graus centígrados, e a elevação do nível do mar em mais de 60 centímetros.

“As conseqüências para uma nação formada por atóis como Tuvalu serão economicamente, ecologicamente e culturalmente desastrosas. Isso significa o total desaparecimento de Tuvalu no oceano, junto com nossa cultura, nossa subsistência, nossa soberania fundamental e nossos direitos humanos”, disse Tella aos delegados esta semana. Tuvalu é uma ilha do pacifico com apenas 12 mil habitantes.

Por sua vez, o presidente de Palau, Tommy E.Remengesau, exortou a comunidade internacional a reconhecer sua “obrigação moral de se comprometer com um nível apropriado de financiamento para os Estados pequenos e vulneráveis”, Palau também fica no Pacifico e tem 21 mil habitantes. Na Micronésia, um arquipélago do mesmo oceano, as pessoas fazem todo o possível para se adaptarem à mudança climática.

O compromisso dos países do norte do Pacifico com o Desafio Micronésia – projeto para proteger 30% da vida marinha costeira e 20% dos recursos naturais terrestres até 2020 – é um importante investimento para dar a estas ilhas uma gama de opções de adaptação à mudança climática, relacionadas com segurança alimentar e proteção das costas.

Porém, o objetivo principal é estender o Desafio Micronésia também a Palau e às Ilhas Marshall, bem como às Ilhas Marianas do Norte e Guam, ambas sob jurisdição dos Estados Unidos. Estas pequenas nações insulares e as águas que a rodeiam cobrem um sexto da superfície do planeta e constituem o habitat de mais da metade da diversidade de plantas e animais marinhos da terra. Também são o lar da maior quantidade de espécies ameaçadas ou em risco de extinção do que qualquer outra parte do mundo.

As ilhas e suas áreas costeiras também são uma fonte fundamental de alimento, trabalho e renda para milhões de pessoas. Mais de 600 milhões de pessoas vivem em mais de cem mil ilhas no mundo. O presidente de Palau, que impulsionou o Desafio Micronésia, também exortou em Bali para que se considere as implicações de direitos humanos que a mudança climática tem. “A capacidade de adaptação à mudança climática é hoje um absoluto requisito que exigirá futuros compromissos de financiamento e experiência técnica”, disse, por sua vez, o ministro do Meio Ambiente de Tonga, Hon Tuita. Esse país insular do Pacifico tem população de 117 mil habitantes.

Embora sejam os países ricos e industrializados os principais responsáveis pelas emissões de gases causadores do efeito estufa, as ilhas do Pacifico não ficam de braços cruzados. As estimativas indicam que até 2015 terão reduzido suas emissões em dois milhões de toneladas. Mesmo isto não sendo muito em nível global, representa um esforço muito importante. (IPS/Envolverde)

Ramesh Jaura

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