Iraque: Segurança a cargo de policiais de papel

Bagdá, 21/12/2007 – Em um país sem segurança nem empregos, como é o caso do Iraque ocupado, qualquer um pode trabalhar como policial. Mas, também há “ninguém” que no Iraque “trabalha” de policial. “Para sobreviver no Iraque hoje, há apenas dois trabalhos: policial e lixeiro”, disse à IPS o jornalista da capital Mohammad al-Dulaymy. “A desocupação leva muitos iraquianos a se unirem às forças de segurança apesar dos riscos”. O desemprego este ano ficou entre 60% e 70% da população economicamente ativa, segundo o governo. Mas, nem mesmo os comandantes do exército e da polícia sabem quantas pessoas trabalham nas forças de segurança.

“Não temos estatísticas a respeito”, disse à IPS um general do Ministério do Interior, que pediu para não ser identificado. “Pelo menos um milhão de policiais recebem salário do ministério, no mínimo US$ 300 por mês. Mas, acreditamos que metade deles existe apenas no papel”, afirmou. O oficial atribuiu a situação à corrupção generalizada que reina nesse ministério, como em todo o governo, o que permite a altos funcionários incluir empregados que não existem na folha de pagamento.

“Por que todos acusam a polícia pelos problemas de segurança?”, perguntou o coronel Fadhi al-Rubai, da delegacia de Russafa, em Bagdá. “Todo o país é vítima de roubo”, disse à IPS. “Uma olhada em qualquer ministério revela a catástrofe nacional. Nós, os policiais, somos apenas uma parte de uma enorme corrupção”. “Há 1,4 milhão de policias no Iraque”, disse à IPS Abbas al-Bayaty, legislador do bloco xiita e membro do Comitê de Segurança do parlamento. “Isso aumenta a proporção de um policial para cada 27 habitrantes, quando o critério usual é de um para cada 300. Esta militarização do Iraque é um grande erro”, acrescentou.

Estas cifras maciças existirão somente no papel, mas, representam uma sangria incessante no orçamento do Estado. Por outro lado, o Ministério da Defesa se negou a informar a IPS sobre a quantidade de efetivos dessa dependência, bem como da polícia e da segurança interna. “Somente o ministro tem autoridade para falar do assunto”, disse à IPS um general que trabalha na Defesa e pediu anonimato. “Mas, de todo modo, ninguém tem uma estimativa acertada, pelo caos terrível que reina no ministério”, acrescentou.

No Ministério de Segurança Nacional também escasseiam as informações. “Esse ministério é uma dependência da inteligência iraniana”, disse à IPS o coronel Jassim Alwan, do exército iraquiano dissolvido quando triunfou a invasão norte-americana. “É completamente dirigido pela inteligência iraniana e pelo Regimento Al Quds sob um acordo secreto entre Irã e Estados Unidos desde antes da invasão e ocupação”, assegurou. Quando Paul Bremer encabeçava a Autoridade Provisória da Coalizão que administrou o Iraque nos primeiros meses de ocupação, criou um Escritório de Inteligência iraquiano o qual se pretendia que fosse independente das futuras autoridades.

O escritório,dirigido pelo general Mohammad Abdullah al-Shahwani, manteve um papel discreto nestes anos. Shahwani, muçulmano xiita, retornou ao Iraque com o exército norte-americano em abril de 2003. Foi um dos principais defensores da presença de Washington neste país e seu escritório se dispôs a recrutar antigos espiões iraquianos. Tampouco se sabe quantos funcionários tem esta organização estatal. Por outro lado, “há unidades especiais do exército iraquiano que trabalham junto com as forças dos Estados Unidos sem estarem submetidas a nenhuma autoridade deste país”, disse as IPS Yassen Fadhi, do Ministério da Defesa.

“Essas forças são usadas pelo exército norte-americno para realizar operações delicadas, como detenção de membros das milícias e incursões em mesquitas”, acrescentou Fadhi. Estima-se que as milícias Forças do Renascimento, formadas por norte-americanos em tribos árabes, tenham pelo menos 76 mil efetivos, com planos de somar outros 10 mil. A maioria destes soldados, chamados de “cidadãos preocupados” pelos Estados Unidos, participaram, ao que parece, da resistência contra a ocupação, mas agora a apóiam. Circulam versões de que os milicianos obtêm uma renda deUS$ 300 mensais.

Agora, muitas comunidades locais querem ter suas Forças do Renascimento. “Contribuímos muito com a segurança do Iraque e conseguimos sem eis meses o que os grandes exércitos norte-americanos e iraquianos não conseguiram em quatro anos”, disse o xeque Hammed Hayis, da Força do Renascimento em Ramadi, 10 quilômetros a oeste de Bagdá. “O governo deve nos aceitar como forças oficiais”, ressaltou. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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