Cidade do Cabo, 21/12/2007 – A bicicleta é o bem material que mais ajudou a emancipar as mulheres, segundo a feminista norte-americana do século XIX Susan B. Anthony. Na África do Sul isso também é verdade, embora os preconceitos puxem o freio. A cultura e a tradição dificultam para muitas sul-africanas aproveitar a mobilidade e o acesso a oportunidades sociais e econômicas oferecidas pelas bicicletas, sem mencionar a redução nas emissões de dióxido de carbono prejudiciais para o meio ambiente.
“A maioria das pessoas pensa que as bicicletas são para crianças, e, definitivamente, não para as mulheres sul-africanas, especialmente as casadas”, disse Myoolisi Njoli, da ONG Bicicletas Luvo. Esta instituição administra o programa Mulheres no Ciclismo por encargo do governo da província do Cabo Ocidental. As mulheres temem que andar de bicicleta as faça parecer pouco dignas ou pouco femininas, concluiu, após uma pesquisa, a especialista Marianne Vandershuren, do Centro para o Estudo do Transporte da Universidade da Cidade do Cabo.
“Liberar as mulheres e conseguir que usem a bicicleta é um desafio”, disse Meshack Nchupetsang, co-diretor da Rede de Potencialização do Ciclismo (Bem, sigla em inglês), uma organização que também opera na Cidade do Cabo. “As bicicletas oferecem uma maneira de melhorar o status sócio-econômico, mas surgem preocupações em matéria de segurança, inclusive quando as mulheres se sentem suficientemente livres para montá-las”, ressaltou.
Segundo estatísticas mais recentes da Federação Internacional de Estradas, com sede em Bruxelas, que incluem o período 1999-2004, a África do Sul é o país que sofre mais mortes nas estradas. Além disso, o Conselho para as Pesquisas Científicas e Industriais, instituição financiada pelo governo sul-africano, calculou que entre 40% e 45% das vítimas de acidentes usam transporte não-motorizado. “A África do Sul é uma cultura sem respeito pela vida”, disse Vandershuren, que combina suas tarefas de pesquisa em nível local com sua participação na Rede Acadêmica de Ciclismo, da qual participam especialistas deste país do Brasil, da Índia e da Holanda.
Portanto, as sul-africanas podem ver o ciclismo como uma atividade muito perigosa. “As mulheres se sentem na obrigação de cuidar dos filhos e da família, mas, temem por suas vidas quando percorrem as estradas. Na África do Sul o ciclismo é uma atividade de alto risco e tradicionalmente as mulheres assumem menos riscos”, acrescentou. as percepções do status social também influem. “Neste país, uma pessoa precisa dirigir um automóvel para ser respeitada”, disse Vanderschuren. Mas, Mulheres no Ciclismo faz campanha para que as mulheres que andam de bicicleta sejam a exceção a esta preconceituosa regra.
Vinte mulheres da empobrecida área de Khavelitsha, na Cidade do Cabo, concluíram há pouco o programa, que existe há três anos. Usando bermudas de cor preta, camisetas e capacetes, receberam certificados em segurança viária, habilidades ciclísticas e manutenção de bicicletas. De algum modo, se destacam em uma localidade acostumada a ver mulheres caminhando ou apertadas dentro de ônibus. “Estas mulheres viram os benefícios da bicicleta e não aceitaram um “não” como resposta”, acrescentou Nijoli. Cerca de 200 mulheres receberam treinamento.
As bicicletas são particularmente adequadas para o tipo de traslado mais freqüente das mulheres, disse Vanderschuren: mais viagens, e mais curtas, para uma variedade de destinos e no momento em que o tráfego fica menos intenso, enquanto procuram conjugar o trabalho com o cuidado com as crianças e os afazeres domésticos. Além disso, a bicicleta permite que fiquem livres dos horários do transporte público, que pode limitar mulheres que precisam flexibilidade para administrar seu tempo.
“Uma bicicleta está bem para mim. Em uma bicicleta sempre posso fazer coisas no meu horário”, disse Juanita Maguni, que a usa para ir trabalhar no bairro de Manenberg. “É fácil, difícil é ignorar os comentários sobre as mulheres que andam de bicicleta. Tenho de juntar coragem para subir nela”, acrescentou. Em um país onde as mulheres freqüentemente suportam a carga da pobreza, as bicicletas também podem ajudar a economizar. São mais rápidas, mais baratas e mais eficientes do que o transporte coletivo motorizado na hora de percorrer distancias entre cinco e 20 quilômetros.
As bicicletas de segunda mão – importadas pela Bem com ajuda da sociedade civil da Alemanha e Holanda – podem custar cerca de US$ 30. Para muitos lares não é uma quantia pequena. Às vezes equivale a dois meses de transporte coletivo. Segundo o último Informe de Desenvolvimento Humano da Organização das Nações Unidas, cerca de um terço dos habitantes da África do Sul vivem com menos de dois dólares por dia. Mas, uma vez que a bicicleta foi paga, não se volta atrás, segundo Rufus Norexe, mecânico de bicicletas que trabalha para a Bem e vive em um assentamento irregular de Westlake.
Segundo a última Pesquisa Nacional Sul-africana de Residências, divulgada em 2003, os que viajam todos os dias em transporte público ganhavam menos de US$ 75 por mês gasta em seus traslado, em média, cerca de um terço do que ganha. E a grande maioria (mais de 80%) gasta mais de 20% de sua renda com transporte. Bem também distribui bicicletas novas e reparadas, entre outros, a trabalhadores da saúde e estudantes. “Há uma forte correlação entre pobreza e mobilidade urbana”, disse Aimee Gauthier, da Acess Africa, um programa do Instituto para as Políticas de Transporte e Desenvolvimento, com sede em Nova Yorque. “A pobreza complica a mobilidade e a falta de opções de transporte complica a pobreza. Os custos do transporte supõem um gasto considerável em lares onde já existe uma grande pressão financeira”, acrescentou.
O governo sul-africano reconheceu o potencial da bicicleta no alivio da pobreza através de seu programa Shova Kalula (Pedalar fácil, em zulu), pelo qual pretende entregar um milhão de bicicletas em toda África do Sul até 2015, a maioria a mulheres, trabalhadores da saúde e estudantes. Mas, até que a mudança cultural ganhe impulso junto com a distribuição destes veículos, os antigos preconceitos continuarão afetando esses planos. “É tão difícil… A população rural se apega às tradições. Minha mulher anda de bicicleta pela Cidade do Cabo e veste calças, mas não pode fazer nada quando visitamos apequena fazenda do meu pai”, contou Norexe ao ser perguntado quantas mulheres se informam a respeito. (IPS/Envolverde) * Este artigo é parte de uma série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e IFEJ (siglas em inglês de Federação Internacional de Jornalistas Ambientais).

