Nusa Dua, Indonésia, 12/12/2007 – Representantes de organizações não-governamentais cobraram mais responsabilidade dos países industriais e maior firmeza por parte das nações pobres para que não acabe em fracasso a conferência sobre mudança climática que acontece na ilha de Bali, na Indonésia. A frustração ganhou as organizações ambientalistas faltando um dia para o encontro de alto nível da XIII Sessão da Conferência das partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, que começou na ilha de Bali no dia 3 e está prevista para terminar amanhã.
Os delegados ministeriais deverão chegar a um acordo em uma agenda e um cronograma de medidas para combater a contaminação pelos gases causadores do efeito estufa que provoca graves alterações no clima. Mas, as posições esgrimidas pelas delegações do Canadá e do Japão durante a primeira semana são desanimadoras para quem espera compromissos das nações ricas sob o principio de responsabilidades compartilhadas mas não diferenciadas.
Os delegados “continuam trabalhando com se esta fosse uma outra reunião qualquer e o tema poderia ser a mudança climática, o preço da banana no mercado internacional ou qualquer outra coisa”, disse à IPS o ativista Marcelo Furtado, da organização ecologista Greenpeace. Os governantes devem agir com responsabilidade “se querem que este encontro sejam um sucesso”, afirmou em um comunicado divulgado por esta ONG. Deverá existir mais iniciativa entre os países em desenvolvimento porque “as nações industriais não estão nem colocando dinheiro na mesa, nem se comprometendo com as metas de redução do dióxido de carbono”, o principal gás, disse Furtado.
O que está em debate é o que acontecerá depois de 2012, quando expirar a primeira fase de obrigações estabelecidas pelo Protocolo de Kyoto para os países industriais partes – menos os Estados Unidos – que devem chegar a esse ano emitindo volumes de gases que provocam o efeito estufa 5,2% menores do que os emitidos em 1990. este ano, os governos aceitaram de modo informal que o nível de reduções deverá oscilar até 2020 entre 25% e 40% em relação as emissões de 1990. “Mas essa não é uma meta, mas algo que os governos acordaram para servir de guia à negociação” das metas de redução de cada país, disse ontem o secretário da Convenção, Yvo de Boer.
A negativa tradicional do governo dos Estados Unidos quanto a reduções obrigatórias se vê reforçada por canadenses e japoneses, que descartam um compromisso, a menos que todos os países emissores de grandes quantidades de dióxido de carbono adotem as mesmas cotas de redução. Esta proposta afeta diretamente as economias emergentes da Índia e China, que não estão obrigadas pelo Protocolo de Kyoto, assinado em 1997.
Os cientistas cobram dos governos um compromisso que permita conter o aumento das emissões de gases causadores do efeito estufa no prazo de 10 a 15 anos. Deveria ser alcançada uma redução de pelo menos 50% até 2050, para evitar que a temperatura do planeta aumente mais do que dois graus, o que permitiria prevenir as conseqüências mais graves do aquecimento do planeta. “Este acordo não pode ficar em um simples jogo de interesses”, disse à IPS a analista em mudança climática Karen Suassana, do Fundo Mundial para a Natureza (WWF) em referência à negativa canadense. “Estão boicotando todas as agendas de interesses das nações em desenvolvimento”, acrescentou.
A organização Amigos da Terra Internacional lamentou, em um boletim, que os países industriais não queiram adotar um acordo para a redução de pelo menos 40% das emissões contaminantes. “Dez anos depois de Kyoto a ciência está inclusive mais alarmante’, afirmou Tony Juniper, um dos diretores dessa federação de organizações ambientalistas de mais de 70 países. Mas, independente de Canadá e Japão, algumas presenças marcaram o isolamento de Washington, inclusive dentro dos Estados Unidos. Por exemplo, a do senador norte-americano do opositor Partido Democrata John Kerry, para apoiar um acordo obrigatório. “É importante que os Estados Unidos, por assim dizer, saia na foto”, disse Kerry em entrevista coletiva.
Em um dos encontros paralelos à conferência, uma delegação do Estado da Califórnia apresentou as políticas do governador Arnold Schwarzenegger para combater o aquecimento global. Em 2006, Schwarzenegger conseguiu a aprovação de uma lei que prevê redução de 80% dos gases causadores do efeito estufa na rica Califórnia, em relação às emissões de 1990, com prazo até 2050. Este plano combina com metas obrigatórias, controles, mecanismos de flexibilidade e novos incentivos.
Alguns vêem com mais otimismo a discussão internacional. “Desde que foi divulgado o último informe do Grupo Intergovernamental de Especialistas sobre Mudança Climática (IPCC), a comunidade internacional e as pessoas em geral começaram a entender que o clima é uma ameaça em razão de causas especificas”, disse à IPS o ativista Paulo Prado, diretor de política ambiental da filial brasileira da Conservação Internacional. “Existe mais consciência de que se aumentar o consumo do petróleo provocarei mais calor”, acrescentou. mas, para outros, o assunto de fundo está longe de Bali e de seus debates.
“Estou consciente de que o que acontecer nesta conferência de nada servirá, porque nossa forma de vida está contra a natureza”, disse Eugenio Del Valle, delegado da Confederação Revolucionária de Operários e Camponeses do México. “Se analisarmos nossas culturas-mães veremos que eram sociedades que viviam para servir a terra. Nós não lhe damos nada. Apenas tiramos e tiramos. De quem é a culpa?”, perguntou o sindicalista. Nos corredores da sede da conferência a imprensa esperava confirmação sobre a chegada do prêmio Nobel da Paz, o ex-presidente dos Estados Unidos Al Gore, como se sua presença pudesse modificar o animo dos negociadores mais intransigentes.
Enquanto os ânimos aumentam de temperatura dentro do centro de convenções, com cerca de 10 mil participantes de mais de 180 países, fora do prédio o tráfego fica cada vez mais insuportável com a chegada de nutridas delegações ministeriais. Quebrou-se a pacífica rotina com a qual estão habituados os turistas desta ilha. Não há hotel nem centro comercial que escape ao controle policial, nem ruas livres de automóveis que levam delegados de um lugar a outro. Mas, ninguém perde a calma nem parece se preocupar com a contaminação causada pelo transporte. De fato, os taxistas estão muito satisfeitos com a realização da conferência, tenha sucesso ou não. Com um grande sorriso, Ketut Kerta, de 32 anos, diz que embora a temperatura em Bali tenha subido nos últimos cinco anos, o importante é que “graças à cúpula do clima também aumento meus ganhos”. (IPS/Envolverde)

