Mudança climática: Risco à segurança mundial

Nova Délhi, 12/12/2007 – A ciência e a economia dominam a conferência da Organização das Nações Unidas sobre mudança climática na ilha indonésia de Bali, porém, especialistas alertam sobre outra conseqüência grave do aquecimento do planeta: o aumento de conflitos armados nas áreas afetadas. Combater este fenômeno deveria constituir uma política para fortalecer a paz neste século, segundo o informe “A mudança climática como risco de segurança”, apresentado esta semana pelo Conselho Assessor Alemão sobre Mudança global. Os autores do estudo coletaram dados divulgados por especialistas e organizações internacionais, entre elas o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma).

O diretor-executivo do Pnuma, Achim Steiner, alertou, também esta semana: “Há múltiplos desafios ambientais que o mundo enfrenta para garantir a segurança de comunidades e países. A mudança climática é, talvez, o mais destacado”. O Pnuma pede urgência aos representantes de governos reunidos em Bali, na conferência das partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre Mudança Climática, a adotarem reduções de emissões concretas e apoiarem a adaptação ao fenômeno dos países mais vulneráveis. As áreas para onde são previstos mais conflitos em razão da mudança climática são aquelas onde os especialistas prevêem maiores prejuízos para a agricultura.

Especialistas nessa área reunidos no mês passado em Hyderabad, na Índia, advertiram que a produção de cereais na África e na Ásia diminuirá por causa de mudanças nos padrões de temperatura e chuvas atribuíveis à mudança climática. Renier Wassman, especialista do Instituto Internacional de Pesquisa sobre o Arroz, nas Filipinas, falou à IPS em Hyderabad de sua preocupação com uma eventual redução no rendimento desse cultivo, “básico na dieta da maioria dos pobres da Ásia. O continente consome 90% do arroz do mundo, e também abriga 70% dos pobres do mundo”.

O Centro Internacional de Melhoramento de Milho e Trigo, com sede no México, prevê uma redução na produtividade dos cultivos na planície da bacia do rio Ganges na península Indiana devido à mudança climática. De modo semelhante, a região do Sahel, na África, será a mais afetada pela queda da produção de cereais, segundo especialistas do Grupo Consultivo para a Pesquisa Agrícola Internacional, que organizou a conferência em Hyderabad. Os alertas dos cientistas coincidem com o informe conhecido na segunda-feira segundo o qual, se não forem tomadas medidas para contê-la, é provável que a mudança climática “agrave velhas tensões e dispare outras novas em zonas do mundo, desembocando em violência, conflito e guerra”.

O informe sugere quatro causas hipotéticas de conflito induzido pelo clima: queda na produção de alimentos, degradação de águas doces, aumento de tempestades e inundações e migrações provocadas por fatores ambientais. Entre as áreas com maior risco de insegurança figuram África setentrional e austral, junto com os países da região do Sahel. Outros potenciais pontos críticos são Ásia central, Índia, Paquistão e Bangladesh, China, partes do Caribe e golfo do México e as regiões andina e amazônica da América Latina.

O informe adverte que a escassez de água e o aumento na freqüência de eventos climáticos extremos como secas e inundações poderiam reduzir a capacidade de governo dos países pobres, o que levaria à desestabilização e à violência. Também indica que os Estados que passam por uma transição política e períodos de escasso crescimento econômico ou têm grandes populações, e inclusive os que limitam com outros que sofrem conflitos violentos, são os que têm mais possibilidades de se verem imersos na violência.

O estudo diz que o potencial de crise política e de pressão migratória se intensificará devido a uma interação entre o aumento das secas e da escassez hídrica, o elevado crescimento demográfico, uma queda na produtividade agrícola e a pouca capacidade para resolver problema políticos de alguns dos países afetados. Neste mesmo ano, o Conselho de Segurança da ONU debateu o assunto e houve alertas de altos especialistas militares da reserva e em atividade da Austrália, dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha.

De acordo com o documento, as secas, o fracasso dos cultivos e a escassez de água adicionariam mais pressão sobre países como Somália e Chade, que já são Estados fracos, ou Sudão e Nigéria, que sofrem guerras civis. Isto poderia desatar uma onde de centenas de milhares de refugiados desde esses países para o exterior. Na África austral, a mudança climática poderia enfraquecer a economia de alguns países mais pobres do mundo. Em Bangladesh, Índia e Paquistão o rápido derretimento das geleiras do Himalaia poderia causar mais inundações e erosão do solo, ter impacto nas chuvas de monção e nos cultivos e colocar em risco o fornecimento hídrico de milhões de pessoas.

Os níveis do mar em ascensão e os ciclones e as tempestades mais freqüentes na baía de Bengala ameaçam a população costeira da área. A inda já constrói valas em sua extensa fronteira com Bangladesh para impedir a entrada de refugiados desse país, freqüentemente afetado por eventos climáticos extremos. Na Ásia central, o aquecimento global e o derretimento de geleiras poderia afetar plantações e a distribuição hídrica na região, que já enfrenta conflitos civis em países como Tajiquistao e outros pelos recursos hídricos e energéticos.

Prevê-se que a mudança climática agravará na China a contaminação do ar e da água, a degradação do solo, a desertificação e a escassez hídrica, problemas que já são graves. O aumento do nível do mar e os ciclones tropicais ameaçarão a populosa e economicamente significativa costa oriental chinesa. A capacidade do governo pode ser vencida pelo rápido ritmo da modernização, pelas crises ambientais e sociais e pelos impactos da mudança climática. De modo semelhante, o Caribe e o golfo do México poderiam sofrer furacões mais intensos e freqüentes, e o derretimento de geleiras na cordilheira dos Andes deixaria pior os problemas hídricos da região. Se a mudança climática afetar a selva amazônica, como prevêem alguns cientistas, isso vai alterar radicalmente o entorno natural da América do Sul com incalculáveis conseqüências econômicas e sociais, alerta o informe.

O Instituto Internacional de Pesquisa sobre Políticas Alimentares informou em Hyderabad que as nações afetadas devem fazer investimentos adicionais não apenas em pesquisas de cultivos, mas também em expansão de programas de irrigação, estradas rurais e acesso à água. Tudo isto geraria um estresse adicional às economias afetadas, disse Katharina Rabee, cientista desse instituto. (IPS/Envolverde)

T. V. Padma

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