Ouagadougou, 07/01/2008 – Para alguns moradores da capital de Burkina Faso a estação de chuvas representa um grave problema em matéria de serviços sanitários. “Quando chove, alaga”, explicou Issaka Ilboudo, se referindo a uma latrina cavada na terra na área do mercado de Pissy, na periferia da cidade. Porém, a situação agora está melhor, com a instalação de banheiros que estão sob os cuidados de Ilboudo, que cobra cerca de cinco centavos das pessoas que utilizam as instalações. “Agora, fecharam as latrinas. Estamos contentes, porque é higiênico”, disse à IPS.
Segundo Oumar Ilboudo, técnico encarregado da coleta de lixo na área de Boulmiogou, foram instalados banheiros em vários mercados locais. “Notamos que nos mercados e nas áreas públicas as pessoas defecavam perto das barracas ou onde outras pessoas descansavam. Pensamos que se mudassem sua conduta na rua fariam o mesmo em suas casas”, acrescentou. Na cidade de Ouadadougou, que descuidou por muito tempo do manejo do lixo, esta iniciativa é parte de um esforço mais amplo para melhorar os serviços sanitários e impedir a contaminação dos lençóis de água.
Os funcionários estimam que o projeto, que também está centrado em obras de drenagem da água da chuva, custará cerca de US$ 19,5 milhões. “Nas áreas urbanas não consideramos os serviços sanitários como parte da infra-estrutura básica da cidade. Damos ênfase na água potável, eletricidade, serviço telefônico e às ruas principais”, disse à IPS Jules Ouédraogo, diretor de Higiene do Escritório Nacional de Água e Serviços Sanitários (ONEA). “Nos esquecemos que tudo o que construímos exigirá a instalação de esgoto”, acrescentou.
“Somente se considera os serviços sanitários na fase final do processo de construção. Uma família que está construindo sua casa só pensa em colocar um banheiro quando a obra termina, e não se cumpre nenhum padrão aceitável”, disse Ouédraogo. “De fato, a maioria das pessoas não tem instalações aceitáveis, apenas banheiros improvisados que causam contaminação e doenças”, acrescentou. Para animar as pessoas a usarem banheiros modernos, as autoridades municipais exigem o equipamento necessário na Câmara Municipal de Boulmiougou.
Segundo Oumar Iboudo, cerca de 20 pessoas por dia se informam sobre os banheiros, que custam cerca de US$ 2 mil, uma quantia alta neste país da África ocidental onde 27,2% da população vivem com menos de US$ 2 por dia. As latrinas cavadas na terra ao longo dos caminhos foram fechadas quando as ruas foram construídas. Os funcionários também têm projetos que contemplam instalar banheiros químicos em áreas da periferia. Cada um custa US$ 1.700.
Para Mahamoudou Cissé, que supervisiona os esforços para manter a capital limpa, o planejamento nessas zonas periféricas é crucial. Estão mais afetadas pela contaminação da água e do solo devido à extrema pobreza de seus habitantes. “Há problemas em determinadas partes da cidade que estão se espalhando, onde não existem coordenação nem planejamento para serviços sanitários coletivos”, disse Ouédraogo. A cidade busca atualmente financiamento de US$ 8 milhões para instalar tubulações que liguem as áreas da periferia com a rede de esgoto central, disse à IPS Arzouma Zombré, diretor de Infra-estrutura e Transporte de Ouagadougou.
Também existe um programa para construir fontes públicas de água, com a intenção de evitar que os moradores cavem poços em lugares onde as chances de encontrar água são escassas, por isso passam a ser usados como latrinas. Já há 120, principalmente em Pissy, disse Zombré. As autoridades também começaram a implementar regulamentações proibindo o desenvolvimento imobiliário na capital se não forem considerados os serviços sanitários. “Tomamos consciência de que cometemos erros no planejamento, ao não considerarmos a coleta de dejetos e a saúde”, disse Zombré.
O governo se comprometeu a aumentar a taxa de ligação ao sistema de esgoto da capital para 59%. Segundo a ONEA, apenas 10% dos habitantes de Burkina Faso contam com banheiros de qualidade aceitável. Fora de Ouagadougou e Bobodioulasso, as duas cidades principais, apenas 2% os possuem. “Os serviços sanitários são muito caros. Mas, não são um luxo, e sim uma obrigação. Como podemos pensar que existe desenvolvimento real se temos problemas para encontrar um banheiro, ou se temos de realizar nossa atividade em meio aos dejetos e com contaminação? Perguntou Ouédraogo. (IPS/Envolverde)
* Este artigo é parte de uma série sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e IFEJ (sigla em inglês da Federação Internacional de Jornalistas Ambientais).

