Mudança climática: Polêmica sobre as cidades polares

Toronto, 07/01/2008 – Dan Bloom acredita que é tempo de pensar como construir cidades auto-suficientes nas regiões polares, porque a mudança climática eventualmente tornara inabitável a maior parte do planeta. As cidades polares poderiam ser “a única possibilidade de sobrevivência para a humanidade se o aquecimento global se transformar em uma catástrofe no futuro distante”, disse à IPS. Bloom não é um cientista nem especialista em alguma área. É um cidadão norte-americano de quase 60 anos que vivem em Taiwan ensinando inglês. Passou a maior parte de sua vida em diversas partes do mundo como repórter, editor, professor, tradutor e autor. Agora seu objetivo é sacudir a indiferença das pessoas em relação à maior ameaça desta época: a mudança climática.

“A vida continua como se nada acontecesse aqui em Taiwan. Não se toma nenhuma medida e as pessoas não querem falar sobre o assunto”, afirmou. E a falta de ação engendra mais paralisação. “A passivilidade dos outros pode fazer nos levar a subestimar as ameaças à nossa segurança”, escreveu Camilla Cavendish no jornal londrino The Times. Cavendish mencionou estudos que sugerem a existência de uma mentalidade de manada. Se a mudança climática é apresentada como um problema, as pessoas fazem algo a respeito. Mas, como isso não ocorre, então o problema não existe. Porém, quando as pessoas se conscientizam sobre a perigosa tendência de seguir a manada para além da beira do abismo, pode-se quebrar essa tendência e seguir um caminho mais sensato, acrescentou.

Bloom, por sua vez, quer que se tome consciência de que o mundo está em um caminho que pode levar à sobrevivência de umas poucas centenas de milhões de pessoas sobrevivam em cidades especialmente desenhadas no Ártico. Originalmente, imaginou que isto poderia acontecer dentro de 500 anos, entretanto, cientistas lhe disseram que é possível essa data ser antecipada significativamente. Bloom manteve contato com especialistas e jornalistas para discutir sua idéia sobre as cidades polares. Há poucos meses, uma busca no Google com a palava-chave “cidades polares” (entre aspas) não apresentava resultados. Hoje, aparecem 3.060 sites em inglês e 29 em espanhol, incluindo um com ilustrações sobre o aspecto que teriam.

Se a busca é feita sem as aspas, surgem 535 mil referências em inglês e 83.200 em espanhol. Muitos dos comentários pertencem a Bloom, na cruzada de um homem que não tem computador para difundir sua palavra. Naturalmente, passa uma grande quantidade de tempo nos cibercafés de Taiwan. Sua quixotesca empresa começou há menos de um ano. Ao observar notícias contraditórias na imprensa a respeito da mudança climática, Bloom decidiu fazer sua própria investigação sobre o assunto. A idéia das cidades polares teve origem em um artigo que o cientista britânico James Lovelock publicou no jornal londrino The Independent.

Lovelock escreveu que a Terra esquentaria muito mais rápido do que o esperado pelos cientistas, devido a mecanismos de retroalimentação como o degelo da Antártida e do Ártico. “Antes do final deste século, milhares de milhões de seres humanos morrerão e os poucos casais ‘reprodutores’ que sobreviverem estarão no Ártico, onde o clima será tolerável”, previu. Sua opinião foi amplamente criticada como sendo excessivamente pessimista e destinada a causar pânico. Nem um pouco alheio à controvérsia, Lovelock foi quem primeiro propôs nos anos 70 a “hipótese de Gaia”, que considera um planeta como um organismo único e altamente complexo. Em outubro de 2007, reiterou que o aquecimento global avançava rapidamente e que produzira um apocalíptico aumento da temperatura em seis graus centígrados, em média, antes do fim deste século.

“No começo fiquei deprimido, mas agora estou otimista”, afirmou Bloom. Se uma mudança climática catastrófica é uma possibilidade real, por que não começar a planejar cidades polares sustentáveis?, perguntou. Se imagina-se que um dia possam ser necessárias para a sobrevivência da raça humana, isto poderia fazer as pessoas se conscientizarem sobre a ameaça de aquecimento do planeta, acrescentou. “Estamos em uma emergência real, não podemos continuar como se nada estivesse acontecendo”, alertou Bloom.

Entretanto, muitos especialistas se negam a considerar a idéia das cidades polares. A maioria dos cientistas contatados pela IPS negou-se a fazer comentários. Os que fizeram disseram que imaginar um futuro dessas características é contraproducente, em um momento em que a humanidade deve se concentrar em “como reduzir drasticamente as emissões de gases causadores do efeito estufa”. “É bobagem pensar em daqui a 200 ou 300 anos, e é muito mais útil se concentrar nos próximos 20 ou 30 anos”, disse, Ross Gelbspan, jornalista que trabalhou no The Washington Post e The Boston Globe e escreveu vários livros sobre mudança climática.

Gelbspan analisou exaustivamente o impacto do aquecimento global no futuro próximo. Acredita que não há forma de evitar a morte de milhões de pessoas e que a questão é determinar quantos milhões serão. Seus cenários de futuro incluem desde um pesadelo totalitário como resposta às migrações maciças e o caso social provocado pela mudança climática até a obtenção de uma verdadeira paz mundial. Seu melhor palpite, hoje, é que pode ocorrer qualquer das duas alternativas ou os diferentes matizes nelas existentes. “Temos de começar a discutir que tipo de futuro queremos”, disse Gelbspn à IPS. Falar com os jovens é especialmente importante, já que se trata de seu futuro. E também é vital oferecer alternativas e soluções. A resposta ao problema nos Estados Unidos – afirmou – é desvincular o dinheiro da política. As indústrias do carvão e do petróleo despejam grande quantidade de dinheiro na campanha dos candidatos à presidência, os quais gastam milhões para se elegerem. Dessa forma, o próximo presidente não tomará as drásticas medidas necessárias para reduzir as emissões de gases causadores do efeito estufa. “A vida no planeta é muito frágil e o estamos arruinando totalmente”, disse Bloom. “vou dedicar os últimos anos de minha vida a difundir a idéia das cidades polares para mexer com as pessoas. Não me importa ser chamado de louco”, afirmou. (IPS/Envolverde)

Stephen Leahy

Stephen Leahy is the lead international science and environment correspondent at IPS, where he writes about climate change, energy, water, biodiversity, development and native peoples. Based in Uxbridge, Canada, near Toronto, Steve has covered environmental issues for nearly two decades for publications around the world. He is a professional member of the International Federation of Journalists, the Society of Environmental Journalists and the International League of Conservation Writers. He also pioneered Community Supported Environmental Journalism to ensure important environmental issues continue to be covered.

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