MÚSICA-MALÍ: O Intercâmbio no Deserto

ESSAKANE, Malí, 24/01/2008 – Um urso polar está no meio do deserto do Sahara, e não é nenhuma alucinação. Sob a cabeça do animal pode se ver a cara de um ator inuit (um povo ártico), usando a pele de um urso para se desfarçar. Artcirq, um circo coletivo inuit, viajou do Ártico à África para o Festival no Deserto, realizado na localidade setentrional de Essakane, em Malí, do dia 10á 12 deste mês.

Trata se do concerto mais grande do país, e provavelmente o mais remoto do mundo. Organizado nas dunas do Sahara, ao norte de Timbuktu, esta mistura de música e da celebração da cultura atrai as pessoas de todas as partes do mundo. O festival está no seu oitimo ano e está a crescer em popularidade graças a comunicação boca a boca e à cobertura da imprensa. Este ano a revista Vogue utilizou este acontecimento como o escenário para uma das suas produções fotográficas de moda. O Bono, o líder do grupo irlandês U2 e ativista dos direitos humanos, também considerou assistir neste concerto.

O concerto de três dias atraiu milhares de fanáticos da música de todo o mundo, assim como do própio Malí. Alguns habitantes do lugar receberam um desconto e muitos entraram grátis.

O acontecimento começou como um espetáculo da música Maliana, mas alargou se a promover a cultura tamasheq e incluir os outros artistas africanos e internacionais.

O objetivo atual do Festival no Deserto é de facilitar “o contato e as relações humanas”, indicou o seu direitor o Manny Ansar.

Artcirq foi criado em 1998 como resposta ao problema do suicídio na pequena comunidade insular canadiana de Igloolik. O grupo usa a cultura tradicional, as artes do circo e a videografia para capacitar aos jovens, assim como para ligar os artistas do Ártico com os do restante do mundo.

Este festival coincide com uma celebração que indica o regresso do sol depois de alguns meses do escuridão no Árctico.

Cuando Artcirq partiu de Igloolik, a temperatura era de 60 grauas debaixo de zero. “Tivemos que tomar sete aviões para chegar aqui. E dentro de uma hora estaremos a montar os camelos”, relatou a IPS o Guillaume Saladin, o co-fundador do grupo.

Apesar do câmbio climático drâstico os artistas de Artcirq vêem muitas semelhanças entre a vida no Ártico e a no Sahara, incluindo um ritmo de vida mais lento, a cultura de escutar à terra, e a colisão entre a vida tradicional e a moderna.

O Saladin é um homem branco franco-canadiano de 35 anos, oriundo de uma família de antropólogos, que cresceu em Igloolik. Depois de passsar pela universidade ele foi juntar se ao circo e logo voltou a Igloolik para dar aulas acrobáticas. Ele espera que o éxito internacional do grupo inspirará os jovens de Igloolik. “Estamos a abrir as portas para mostrar que tudo é possivel. Estamos a construir os sonhos”, disse ele.

Para Artcirq, viajar a Timbuktu foi um sonho feito realiadade pelo Saladin, segundo o que ele explicou.

“Estar aqui é como estar numa caixa gigante de areia”, disse a IPS o Jacky Qrunnut, de Artcirq. Este acróbata e técnico de 22 anos declarou que a viagem foi o intercâmbio cultural da sua vida.

Os membros da companhia explicaram numa conferência de imprensa que a imprensa mal representou o povo inuit. Na sua infância, os artistas tinham visto os atores chineses e das comunidades nativas dos Estados Unidos imitando os esquimos, e contando as historias deles.

“Nunca nos chamamos de esquimo mas sim de inuit “, explicou a Sylvia Cloutier, de 31 anos, uma cantora no grupo.

Apesar da clarificação, os que anunciaram o festival introduziu a companhia como os esquimos –uma palavra que significa quem come a carne crua –, enquanto que a palavra inuit significa uma pessoa.

Na esperança de romper os estereotipos, Artcirq mostrou um filme no festival “The Fast Runner” (“O corredor rápido”). O filme aclamado, sobre a vida no Ártico, atraiu um multidão nas dunas do Sahara.

Jennifer Hollett

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