FÓRUM SOCIAL MUNDIAL: O desafio de enfrentar os amigos

Buenos Aires, 24/01/2008 – Na América Latina, a maioria dos governos progressistas já consolidados apresenta um paradoxo aos movimentos que integram o Fórum Social Mundial e resulta difícil enfrentar presidentes e funcionários com os quais se compartilhou lutas. “A experiência está demonstrando que opor-se a governos de centro-esquerda na região resulta muito difícil”, disse à IPS o sociólogo e doutor em ciências políticas argentino Atílio Borón, que integra o Conselho Internacional do FSM. “É mais complexo enfrentar governos amigos do que os inimigos”, afirmou.

Nascido em 2001 em Porto Alegre como espaço de crítica à globalização neoliberal e ao militarismo, o FSM ganhou rápido vigor na região então com uma maioria de governos conservadores. Mas essa vitalidade parece retroceder desde que chegaram as administrações de esquerda, centro-esquerda ou progressistas. Entre os atuais governos há, inclusive, antigos protagonistas centrais do FSM, como é o caso dos dirigentes do Partido dos Trabalhadores, liderados por Luiz Inácio Lula da Silva, ou do boliviano Movimento ao Socialismo, de Evo Morales, e seus aliados das organizações indígenas.

Às vésperas de uma nova ação global do FSM, que este ano substituiu o encontro internacional anual por mobilizações locais, amanhã, Borón e outros observadores apontaram as vantagens de contar com governos mais sensíveis aos reclamos do FSM, mas muito mais destacaram os desafios que enfrentam os movimentos sociais. Para Miguel Santibáñez, presidente da Associação Chilena de Organizações Não-governamentais, integrada por cerca de 70 entidades, a maior aproximação entre os governos da região e os movimentos sociais “trouxe benefícios e também riscos”.

Santibáñez observou, em conversa com a IPS, que as novas administrações mostram uma vontade maior de gerar espaços de diálogo com a sociedade civil e isso permite desenvolver “algum grau de participação, diálogo e incidência” dos movimentos. Também destacou a maior vocação pelas reformas sociais e mencionou o caso da presidente de seu país, Michelle Bachlet, que se propôs melhorar o sistema de proteção social através de mudanças no sistema previdenciário e na legislação trabalhista. Mas, alertou para o perigo d as demandas sociais “perderam força” se a agenda dos movimentos “for capturada” pelos governos, e deu como exemplo disso as organizações sociais venezuelanas fortemente identificadas com o governo de Hugo Chávez.

Borón afirmou que os movimentos sociais estão muito mergulhados na perplexidade de precisar enfrentar os que compartilharam suas lutas durante muitos anos, e esse fenômeno é uma das causas da menor vitalidade do fórum este ano. Tampouco é otimista a respeito da edição de 2009 prevista para Belém, no Estado do Pará. Para o especialista argentino, o caso mais emblemático do conflito entre governos e organizações sociais é o do Brasil, onde o PT e a Central Única dos Trabalhadores (CUT), que somavam uma das maiores forças de oposição esquerdista na América Latina nos anos 90, perderam peso político desde que Lula chegou à Presidência m 2003.

Também apontou outros casos, como o da Central dos Trabalhadores Argentinos (CTA), uma das duas centrais sindicais do país, que esperou quatro anos de gestão do governo centro-esquerdista de Nestor Kirchner (2003-2007) para obter uma prometida personalidade sindical que lhe permita gozar de maior peso no mundo dos assalariados organizados. A CTA, de tendência ideológica afim com o setor kirchnerista, não conseguiu esse reconhecimento, e anunciou que continuará solicitando-o junto à nova Presidente, Cristina Fernández, mulher de Kirchner.

Outro caso que “vai na mesma direção que a CUT do Brasil”, disse Borón, é o da PIT-CN (Plenário Intersindical de Trabalhadores-Convenção Nacional de Trabalhadores), a central única do Uruguai e afim com as hostes políticas da coalizão esquerdista Frente Ampla do Presidente Tabaré Vázquez. As mesmas brechas, embora com pequenas diferenças, poderiam ocorrer na Bolívia, onde governa o líder camponês Morales, no Equador, com a presidência do esquerdista Rafael Correa, ou na Nicarágua, após a volta do ex-guerrilheiro sandinista Daniel Ortega, se essas administrações se afastarem de seus compromissos de campanha e programas de consenso social.

“Não é necessário baixar as bandeiras com os governos amigos”, recomendou Borón. Os movimentos sociais não só podem manter uma agenda independente de governos centro-esqurdistas, como “devem” fazê-lo, destacou. “Não é fácil, mas do contrário estariam traindo a confiança de suas bases”, ressaltou. O especialista entende que os partidos de esquerda ou movimentos sindicais “não devem se transformar em correias de transmissão dos poderes da vez”, em troca de cargos no governo ou financiamento para atos e programas como ocorre em alguns casos, porque no caso de faze-lo perderão credibilidade.

Por outro lado, quando as organizações “se negam a ser apêndices dos governos” independentemente de sua cor política, mantêm o apoio de seus representados e seu vigor político, destacou, e citou como exemplo o caso dos brasileiros Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra (MST) e o Movimento dos Sem-Teto. De todo modo, para Borón, a conjuntura política na região não é o único fator que está causando perda da importância do Fórum Social Mundial. Também há debates internos sobre o destino do mesmo que, a seu ver, têm saldo prejudicial para a visibilidade e a gravitação do movimento.

“Há três ou quatro anos se impôs a idéia de que o FSM seja um espaço de expressão catártica da diversidade social, e se busca evitar que resulte em um ponto onde se possa coordenar as lutas em nível mundial contra o grande capital, que se apresenta sólido a cada ano em Davos”, o Fórum Econômico Mundial, que acontece nessa localidade da Suíça, disse o sociólogo. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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