Bamako, 24/01/2008 – Aminata Dramane Traoré, uma das principais incentivadoras das campanhas antiglobalização em Malí, considera que o Fórum Social Mundial (FSM) um movimento-chave na luta comum dos oprimidos contra uma “economia mundial violenta” que despreza direitos fundamentais. Traoré, escritora e ministra da Cultura de Malí, falou à IPS sobre as relações econômicas internacionais e sobre o futuro do FSM. Ainda há muito por fazer para lançar luz sobre as relações “entre a natureza destrutiva do neoliberalismo e os conflitos armados”, destacou.
IPS – Há varias atividades previstas para o próximo dia 26, em coincidência com o Fórum Econômico Mundial de Davos, na Suíça…
Aminata Dramane Traoré – É por isso que estarei em Genebra dia 26, onde, em estreita colaboração com outros grupos, incluindo “Les Jardins de Cocagne”, apresentarei as conclusões do fórum que acabamos de realizar aqui analisando a emigração da África e Europa e os riscos dos acordos de associação econômica (EPA) que agora são a principal contenda entre os dois continentes.
IPS – Quando o FSM se reunir no próximo ano seu processo terá cumprido quase uma década. Quais os êxitos do Fórum e quais os fracassos?
ADT – O FSM foi e continua sendo um acontecimento privilegiado, com uma mobilização da sociedade civil sem precedentes, em todo o planeta. Se não existisse, deveria sr criado para poder enfrentar uma ordem econômica violenta que é com freqüência indiferente aos direitos econômicos, políticos, sociais e culturais do povo. O FSM é mais necessário porque a democracia perdeu seu significado quanto a dar ao povo, funcionar através do povo e existir para o povo. Os interesses das multinacionais determinam as políticas dos países ricos, que por sua vez usam as condições (que estabelecem nos acordos) para influenciar as políticas dos países endividados e dependentes do Sul.
As democracias locais, como é evidente em várias guerras vinculadas com eleições locais, são puramente uma formalidade, sem nenhum vínculo real com os interesses macroeconômicos nem geoestratégicos. Nesta dramática situação, os temas sugeridos pelo FSM contribuem para despertar as consciências dos povos, bem como de alguns lideres políticos, que agora começam a admitir que nossos debates se referem a assuntos essenciais. É assim que se forjou uma aliança entre certos lideres para analisar os EPA e vários, em particular o presidente senegalês Abdoulaye Wade e alguns membros-chave da sociedade civil, tomaram posição contra esses acordos.
A classe política africana também admite que, em comparação com temas como a carga da dívida externa e os subsídios agrícolas dos países ricos, as margens para manobrar que se obteve, embora pequenas, são em parte fruto do escudo que a sociedade civil levantou contra a globalização. Em outras palavras, o FSM não fracassou de todo. Vimos apenas uma pausa para avaliar o terreno e consolidar nossos fundamentos.
IPS – Como o Fórum deveria evoluir para tratar os novos desafios que a sociedade civil enfrenta? Quais são os desafios mais urgentes, pelo menos para a África?
ADT – Continuamos atentos aos últimos acontecimentos, tanto que nenhum dos desafios que a humanidade enfrenta escapam de nossa vigilância e do discernimento dos atores do movimento social. Com o tema do aquecimento do planeta, desde o princípio, a questão do meio ambiente esteve na agenda do FSM. Quando debatemos as alternativas do setor agrícola, a água potável, as fontes de energia e os organismos geneticamente modificados estávamos na vanguarda da crítica ao impacto da globalização nos ecossistemas.
Ocorre o mesmo com a maioria dos conflitos, que lançaram uma sombra sobre todo o mundo. Entendemos que, enquanto não encontrávamos respostas justas e críveis para os males da humanidade, avançávamos para guerras internas e entre Estados sem fim. O controle dos recursos materiais por parte das multinacionais, tema vinculado à maioria dos conflitos, é um dos principais assuntos no movimento social africano. Agora estamos refletindo sobre as modalidades para ancorar o movimento e sobre como conseguir que seja apoiado pela maioria das pessoas na África, Ásia, Europa e no resto do mundo. Também estamos refletindo sobre as formas originais de financiar a mobilização.
IPS – Está sendo feito um chamado para que o FSM regresse à África no próximo ano?
ADT – Devido à vulnerabilidade de nosso continente aos males da globalização, outro FSM não seria demais. (IPS/Envolverde)

