Nairóbi, 31/01/2008 – Não só a suposta fraude eleitoral e rivalidades étnicas envolveram o Quênia na violência. A desigualdade econômica é um elemento que promete manter vivo o enfrentamento interno. “Devemos encarar os temas fundamentais que estão na raiz dos distúrbios, como uma distribuição mais eqüitativa dos recursos. Caso contrário, seremos testemunhas do mesmo em três ou quatro anos”, disse Kofi Annan, ex-secretário da Organização das Nações Unidas que tenta mediar o conflito.
Ontem, Anna exortou o presidente Mwai Kibki e o líder opositor Raila Odinga, que denunciou fraude nas eleições de dezembro, a “fazerem todo o possível” para restaurar a paz. Disse que lhes oferecia um “mapa do caminho” para as negociações. A reunião aconteceu depois que a morte do deputado Mugabe Were, do opositor Movimento Democrático Naranja, provocou uma nova onda de enfrentamentos que deixou, pelo menos, sete mortos em Nairóbi.
Logo após a vitória de Kibaki nas urnas eclodiu uma violência que deixou mais de mil mortos e fez pelo menos 250 mil pessoas fugirem de suas casas. Inclusive no caso de Kibaki, que pertence à majoritária etnia kikuyu, e Odinga, representante dos minoritários luos, cheguem a um acordo para compartilhar o poder, as causas crônicas da violência tribal, políticas e econômicas permanecerão como uma ameaça potencial.
A caracterização do conflito como um problema étnico é simplista. O acesso à terra, à moradia e à água são os motivos reais, mascarados pelas diferenças tribais e disparados pelas rivalidades políticas”, disse um socorrista dinamarquês. “Existe um inegável componente classista acrescentou”. Apenas um grupo social saiu à rua para protestar contra a fraude eleitoral: os mais pobres entre os pobres, os desempregados e os sem-terra. Os que participam da violência pertencem a uma única classe social”, disse Millicent Ogutu, que trabalha em uma companhia de mídia com sede em Nairóbi.
Os bairros marginalizados são os únicos focos de violência em Nairóbi e este quadro se repetiu em outras zonas do país. “Já viu alguma pessoa da classe média de qualquer das etnias gritando contra Kibaki ou Odinga?”, perguntou Raphael Karanja, um jornalista de radio. “Os que protestam são os que têm uma equivocada fé no poder do voto e que acreditam genuinamente que seu voto pode gerar uma mudança que leve a melhores políticas econômicas que aliviem seus problemas de falta de terra, moradia e água potável”, argumentou.
A maioria dos manifestantes pertence às etnias luo e klenjin, enquanto o maior número de vítimas da violência são kikuyos. Mas esta linha divisória racial oculta padrões históricos de desigual distribuição dos recursos no Quênia. O principal problema é a distribuição da terra. “O Estado mostrou uma escandalosa parcialidade a favor de uma tribo, à custa de todas as demais, quando o país conseguiu a independência e as parcelas abandonadas pelos britânicos foram distribuídas entre a população local”, disse um professor de economia da Universidade de Nairóbi, que não revelou seu nome porque é funcionário do governo.
Os kykuyos se apoderaram da maior parte da terra, inclusive em áreas que jamais haviam ocupado, porque controlavam o primeiro-governo independente, que lhes deu tratamento preferencial e créditos para comprá-la. “Isto fez com que famílias kikuyo conseguissem terras em meio a áreas tradicionais de outras tribos, especialmente no fértil vale do Rift, a principal região de violência eleitoral desde que foi introduzido no Quênia um sistema multipartidário em 1962”, afirmou o professor de economia.
As eleições de 2007 não foram as primeiras fraudulentas, nem as primeiras a gerar violência ao se conhecer os resultados. O mesmo ocorreu em 1992 e, em maior escala, durante e depois das eleições de 1997. A moradia e o acesso à água potável são outros dois temas de peso nas zonas onde vivem os pobres, e estão diretamente relacionados com a corrupção. “A brecha entre a pequena minoria rica e a maioria de pobres se estendeu tanto durante os últimos anos que mesmo um cidadão comum tendo os recursos e querendo construir uma casa decente encontra travas burocráticas a cada passo que não pode superar se não subornar funcionários corruptos”, disse Ogutu.
Não há bairros de classe média em Nairóbi. Apenas sofisticadas casas ou áreas marginalizadas. “Os ricos se tornaram super ricos e adotaram uma cultura de consumo desenfreado, com grandes e caros automóveis e casas ainda maiores e caras. Por outro lado, os pobres ficam mais pobres. A classe média diminuiu, com uns poucos que conseguiram uma ascensão social e uma maioria que sobrevive à beira do abismo econômico e social”, afirmou o professor.
Os pobres pensavam que a democracia lhes permitiria influir nas políticas governamentais. Odinga aumentou suas expectativas fazendo campanha como o “candidato do povo” e “campão dos pobres”. Recebeu votos de membros de todas as etnias. “Depois da pacífica transição de 2002, a maioria dos quenianos tiveram fé que poderiam provocar outra mudança com seu voto, o que explica a pacífica participação sm precedentes nas eleições de dezembro do ano passado”, disse Ogutu. “Essa fé foi irremdiavelmente danificada. Pode haver uma frágil e momentânea paz, mas não mudará nada para eles. Estarão de volta às ruas, mais cedo ou mais tarde”, concluiu. (IPS/Envolverde)

