Ambiente-Estados Unidos: Incêndios avivam debate sobre mudança climática

Boston, 04/01/2008 – Os gigantescos incêndios florestais que no ano passado assolaram o sul do Estado norte-americano da Califórnia são uma antecipação do que poderia ocorrer no futuro próximo se persistir o aquecimento global, alertam cientistas. No oeste dos Estados Unidos podem ocorrer mais incêndios afetando zonas de mais de 40 mil hectares devido a maiores emissões de gases causadores do efeito estufa, afirmou Thomas Swetnam, diretor do laboratório de pesquisa Tree-Ring, da Universidade do Arizona. “Muitas pessoas pensam que os efeitos ambientais da mudança climática serão sentidos dentro de 50 ou cem anos. Mas, não é assim. Eles estão ocorrendo agora nos ecossistemas, através do fogo”, acrescentou.

Desde meados dos anos 80, o número de incêndios florestais e a extensão das áreas afetadas têm aumentado, disse Swetnam. Na medida em que aumentou a temperatura, acelerou-se o degelo nas montanhas e os verões ficaram mais quentes, explicou. “Vejo isto como o principal grande indicador do impacto da mudança climática nos Estados Unidos, afirmou. São necessárias mais pesquisas sobre o ecossistema da Califórnia meridional, com seus chaparrais e suas florestas, bem como sobre o aquecimento, acrescentou.

Mais de 200 mil hectares de florestas, chaparrais e bairros residenciais na periferia de Los Angeles e San Diego se converteram em extensões vazias de restos de carvão vegetal, como resultado dos 16 incêndios ocorridos entre 21 de outubro e 9 de novembro do ano passado. O fogo afetou oito hectares e destruiu cinco casas na exclusiva zona de Malibu em janeiro de 2007. Outro, de maior magnitude, arrasou 50 casas entre 24 e 27 de fevereiro passado. Em maio, mais de 320 hectares arderam no Parque Griffith, em Los Angeles, e aproximadamente 1.900 hectares na ilha Santa Catalina. Em junho, centenas de casas foram destruídas ou danificadas em Lago Tahoe. Dezenas de milhares de pessoas tiveram de ser evacuadas e foram necessários mais de nove mil bombeiros para combater os incêndios. Depois, foram registradas algumas chuvas e houve alerta de inundações. As autoridades temiam avalanches de barro por causa da perda de vegetação.

A Califórnia meridional é uma região naturalmente propensa a incêndios, mas, ao contrário dos séculos passados, agora está densamente povoada e abriga milhares de residências. O clima mostrou em 2007 um padrão diferente e criou condições ideais para que se produzissem incêndios, afirmaram os especialistas. As condições foram semelhantes às de 2003, quando a seca e os ventos de Santa Ana provocaram incêndios que queimaram mais de 300 mil hectares.

Ronald Neilson, um especialista da Universidade do Oregon, disse ser impossível tirar conclusões sólidas sobre a mudança climática da evidência limitada aos incêndios da Califórnia. Mas, acrescentou que, somados aos recentes padrões climáticos, se ajustam a sua previsão de um aquecimento na área durante o próximo século, que provocará prolongadas secas e períodos de intensas chuvas. A Califórnia meridional sofreu uma severa seca. Durante o ano que terminou em 30 de junho de 3007, caíram apenas 80 milímetros de chuva, a menor quantidade desde 1877. Segundo o Departamento de Meteorologia da Universidade da Califórnia, a media anual é de 380 milímetros de chuva.

Os ventos de Santa Ana, secos e quentes, sopram espaçadamente a cada ano entre outubro e fevereiro. Mas, em 2007 foram fortes e se manifestaram durante dias sem interrupção. Iniciaram incêndios ao derrubarem cabos de eletricidade e em seguida avivaram as chamas. Estes ventos sopram, aproximadamente, por um ou dois dias, a velocidade de 32 quilômetros por hora, mas no ano passado chegaram a 48/64 quilômetros por hora, com rajadas de 136/139 quilômetros por hora. Estiveram presentes durante 78 dias, três vezes sua duração histórica média, segundo a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (Nasa).

“No futuro, incêndios catastróficos como os ocorridos na Califórnia poderão ser algo normal, outra evidência de que a mudança climática é uma realidade, com conseqüências graves”, disse Neilson. “Pode-se comprovar a existência de incêndios de maior magnitude, mais freqüentes e mais severos, por uma temporada mais prolongada, durante os últimos sete ou oito anos”, disse perante um comitê do Congresso norte-americano Abigail Kimbell, diretora do Serviço Florestal dos Estados Unidos. Além disso, ressaltou que embora possam estar relacionadas com a mudança climática é preciso mais pesquisas para estabelecer uma ligação direta. Os incêndios freqüentes, mas pequenos, que eram parte natural do ecossistema da Califórnia, não aconteceram, o que levou a um grande acúmulo de madeira morta e seca, que alimentou os recentes incêndios de grande magnitude, acrescentou Kimbell.

Os incêndios podem estar colaborando com o aquecimento global, ao liberarem na atmosfera grande quantidade de dióxido de carbono. Christine Wiedinmyer, do Centro Nacional para a Pesquisa Atmosférica, com sede em Boulder, no Colorado, estimou que os incêndios da Califórnia emitiram entre 19 e 26 de outubro passado 7,9 milhões de toneladas de carbono, equivalentes a 25$ da media mensal resultante de todos os combustíveis fósseis em todo o Estado.

Jason Neff, professor assistente de geociências na Universidade do Colorado, disse que no ecossistema natural dos Estados Unidos o excesso de carbono é absorvido pelas florestas e pelos oceanos, mas, alertou que na costa ocidental não estão em condições de fazê-lo. As áreas florestais utilizam o dióxido de carbono para seu crescimento. Porém, na zona ocidental do pais não desenvolvimento de novas florestas e o excesso de carbono está causando problemas. “O oeste está se tornando mais seco e quente, o que aumenta a propensão a incêndios mais freqüentes e severos, que liberam mais carbono, o que gera mais seca e altas temperaturas, realimentando o processo”, disse Neff. “Em uma situação natural, a quantidade de carbono é contrabalançada. Mas, já não temos um clima normal”, afirmou. (IPS/Envolverde)

* Este artigo é parte de uma serie sobre desenvolvimento sustentável produzida em conjunto pela IPS (Inter Press Service) e IFEJ (sigla em inglês da Federação Internacional de Jornalistas Ambientais).

Adrianne Appel

Adrianne Appel has written for IPS since 2006 about U.S. domestic issues, including the environment, politics and economics. Formerly a politics reporter in Washington, D.C., she now reports from Boston. In 2010 she was awarded a Knight Science Journalism Fellowship.

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