IRAQUE: Forças criadas pelos EUA causam novos conflitos

Bagdá, 16/01/2008 – As novas Forças do Despertar criadas pelos militares norte-americanos no Iraque estão causando novos conflitos entre os habitantes deste país. Há alguns meses, o exército dos Estados Unidos constrói ativamente o que chama de Forças do Despertar, reunindo “cidadãos locais comprometidos” em um esforço para reduzir os ataques contra os ocupantes. Aos membros da força, que são principalmente ex-combatentes da resistência e grupos tribais, são pagos US$ 300 mensais. Atualmente há cerca de 80 mil recrutas nestes grupos. O exército norte-americano pretende elevar esse número para 85 mil. Segundo os militares dos EUA, 83% dos membros são sunitas.

As forças, que se opõem ao governo iraquiano liderado pelo primeiro-ministro Nouri al-Maliki, designado por Washington, também são muito criticadas pelos moradores sunitas de Bagdá e outras cidades. “Os grupos armados chamados do Despertar são agora os únicos atores poderosos em muitas áreas sunitas da capital, assim, mostram seu poder do mesmo modo que outros o fizeram”, disse à IPS Qussay al-Tai’i, advogado da localidade de Saydiya, a sudoeste de Bagdá. “Parece que a violência se tornou um procedimento de rotina para os soldados norte-americanos, para os homens da segurança iraquianos e agora para os chamados combatentes do Despertar”, acrescentou.

Testemunhas da área que há pouco fugiram para Bagdá disseram à IPS que mais de 200 moradores foram presos pelas Forças do Despertar, apoiadas pelo batalhão al-Muthanna do exército iraquiano. “Eles chegaram a prenderam meus filhos de 14 e 17 anos. Disse a eles que meus filhos eram apenas estudantes e que não fizeram nada de mau, mas me empurraram”, contou Hajja Um Ahmed.

Os moradores de Saydiya se preocupam com a possibilidade de alguns dos detidos ser executado, como ocorreu com outros na cidade de Faluja e em outras áreas onde dominam as Forças do Despertar. “Os matarão a sangue frio e jogarão seus cadáveres no lixo”, disse à IPS o aterrorizado pai de um preso de 35 anos, que pediu para na ter revelada sua identidade. “Quando levaram meu filho lhe disseram que cortariam sua cabeça, e parece que falavam sério”, acrescentou.

“Eles espalharam seus espiões por toda a área e nos ameaçaram com prisão se alguma vez falássemos sobre isto com a imprensa. Você também deve ser cuidadoso porque eles realmente odeiam os jornalistas”, disse à IPS um comerciante que não quis dar seu nome. A Associação de Eruditos Muçulmanos, organização religiosa sunita,condenou as detenções e disse que as forças da coalizão e o governo atual são responsáveis pela segurança dos presos.

“Chamamos a atenção do mundo para a nova onde de detenções e execuções por parte deste novo joguete da ocupação. Milhares de iraquianos estão sendo presos, torturados e executados enquanto a ocupação norte-americana e seu ilegítimo governo iraquiano dizem ao mundo mentiras sobre reconciliação e justiça entre os iraquianos”, disse à IPS em Bagdá Sheikh Hatam Ali, da Assoiçao de Eruditos Muçulmanos. As unidades militares dos Estados Unidos aparentemente não interferiram nos ataques feitos pelo exército iraquiano e pelos combatentes do Despertar em Saydiya.

A isso se soma as grandes quantidade de detidos. Em novembro, o Comitê Internacional da Cruz Vermelha anunciou que cerca de 60 mil pessoas estavam detidas no Iraque. “Ainda aguardam que seu problema seja resolvido, e o governo iraquiano não parece disposto a resolvê-lo. Este país precisa de uma solução que inclua toda a comunidade internacional”, disse à IPS Luqman Mohammad, jornalista e ativista pelos direitos humanos, em Bagdá.

As forças do Despertar são amplamente criticadas por corrupção e pelo uso de táticas brutais. Muitos se referem a elas como “gangues”, “delinqüentes”, “cães dos norte-americanos” e “ladrões”. Mas, o governo de George W. Bush e muitos meios de comunicação do Ocidente dão a essas forças créditos por terem levado estabilidade a áreas em convulsão. (IPS/Envolverde)

Ali al-Fadhily

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