Espanha: Aliança de Civilizações decola com ausências

Madri, 16/01/2008 – A Aliança de Civilizações deu um importante passo ao ser inaugurado ontem na capital espanhola seu primeiro fórum, embora não tenham sido atendidas as expectativas criadas sobre a presença de governantes. O ato inaugural foi presidido pelo secretário-geral da Organização das Nações Unidas, Ban Ki-moon; pelo Alto Representante das Nações Unidas para a Aliança de Civilizações, o português Jorge Sampaio; o primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, e o primeiro-ministro da Espanha, José Luiz Rodríguez Zapatero.

A Aliança, voltada à garantir a da paz e um desenvolvimento justo e eqüitativo no mundo, é uma idéia de Zapatero que, depois de dialogar com Erdogan, a apresentou junto com seu colega turco em 2004 na ONU, que um ano depois a adotou como um programa seu e designou como Alto Representante Samapio, presidente de Portugal entre 1996 e 2006. Este processo nasceu em 1997 pelas mãos do então presidente iraniano Moahmed Khatami (1997-2005), que propôs estabelecer um diálogo entre civilizações em seu discurso inaugural da Assembléia Geral da ONU.

Embora todos os mandatários do mundo tenham sido convidados, apenas participam do encontro de dois dias os primeiros-ministros Erdogan; Abdullah Ahmad Badawi, da Malásia; Danilo Türk, da Eslovênia; Abdelaziz Belkhadem, da Argélia, e os presidentes Tarja Halonen, da Finlândia, e Abdoulaye Wade, do Senegal. No total, participam do encontro mais de 400 representantes de 80 países e de grandes religiões, entre elas as igrejas cristãs Católica, Ortodoxa Etíope, Ortodoxa Russa e protestantes; muçulmanos; budistas; sintoístas; hindus. No primeiro dia de intervenções e debates já surgiram dois projetos que serão aprovados antes da conclusão do fórum nesta quarta-feira e que definem os objetivos do mesmo e suas atividades mais imediatas.

O primeiro projeto é o chamado Mecanismo de Ação Rápida nos Meios de Comunicação, no qual especialistas em questões interculturais abrirão uma análise e um debate na Internet, principalmente se ocorrerem crises internacionais e cujos resultados entregarão aos órgãos diretivos e consultores da Aliança de Civilizações (ADC). O segundo é o Centro de Informação da ADC, concebido como um instrumento educativo sobre múltiplas questões destinado a melhorar o entendimento transcultural e que estará aberto ao público pela Internet.

Na abertura, Zapatero anunciou a implementação em seu país de um Plano Nacional que prevê 60 atuações “de curto, médio e longo prazos” voltadas à juventude e aos meios de comunicação e que dará especial ênfase na educação intercultural e às migrações. O mandatário acrescentou que para tornar efetiva a ADC, os países que a subscrevem deverão dar-lhe um conteúdo prático e concreto, favorecendo o conhecimento mútuo e a diversidade, promovendo os valores de uma cultura de paz, melhorando a integração e a capacitação dos imigrantes e, desde já, promovendo a difusão dos objetivos da Aliança.

O governo de Zapatero já havia dados passos nesse sentido. No último Conselho de Ministros desta legislatura, realizado sexta-feira, foi aprovada a criação de um corpo de voluntários da ADC, de um Premio Anual da Capitalidade Intercultural e um programa de formação de arabistas espanhóis. Outro passo importante foi anunciado pela rainha Noor, viúva do rei Hussein da Jordânia, que apresentou o Fundo para os Meios de Comunicação e informou que o mesmo já conta com financiamento de US$ 10 milhões e começou a busca de patrocinadores para conseguir outros US$ 100 milhões.

É importante conseguir esse dinheiro – explicou – porque com o fundo “serão promovidos conteúdos na mídia que incentivem o entendimento mútuo e também o mútuo respeito entre as sociedades e culturas de todo o mundo”. Por outro lado, o secretário-geral do Conselho da Europa, Terry Davis, juntamente com Sampaio, assinou ontem uma carta de intenções que é o primeiro passo para a assinatura de um acordo de cooperação entre a ADC e essa instituição pan-européia.

Tomando por base os objetivos da aliança, em sua intervenção no ato inaugural Erdogan defendeu a entrada de seu país na Nações Unidas e disse que os obstáculos que forem colocados a esse ingresso, ainda em processo, também serão “obstáculos para a paz e a estabilidade no mundo”. O mandatário turco disse que seu país não espera tratamento favorável, mas destacou que sua entrada na UE “será um indicador claro de que a Aliança de Civilizações é possível e contribuirá para a paz internacional”.

Atualmente, prosseguiu, “em um mundo onde o conhecimento e os valores sociais e culturais se globalizam, desafortunadamente o mesmo acontece com o ódio e a intolerância”. Por isso, Erdogan considera indispensável fortalecer a ADC como “resposta global a um problema global”, resposta que, a seu ver, deve incluir a cooperação entre todos e a criação de uma rede de solidariedade.

Ban Ki-moon, por sua vez, destacou que a ONU assume a ADC como “uma forma de se enfrentar o extremismo”, a qual qualificou de “plataforma única de encontro entre culturas para falar com franqueza das preocupações interculturais”. O governo espanhol designará um coordenador nacional para o desenvolvimento de suas ações na ADC. Embora não tenha sido informado quem ocupará o cargo, fontes próximas ao governo disseram à IPS que o mais provável é que seja o diplomata Máximo Cajal, único sobrevivente de um incêndio na embaixada espanhola na Guatemala em 1980, provocado pela intervenção do exército desse país em busca de opositores no contexto da luta contra-insurgente dessa época.

Os participantes do Fórum e outros convidados puderam assistir ao fim do primeiro dia de reunião um concerto com diferentes visões artísticas, no qual se ouviu a violinista espanhola Carla Marrero, de 12 anos, e a cantora marroquina Amina Aloui, bem como o cantor espanhol Miguel Poveda, prêmio nacional de música 2007, uma das vozes mais conhecidas do flamenco. (IPS/Envolverde)

Tito Drago

Tito Drago es corresponsal de IPS en Madrid. Periodista y consultor especializado en relaciones internacionales, nació en Argentina y vive en España desde 1977, tras su paso por varios países latinoamericanos y europeos. En 1977 abrió la primera corresponsalía de IPS en España y en 1978 se trasladó a la sede mundial de la agencia en Roma para reestructurar la jefatura de redacción. Es escritor y conferencista. Fue presidente del Club Internacional de Prensa de España, del que es presidente honorario desde 1999. También presidió la Asociación de Corresponsales de Prensa Extranjera (ACPE). Entre 1989 y 2008 fue director general de la agencia de comunicación y editora Comunica, de la revista Mercosur y de los libros y los sitios web de las Cumbres Iberoamericanas de Jefes de Estado y de Gobierno. Desde 1992 dirige el portal sobre la Actualidad del Español en el Mundo.

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