Fórum Econômico Mundial: Olho crítico sobre Davos

Berna, 14/01/2008 – A sociedade civil exercerá novamente a vigilância sobre o que acontecer no Fórum Econômico Mundial (FEM) e sobre a conduta social e ambiental de um milhar das maiores companhias do mundo que participam deste encontro anual de empresários, governantes e especialistas liberais na localidade de Davos, na Suíça. Nessa missão, as organizações não-governamentais Declaração de Berna e Pró-Natura, a filial suíça da Amigos da Terra, entregarão no próximo dia 23 os prêmios do Olho Público, uma cerimônia repleta de sarcasmo que premia as multinacionais acusadas de serem irresponsáveis nos campos social e ambiental.

A seleção final, que será divulgada nessa data no centro turístico alpino de Davos, recairá este ano em uma das três empresas selecionadas como favoritas: a companhia nuclear do Estado francês Areva; a multinacional química alemã Bayer CropScience, e a filial filipina da empresa frutífera norte-americana Dole Foods. Os candidatos a este premio irônico são corporações que integram o FEM, que entre 26 e 26 deste mês realizará sua tradicional reunião anual.

Durante esses dias, às vezes com a presença de figuras das artes ou do espetáculo de renome internacional, o FEM “corteja os líderes mundiais enquanto pressiona a favor de uma generalizada liberalização das finanças e do comércio”, sintetizou para a IPS Sonja Ribi, da Pró-Natura. Entretanto, o Olho Público se encarrega de iluminar, para a opinião pública em geral, o lado “obscuro da globalização” enquanto reclama das companhias multinacionais que “pelo menos demonstrem um mínimo de compromisso social e ambiental”, disse Oliver Classen, da Declaração de Berna.

A campanha do Olho Publico mostra aos atores da economia mundial que os efeitos sociais e ambientais de suas práticas comerciais “não só prejudicam as vitimas desses danos como também afetam a reputação de suas empresas”, disse Classen à IPS. Trate-se de patentear medicamentos essenciais ou explorar sem escrúpulos as matérias-primas ou as trabalhadoras, a capacidade desses personagens reunidos em Davos não tem limites, insistiu o ativista da Declaração de Berna.

Com o pretexto de se reunirem para “melhorar o mundo”, os líderes das grandes corporações aproveitam esta oportunidade para manter contatos e exercerem influências sobre outros empresários ou representantes de governos, disse Ribi. Porém, o Olho Público se vale desta ocasião para denunciar as maciças conseqüências negativas de uma mentalidade obcecada com as taxas de rentabilidade, disse a representante da Pró-Natura. Ao mesmo tempo, as ONGs reclamam das condições do trabalho humano, da responsabilidade no produto final e da sustentabilidade ecológica das empresas.

As candidaturas das companhias selecionadas levam em conta suas condutas sociais e ecológicas. No caso da Areva, foram examinados seus antecedentes em Níger, onde explora minas de urânio através de duas subsidiarias, Somair e Cominak. Os trabalhadores dessas minas recebem informação insuficiente sobre os riscos sanitários do armazenamento ao ar livre de materiais radioativos, afirmaram as duas organizações que promovem o Olho Público.

Por outro lado, os hospitais de propriedade da companhia de mineração estendem diagnósticos deliberadamente falsos aos trabalhadores enfermos e certificam mortes por síndrome de deficiência imunológica adquirida (Aids) em casos de mortes por câncer. Dessa forma, os empregadores evitam o pagamento dos tratamentos de seus mineiros, afirmaram os representantes do Olho Público. A Areva explorou por 40 anos as minas de urânio de Níger, uma ex-colônia francesa. Nas áreas sob sua exploração, as concentrações de radioatividade no ar, na água e no solo são extremamente altas, disseram Pró-Natura e Declaração de Berna.

A companhia alemã Bayer CropScience, apresentada como a maior fabricante de pesticidas do mundo, foi proposta ao prêmio por suas tentativas de impor o cultivo de jatropha, uma planta que por seu conteúdo de 40% de óleo pode ser utilizada como biocombustivel. Mas, as duas ONGs afirmaram que os planos de expansão da jatropha na Índia prevêem o uso de terras que atualmente são fontes de alimentos. Os camponeses que trabalham pequenas parcelas de terra e que se envolvem nesse cultivo ficarão dependentes do uso de caros agroquímicos indispensáveis, afirmaram.

A conhecida ativista indiana Vandana Shiva publicou em novembro um estudo sobre os efeitos do cultivo da jatrapha em seu país e iniciou uma campanha em grande escala para desestimular essa exploração agrícola. Pró-natura e Declaração de Berna disseram que, para expandir o cultivo dessa planta, a Bayer usa a Secretaria da Convenção das Nações Unidas sobre Desertificação (CNUD)( e o Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). As duas entidades da sociedade civil também dirigiram um pedido à Organização das Nações Unidas para que estabeleça critérios definindo “com quem coopera e sob quais condiçoes”.

O terceiro candidato é a firma Dole Phillippines Inc, filial da norte-americana Dole Foods, que explora plantações de banana em 12 mil hectares das terras mais férteis das Filipinas. Também possui uma unidade de envase e empacotamento. Desde 1990, a companhia reduziu o número de empregados permanentes de oito mil para cinco mil, enquanto os temporários originalmente inexistentes agora somam cerca de 12 mil, com elevada porcentagem de mulheres. A jornada chega a US$ 4,00, metade do que o governo filipino define como nível de pobreza. Em comparação, os trabalhadores das plantações da Dole no Hawai recebem US$ 5,00 por hora.

Por outro lado, muitos camponeses arrendaram suas terras à Dole, que agora os tem como trabalhadores das plantações. Estes camponeses só podem cumprir seus compromissos de trabalho com a ajuda de seus filhos, que dessa forma deixam a escola e sofrem problemas de saúde pelo trabalho excessivo e pelos químicos agrotóxicos, como o Endolsunfan, utilizado nas plantações. As duas organizações suíças também denunciaram que a Dole exerce pressões contra os sindicato dos trabalhadores filipinos. Classen alertou que as multinacionais, “como os mil integrantes do Fórum Econômico Mundial, devem aceitar mais responsabilidades”. Do contrário, perderão não apenas sua credibilidade, mas, também, seus investidores, seus empregados e seus clientes, ressaltou. (IPS/Envolverde)

Gustavo Capdevila

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