Roma, 14/01/2008 – Os partidos políticos “se tornam cada vez menos inclusivos e são cada vez mais mecanismos de poder e auto-referência”, afirmou, em entrevista à IPS, Roberto Savio, membro do Comitê Internacional do Fórum Social Mundial (FSM). Savio integra esse organismo desde sua criação em 2001, e desde 2003 é coordenador da área de “Mídia, cultura e contra-hegemonia”.
O jornalista fundou em 1964 a agência de notícias Inter Press Service (IPS), da qual é presidente emérito, bem como outras organizações informativas, sempre com ênfase no mundo em desenvolvimento. Também é co-fundador do Mídia Watch Global, com sede em Paris, e presidente do Conselho da Aliança para uma Nova Humanidade, uma fundação que promove a cultura da paz. Savio falou à IPS sofre o futuro do FSM.
IPS – O FSM é um movimento antiglobalização, utilizando o termo globalização em um sentido doutrinário, não literal. Mas, ao mesmo tempo, o FSM é um fenômeno global.
Roberto Savio – O FSM não é um movimento contra a globalização, mas contra o tipo de globalização que se baseia apenas no mercado. Esta é uma globalização gerada pelo Consenso de Washington, o chamado a uma Nova Ordem Internacional criado no final dos anos 80 pelas instituições financeiras internacionais e pelo Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.
Também coincidiu com o colapso do Muro de Berlim (1989) e com um regresso sem precedentes ao unilateralismo nas relações internacionais, baseado na hegemonia, no poderio militar e na idéia de que os interesses dos Estados Unidos eram automaticamente os interesses da humanidade, como declarou várias vezes o ex-presidente George Bush (1989-1993).
O resultado desse tipo de globalização foi marginalizar a Organização das Nações Unidas, o direito internacional e o chamado à justiça social, o desenvolvimento sustentável e outros valores que estão consagrados na constituição de praticamente todos os paises.
Quem se identifica com o FSM quer outra globalização, na qual a justiça social, a participação, a democracia e as pessoas sejam os valores. É significativo que quando começamos, em 2001, éramos considerados um movimento marginal. Agora, sete anos depois, ninguém mais defende o Consenso de Washington. O próximo presidente dos Estados Unidos, sejam que for, assinará o Procolo de Kyoto (contra o aquecimento global, de 1997). Me parece importante que o papa Bento 16 tenha falado, em seu discurso de Epifania, sobre os perigos dessa globalização.
IPS – O FSM costuma ser realizado em janeiro, quando seu “rival”, o Fórum Econômico Mundial (FEM) se reúne em Davos, na Suíça. A data foi escolhida para tentar empanar o FEM. Até que ponto o senhor acredita que o FSM impôs temas à agenda do FEM?
RS – A coincidência com a data do FEM não foi para fazer-lhe sombra. Em Davos se reúnem uns poucos milhares de pessoas muito poderosas, e ninguém pode fazer sombra a essa concentração de poder. Simplesmente queremos expressar nosso profundo desacordo com a legitimação de decisões tomadas em lugar onde as pessoas se reúnem por causa de seu poder, não por terem sido delegadas por alguém. E deixar claro que há centenas de milhares de pessoas, sem esse tipo de poder mas que são cidadãos reais, que querem um mundo diferente.
Se forem revistas as várias agendas do FEM se verá claramente como, após a criação do FSM, Davos incluiu temas que antes ignorava, temas sociais, de meio ambiente, de sustentabilidade no crescimento econômico. Também foram convidadas várias organizações não-governamentais, mas, basicamente por razoes cosméticas. Nada mudou realmente em sua interpretação do mundo.
IPS – O que ficou do primeiro FSM, que tornou possível a pessoas de todo o mundo se reunirem e expressarem seus pontos de vista?
RS- O que ficou é que aqueles que vão a um Fórum saem fortalecidos em seus pontos de vista e valores, se reúnem com dezenas de milhares de pessoas que acreditam que um mundo diferente é possível e retornam às suas atividades e campanhas com a sensação de que não são um esforço local, mas parte de um movimento muito grande.
IPS- O segundo FEM, e o terceiro também, se realizaram em Porto Alegre. O quarto, entretanto, foi em Mumbai (Índia). Depois, em 2005, voltou à Porto Alegre. Foi uma boa idéia mudar de sede?
RS- Esta é uma pergunta complexa. Continuar em Porto Alegre teria tornado tudo mais fácil, devido ao grande apoio de milhares de voluntários locais. Também teria proporcionado um nome mais consistente, como Davos é para o FEM. Mas, também teria limitada a participação internacional.
IPS- Em 2006, pela primeira vez, o FEM aconteceu em três cidades diferentes: Caracas (Venezuela), Bamako (Malí) e Carachi (Paquistão). E no ano passado aconteceu em Nairóbi (Quênia). Este ano, as “ações” de 26 de janeiro não serão organizadas em um lugar em particular. Isto dilui o impacto mundial do Forum?
RS- O FSM é um grande laboratório de experiências. A necessidade de conseguir a maior participação possível nos fez pensar em diferentes fórmulas. Este ano convocamos uma onda de mobilizações locais pára que durante todo o dia os cidadãos se reúnam pacificamente para debater, compartilhar e reclamar um mundo diferente.
Este acontecimento sem precedentes tem um problema: a visibilidade. Já fomos informados de quase 400 reuniões em todo o mundo. Não temos de mídia para mostrá-las, para demonstrar que este é um movimento mundial, que somos muitos e diferentes, e que estamos em todas as partes. Tentaremos fazê-lo, com meios muito limitados. Nosso orçamento total em matéria de comunicação para o FEM 2008 gira em torno dos US$ 100 mil, o que não é suficiente nem para abrir um açougue.
IPS – O site do FSM diz que é “não-confissional, não-governamental e não-partidário”. Em Porto Alegre, entretanto, foi patrocinado pelo governo local, liderado pelo Partido dos Trabalhadores. O que o senhor pensa do envolvimento dos partidos políticos no FSM?
RS- Nossa carta de princípios exclui deliberadamente os partidos políticos dos fóruns. Na verdade, é uma questão muito complexa. Os partidos políticos têm um papel decisivo no processo de moldar as sociedades. Para nós, o primordial é não aceitar financiamento de partidos e excluir oradores que falem em nome de um partido.
Em Porto Alegre, foi o apoio da população que fez as autoridades locais darem apoio logístico, não financeiro. Em Mumbai e Nairóbi, por exemplo, fomos a duas cidades governadas por partidos de centro-direita, e inclusive eles cooperaram, novamente pelo apoio dos cidadãos. Mas, nunca recebemos contribuições financeiras de um partido como tal, e espero que continuemos assim. O caso menos claro foi o de Caracas, onde o governo, através de uma ONG local, deu muito apoio ao Fórum. Mas, de modo significativo, o FSM ignorou os pedidos de politização do movimento feitos pelo presidente Hugo Chávez.
IPS- O site do FSM diz que não se trata de uma organização. Por outro lado, alguns dentro do movimento criticam as tentativas de converter-se em um ponto central de tomada de decisões para grupos dissidentes, uma espécie de substituto das Internacionais Comunistas.
RS – Creio que não precisamos criar uma espécie de velho sistema partidário. Mas, necessitamos nos estruturarmos mais, estabelecer regras de gerenciamento e, especialmente, chegar ao mundo exterior para apresenta nossos pontos de vista e os resultados de nossos debates e propostas. Há temas em que existe unanimidade, como a estupidez da guerra, a necessidade de justiça social, a defesa do meio ambiente, a necessidade de uma agenda de gênero mais forte, o respeito pelos povos indígenas e muito mais. E seria de grande impacto se os movimentos fizessem campanha para a criação de plataformas para influenciar governos e instituições.
Porém, muitos consideram que as instituições políticas são parte do problema, pois se tornam cada vez menos inclusivas e são cada vez mais mecanismos de poder e auto-referência. Este debate não foi resolvido. E nos acompanhará por muito tempo. Creio que o fato de não podemos pressionar por plataformas, porque devemos continuar sendo apenas um espaço aberto, dilui nosso poder de implementação em um mundo onde se necessita de uma urgente mudança. Independente do que fizermos, o impressionante continua sendo que, quando nos reunimos, todos deixam o Fórum mais felizes, mais sábios e mais fortes. Talvez esta seja a essência do FSM e não devamos esperar mais. (IPS/Envolverde)

