MULHERES: Um homem pode ser presidente?

Roma, 01/02/2008 – “Acredita que um homem poderá ser presidente algum dia?”, pergunta à sua mãe uma criança que em toda sua vida somente viu mulheres como chefes de Estado em seu país, a Irlanda. Em dezembro deste ano entraram na idade adulta irlandeses que passaram toda sua vida sob mulheres na presidência. Mary Robinson, a antecessora de Mary McAleese, assumiu o cargo em 3 de dezembro de 1990. MacAleese a sucedeu no dia 10 de novembro de 1997. A subdiretora-executiva do programa do Fundo de Desenvolvimento das Nações Unidas para a Mulher (Unifm), Joanne Sandler, conta esta historia para ilustrar como em alguns países, a liderança feminina pode se converter em uma rotina.

Em lugares como Irlanda e Finlândia é cada vez menos extraordinário ver uma mulher no poder”, disse Sandler. E, segundo ela, devido a essa presença poderia aumentar a proporção de postos de liderança em mãos femininas. “Quando alguém vê mulheres em posições de poder muda a imagem que as meninas têm de si mesmas. Elas se vêem em nossos lugares. A mudança levará muito tempo, embora tenha começado”, explicou. Esses avanços não necessariamente se correspondem com o desenvolvimento econômico de uma nação.

A Itália está em 84º lugar no último Índice de Brecha de Gênero, divulgado pelo Fórum Econômico Mundial. Portanto, uma das principais economias do mundo se encontra em pior situação do que países em desenvolvimento como Bolívia (80º), Peru (75º) Armênia (70º). No topo da lista de 128 países analisados figura a Suécia. O Panamá ocupa o lugar 38. Sri Lanka em 15º, Estados Unidos em 31º, Argentina 33º, Mongólia 62º, Indonésia 81, Nicarágua 90 e Bangladesh em 100º. Filipinas, outro país em desenvolvimento, consegue um desempenho extraordinário: figura em 6º lugar, atrás de cinco nações ricas, como Suécia, Noruega, Finlândia, Islândia e Nova Zelândia. Os países com a brecha de gênero mais profunda são Paquistão (126), Iêmen (128) e Chade (127).

Com a riqueza pessoal ocorre algo semelhante ao que acontece com a dos países: não é um requisito essencial para o avanço de uma mulher. “Mais dinheiro não equivale a menos discriminação de gênero. O dinheiro e o poder têm influência no caso das mulheres que têm ascensão. Mas, por si só, o dinheiro não explica” o fenômeno, disse Sandler. O exemplo da Libéria é significativo. “Uma mulher educada, ex-funcionária do Banco Mundial e da Organização das Nações Unidas, com um currículo impressionante, compete com um jogador de futebol que não passou da escola secundaria”, disse em alusão à presidente Ellen Johnson-Sirleaf e o candidato que a derrotou nas eleições de 2005, George Weah.

“Imaginemos o contrário: uma mulher com as credenciais de Weah seria uma concorrente séria diante de um homem como Johnson-Sirleaf? Para entrar na carreira política de alto nível, as mulheres necessitam o mesmo que os homens, mas também muitas qualidades extras”, disse. “O dinheiro é, por certo, um igualador em termos de acesso à educação, ao capital, à propriedade e às oportunidades”, disse, por sua vez, Ayesha Kajee, pesquisadora do instituto Sul-africano de Assuntos Internacionais integrante do conselho do capitulo sul-africano da Transparência Internacional. “Mas, mesmo nas elites ricas os homens tendem a exercer mais poder do que as mulhers. Daí que a riqueza não garante a igualdade entre sexos”, disse.

Sociedades supostamente desenvolvidas que mantêm estruturas familiares e de liderança patriarcais e autoritárias podem, por outro lado, “instituir políticas que resultem em uma antipatia institucional e social para garantia das mulheres”, destacou Kajee. “Nessas sociedades, elas mesmas são, freqüentemente, tacitamente cúmplices, pois foram socializadas para pensar que o acesso ao poder é indesejável, pouco feminino ou anti-religioso”, acrescentou. H, segundo Kajee, um vínculo entre gênero e desenvolvimento, “mas a mudança ocorre por muitas razoes diferentes”.

A especialista recordou que o Unifem constatou em 2002 que, “dando-se poder às mulheres pode-se, por exemplo, legislar uma cota” de representação parlamentar feminina mínima “sem muito esforço”. “Todos os países que conseguiram ou ultrapassaram a representação parlamentar feminina de 30% têm algum tipo de ação positiva. Não é um assunto Norte-Sul ou de nível de desenvolvimento, mas de vontade política, e pode ser independente do desenvolvimento humano”, acrescentou. Isso explicaria porque países como Filipinas se colocam em lugares tão elevados segundo o Índice de Brecha de Gênero: alguns sistemas eleitorais favorecem as políticas de gênero mais do que outros, disse Kajee.

A representação proporcional para a destinação de cadeiras no parlamento “tem muito mais êxito do que os sistemas de maioria simples de votos” por circunscrição eleitoral “na hora de incentivar e abrir o acesso à participação política das mulheres”, explicou. “Os países economicamente subdesenvolvidos que priorizam a educação das meninas ou o acesso das mulheres às oportunidades de mercado, ou cujas leis ou normas tradicionais as incentivam a aproveitar essas oportunidades, colhem os benefícios de tais políticas em uma crescente liderança política e empresarial”, disse Kajee.

Muitos outros fatores fazem as mulheres aproveitarem ou não essas oportunidades para transformar suas sociedades. “Com mais mulheres na política, agora se percebe a complexidade da intersecção do gênero com a classe social, a família, o poder e o dinheiro. Quantas mais há, maior é o papel do gênero”, disse à IPS Charlotte Bunch, diretora-executiva do Centro para a Liderança Global das Mulheres da Universidade de Rutgers (EUA).

Mas, para que as presença feminina permita introduzir esse papel entre as prioridades políticas, as mulheres devem superar uma fronteira que Bunch e Sandler situam entre 10% e 30% das cadeiras parlamentares. Em janeiro de 2007, segundo a União Interpalamentaria (UIP), houve mais mulheres que nunca presidindo órgãos legislativos: 35 de um total de 262. Estas foram eleitas pela primeira vez em Gâmbia, Israel, Swazilândia, Turcomenistão e Estados Unidos.

“Quatro países mantiveram ou ultrapassaram uma massa crítica de 30% de representação legislativa feminina depois das eleições de 2006”, diz o informe da UIP, organização integrada pelos parlamentos de mais de 140 países. “A Suécia elegeu para o parlamento a maior quantidade de mulheres de sua historia: agora ocupam 47,3% das cadeiras, a segunda porcentagem mais elevada do mundo depois de Ruanda”, diz o informe. No país africano, essa proporção chega a 48,8% na câmara baixa. Em termos de participação política, isto significa mais mulheres candidatas e mais eleitoras, destacou Sandler.

“Um dos principais obstáculos é a violência que enfrentam as candidatas. Não só violência física, mas também como é abordada, como é informada, o que emana da discriminação de gênero. E isso não se restringe à África”, acrescentou. Nesse sentido, explicou, as lideres estão sob uma observação mais intensa do que os homens. “Elas ainda são uma novidade, porque são muito incomuns. Mas, há uma grande expectativa diante de Johnson-Sirleaf e a presidente do Chile, Michelle Bachlet. “São mais observadas do que os homens? Por acaso, isso é justo?”, perguntou. (IPS/Envolverde)

Miren Gutierrez

Miren Gutierrez is chief editor of IPS

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