POLITICA: Panelaço volta à Argentina

Buenos Aires, 27/03/2008 – As novas manifestações e panelaços de milhares de argentinos, desta vez contra o governo da presidente Cristina Fernández, demonstram que os mecanismos aprendidos durante a profunda crise de 2001para marcar limites à ação política ainda estão vivos. “A memória social e política não está na mente, está no corpo. Colocada diante da necessidade de estabelecer um limite ao governo, a sociedade age em função do aprendido”, disse à IPS o sociólogo Federico Schuster, decano da Faculdade de Ciências Sociais da Universidade de Buenos Aires.

“As assembléias nos bairros, o bloqueio do trânsito e o panelaço foram experiências muito fortes que estão latentes, não morreram. A volta a uma certa normalidade institucional não implica que esse espírito de rebeldia tenha desaparecido completamente. Diante de uma nova decepção, os mecanismos se ativam”, explicou Schuster. As diferenças de contexto são abismais entre o colapso do governo de Fernando de la Rua em 2001 e a crise que Fernández enfrenta em um cenário de recuperação econômica e debate sobre a distribuição da renda. O que persiste é a ausência de mecanismos de mediação nos conflitos entre governo e sociedade civil.

“O governo deveria incentivar a criação de espaços descentralizados de debate nos diferentes setores da sociedade, que lhe permitam manter um diálogo com todos, sobretudo em momentos de crise. Porque não basta o mecanismo de votar a cada quatro anos”, afirmou o sociólogo. O conflito começou há duas semanas, quando o governo decidiu unilateralmente aumentar o imposto sobre exportações da soja e do girassol e adotar uma alíquota móvel, que pode subir ou baixar de acordo com os preços internacionais.

A medida teve reprovação unânime de produtores pequenos, médios e grandes, que vivem um período de fartura por sua própria eficiência, de recuperação de mercados e de apoio do Estado por meio de subsídios aos combustíveis, compensações e manutenção de uma taxa de câmbio competitiva. Os produtores fizeram no último dia 11 uma paralisação agropecuária com barricadas nas ruas impedindo a passagem de caminhos carregados com cereais. Mas logo a medida se aprofundou por falta de diálogo, e agora barram veículos com alimentos em geral em localidades e cidades de uma grande parte das províncias produtoras.

A paralisação obrigou jogar fora milhões de litros de leite que não puderam ser comercializados e sacrificar, na terça-feira, um lote de 400 mil frangos pequenos que esperavam em vão o alimento para engordarem. As lojas de Buenos Aires começaram a demonstrar sintomas de desabastecimento de produtos frescos. Diante deste cenário, o governo manteve sua decisão sem alterações. A presidente advertiu na terça-feira que os bloqueios de rua, longe dos que protagonizavam os trabalhadores desempregados nos anos 90, são “piquetes da fartura” e afirmou que não seria “extorquida”.

“Como é feita a distribuição da renda se não é precisamente sobre aqueles setores que têm rendas extraordinárias?”, perguntou Fernández, recordando quando em 2003 o Estado resgatou dezenas de milhares de produtores em quebra, cujos campos estavam prestes a serem leiloados. A fala presidencial, que negou toda possibilidade de negociação, causou repulsa geral. Milhares de cidadãos, a maioria da classe média urbana de bairros bem localizados de Buenos Aires e outras cidades do país começaram a bater em suas panelas como fizeram durante a crise de 2001.

Os manifestantes mais decididos foram espontaneamente até a Praça de Maio, diante da Casa Rosada, sede do governo. Outros se reuniram em esquinas emblemáticas e outros se dirigiram até as portas da residência presidencial de Olivos, a poucos quilômetros da capital. Alguns criticavam a falta de diálogo do governo, outros defendiam como legítima a rentabilidade dos produtores agrícolas e muitos simplesmente expressavam oposição ao governo. Não se viu protestos nos subúrbios da capital, na área metropolitana, que acompanhou os acontecimentos pela televisão.

Diante de uma mobilização surpreendente, dirigentes piqueteiros tendentes ao governo de Fernández foram às ruas com seus seguidores e obrigaram os manifestantes a se espalharem. Horas depois, o governo ratificou a vigência do aumento de impostos e ameaçou dissolver os protestos usando a polícia. O ministro da Justiça, Aníbal Fernández, disse ontem que as forças de segurança liberarão a circulação de caminhões nas vias bloqueadas por manifestantes do campo. “Se não se moverem, nós os moveremos. Irá preso quem não libertar as vias”, acrescentou.

Por sua vez, o ministro da Economia, Martín Lousteau, considerou que o panelaço foi “montado por dirigentes que não concordam com o governo” e disse que ali houve manifestação da “classe média alta urbana que nada tem a ver com o campo. Os líderes da oposição os incentivaram”, acusou. Embora houvesse representação de partidos de oposição nas ruas e seus dirigentes tentassem conseguir dividendos políticos com o protesto, os observadores coincidem em afirmar que a mobilização foi espontânea. “Foi importante, não pode ser minimizada. O governo não será o mesmo depois disto”, previu Schuster.

O sociólogo é autor do capítulo argentino do livro “A nova esquerda na América Latina’, escrito por autores de diversos países da região. Nele Schuster alertava em 2004 que, pouco após assumir, o ex-presidente Nestor Kirchner (2003-2007), marido de Fernández, desmobilizou movimento sociais que surgiram na crise. Mediante estratégias que apontavam para a recuperação de certo controle do descontentamento, Kirchner, “em lugar de aproveitar o estímulo dos protestos descentralizados surgidos nesses anos, acalmou os movimentos. Não tinha uma estratégia mobilizadora e isso não é aconselhável se se vai enfrentar grandes interesses”, afirmou.

A estratégia desmobilizadora “pode ser efetiva no curto prazo, mas no médio prazo será contraproducente para o próprio governo”, alertava o sociólogo em 2004. “As experiências não morrem, são mecanismos que se ativam a qualquer momento. Se o governo tem uma autêntica vocação progressista deverá despertá-la”, afirmou. Mas, não isso que aconteceu. Ao terminar seu governo, Kirchner anunciou que se dedicaria à reconstrução do Partido Justicialista, para dotar o governo de sua mulher de uma forte sustentação política. Mas, segundo Schuster, “com a velha política não se consegue contger estas novas formas de participação”. (IPS/Envolverde)

Marcela Valente

Marcela Valente es corresponsal de IPS en Argentina desde 1990, especializada en cuestiones sociales y de género. Profesora de historia, alterna su labor periodística con la docencia en varias escuelas y talleres de periodismo. Ha dictado introducción al estudio de la sociedad y el estado en la Universidad de Buenos Aires y ha participado en cursos y talleres de periodismo en Alemania, Costa Rica, Dinamarca y Uruguay. Realizó coberturas en Brasil, Ecuador, Suecia y Uruguay. Comenzó su carrera en 1985 como colaboradora del diario argentino Clarín. También ha trabajado para El Correo de Bilbao (España), y el semanario uruguayo Brecha, entre otros medios.

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