AMÉRICA LATINA: Camponeses reclamam urgente reforma agrária

Brasília, 18/04/2008 – Um chamado urgente no sentido de acelerar o processo de reforma agrária na América Latina foi feito ontem na XXX Conferência Regional da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO) por movimentos camponeses, que acrescentaram duras críticas ao agronegócio estabelecido em grandes propriedades. “Estamos realizando ocupação de terras, marchas e protestos para exigir o assentamento de 150 mil famílias acampadas e mais investimentos em desenvolvimento rural”, disse em um comunicado o Movimento dos Trabalhadores rurais Sem-Terra. Esta semana o MST se mobiliza para recordar o massacre de 19 camponeses cometido por policiais há 12 anos em Eldorado dos Carajás, no Pará.

Os delegados de 33 países latino-americanos e caribenhos presentes à conferência da FAO fizeram uma pausa em suas deliberações para receber duas dezenas de representantes do MST e de outros movimentos sociais e prestar homenagem aos mortos de Eldorado, que lutavam pela reforma agrária. As brasileira Maria das Graças Amorim, porta-voz do Fórum da Reforma Agrária, que reúne 47 organizações, pediu aos delegados governamentais que considerem a necessidade de limitar a dimensão das propriedades agrícolas na América Latina. “Não está certo uns terem tanto e outros tão pouco”, afirmou.

Mais de dois mil militantes do MST acampados a poucos metros do Palácio Itamaraty, sede da chancelaria que abriga a conferência, participaram simultaneamente de uma manifestação que terminou diante do Congresso. O ministro de Desenvolvimento Agrário, Guilherme Cassel, recebeu as reivindicações após considerar que a FAO aprendeu muito com este intercâmbio. “Não posso pensar que um órgão como a FAO, que integra as Nações Unidas, funcione à margem da sociedade civil, sem aproveitar seu conhecimento e sua experiência. Isso é democracia viva”, disse Cassel.

O representante regional da FAO, o brasileiro José Francisco Graziano, reconheceu que a desigualdade que caracteriza a América Latina se constata também no campo e disse que a reforma agrária deveria ser um imperativo para a região. Mas, esclareceu que a FAO, como organismo técnico, pode indicar caminhos e que caberá a cada governo adotar suas decisões. A XXX Conferência Regional, que termina hoje, incorporou em seus debates as reclamações de numerosas entidades sociais que fizeram um encontro paralelo em Brasília.

Camponeses, agricultores familiares, representantes de povos indígenas e organizações não-governamentais, reunidos durante quatro dias na capital do País, divulgaram uma declaração defendendo a soberania alimentar, exigindo uma moratória na produção de biocombustiveis e condenando a utilização de organismos geneticamente modificados. “Afirmamos que a fome e a pobreza não são produto da casualidade, mas de um modelo que viola o direito à vida digna das pessoas e dos povos”, diz o documento que inclui, entre outros assuntos o apoio aos produtores de folha de coca da região andina sul-americana. “A liberalização econômica, como único caminho para o desenvolvimento, é diretamente proporcional ao crescimento da pobreza e da fome na região”, acrescenta o documento.

O MST realizou manifestações em 16 Estados para comemorar, ontem, o Dia Internacional de Luta Camponesa. Bloqueios de estradas, manifestações diante de sedes governamentais e de grandes empresas, ocupação de bancos estatais e edifícios de empresas consideradas inimigas da reforma agrária, marchas em estradas e cidades foram os atos que mobilizaram milhares de camponeses. O movimento reclama a urgente destinação de terras a 150 mil famílias que vivem em acampamentos precários, em propriedades ocupadas ou em margens de estradas, à espera de terras onde plantar e viver. Desde a década de 80, quase um milhão de famílias camponesas sem terra receberam áreas para se assentarem, como parte do processo de reforma agrária, segundo dados oficiais. (IPS/Envolverde)

Walter Sotomayor

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