JOANESBURGO, 18/04/2008 – Os resultados de uma meticulosa análise da agricultura mundial foram apresentados formalmente na terça-feira com a divulgação do relatório final sobre a Avaliação Internacional das Ciências Agrícolas e da Tecnologia para o Desenvolvimento (IAASTD, na sigla inglesa). A avaliação examinou a forma como se pode reinventar a agricultura para alimentar a população mundial em expansão de forma sustentável numa época de múltiplos desafios — para não falar dos desafios colocados pelas alterações climáticas e por uma crescente crise alimentar que tem levado a eclosões de violência em diversos países em desenvolvimento.
A competência técnica de cerca de 400 cientistas e de outros especialistas foi canalizada para o IAASTD; os Governos de países ricos e em desenvolvimento também contribuíram para esta avaliação, assim como a sociedade civil e o sector privado.
Tanto os conhecimentos científicos como as competências tradicionais foram avaliadas pelo IAASTD, assinalando a primeira tentativa de reunir todos os agentes do sector agrícola para responder ao problema da segurança alimentar (Ver: 'Perguntas e Respostas: “A Produtividade Agrícola Aumenta Enquanto que se Reduz a Pegada Ecológica”'). Os contribuidores produziram cinco avaliações regionais, assim como um relatório síntese com mais de 110 páginas.
Entre os 22 conclusões do estudo que traçam um novo rumo para a agricultura: a conclusão que a prática dominante da agricultura industrial de larga escala não é sustentável, principalmente devido à sua dependência do petróleo de baixo custo, ao efeito negativo sobre os ecossistemas — e à crescente escassez de água.
Em vez disso, deve tornar a considerar-se as monoculturas em favor de ecossistemas agrícolas que aliem a produção alimentar à garantia que o abastecimento de água continua limpo, preservando a biodiversidade e melhorando o sustento dos pobres.
“Em vista dos desafios futuros, tornou-se óbvio para todos que não se podia continuar tudo como dantes,” afirmou à IPS o Co-presidente do IAASTD, Hans Herren. Dirigia-se a uma plenária intergovernamental que teve lugar entre 7 a 12 de Abril em Joanesburgo, no centro comercial da África do Sul, onde as conclusões da avaliação foram analisadas antes da apresentação de terça-feira.
Embora os suprimentos alimentares mundiais sejam adequados, 850 milhões de pessoas continuam famintas e subnutridas porque não têm acesso às provisões de que necessitam ou não as podem pagar, acrescentou Herren — que também é presidente do Instituto do Milénio, sediado em Arlington, instituição que leva a cabo uma variedade de actividades em todo o mundo no âmbito do desenvolvimento. A atenção centrada exclusivamente no aumento do rendimento das culturas não resolveria os problemas existentes, afirmou: “Precisamos de alimentos de melhor qualidade nos lugares certos.”
A noção que o rendimento já deixou de ser o único instrumento de medição do sucesso agrícola também foi levantada por Jan van Aken, da Greenpeace International, que declarou ser preciso considerar até que ponto a agricultura promove a nutrição. Uma parcela de terra de meio hectare na Tailândia pode produzir 70 espécies de legumes, frutas e ervas, oferecendo uma nutrição muito melhor e alimentando um maior número de pessoas do que uma parcela de terra de meio hectare de arroz de elevado rendimento, acrescentou.
O IAASTD apontou ainda que peritos em ciências agrícolas e tecnologia devem trabalhar não só com os agricultores locais, mas também com economistas, cientistas sociais e de saúde, governos e sociedade civil.
“Não podemos resolver estes problemas apenas no departamento da agricultura,” observou a outra co-presidente do IAASTD, Judi Wakhungu, que também é directora executiva do Centro Africano para Estudos Tecnológicos. O centro está sediado na capital queniana, Nairóbi.
“Será necessária liderança para efectuar esta mudança,” acrescentou, reconhecendo que a maioria dos governos, centros de investigação e outros agentes em sectores ligados à agricultura não estão habituados a darem as mãos, e muitas vezes concorrem ao mesmo financiamento.
A plenária foi marcada por algumas divergências sobre as sempre controversas questões da biotecnologia e comércio: de facto, durante um longo e contestado debate sobre a biotecnologia, a reunião quase terminou. Os representantes dos governos americano e australiano colocaram objecções à redacção do relatório síntese que apontava preocupações sobre se a utilização de alimentos transgénicos era saudável e segura.
Esta questão, juntamente com os desafios referentes ao comércio, tinha sido profundamente debatida no processo de avaliação do IAASTD, que durou três anos, tendo a redacção final reflectido a evidência científica. O relatório afirma que a biotecnologia tem um papel a desempenhar no futuro mas que continua a ser uma questão contenciosa, uma vez que os dados acerca dos benefícios das culturas transgénicas são mistos; afirma também que o patenteamento genético causa problemas a agricultores e a investigadores.
A Syngenta e outras companhias de biotecnologia e produção de pesticidas abandonaram o processo de avaliação no fim do ano passado.
O impasse na plenária foi ultrapassado quando os dois países concordaram com a inclusão de uma nota de rodapé no relatório indicando as suas reservas sobre a redacção do mesmo. Também concordaram aceitar o relatório na íntegra, juntamente com o Canadá e a Suazilândia: “O nosso governo irá defender o relatório, apesar de termos reservas nalguns pontos,” declarou o delegado autstraliano na reunião.
Os outros 60 países representados na plenária tomaram uma posição mais forte, passando da simples aceitação para a adopção do relatório.
“Estou estupefacta. Não pensei que fosse aprovado,” declarou Janice Jiggins, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade de Wageningen nos Países Baixos, e também uma das especialistas que trabalharam no sentido de analisar a soma do know-how agrícola e os efeitos da agricultura em todo o mundo.
Também houve um apoio generalizado da sociedade civil.
“Temos uma posição muito forte contra os organismos transgénicos (geneticamente modificados) mas concordámos aceitar as conclusões do relatório síntese porque era neutro,” observou van Aken. “Não estamos satisfeitos com tudo, mas concordamos com o consenso científico existente no relatório síntese.”
Agora, o IAASTD deixará de pôr à prova a resistência dos investigadores para pôr à prova a vontade política dos decisores.
“Estes documentos são como uma Bíblia com a qual se pode negociar com diversas instituições no meu país e transformar a agricultura,” o delegado da Costa Rica disse à reunião de Joanesburgo, através de um tradutor.
Outros mostraram-se mais cautelosos sobre as perspectivas da avaliação, mas ainda assim esperançados.
“Agora avançamos todos na mesma direcção, mesmo se alguns estão a caminhar e outros estão a correr,” disse Wakhungu.

