JOANESBURGO, 18/04/2008 – Nos últimos anos, Robert Watson tem tido aquilo a que se pode chamar uma das tarefas mais difíceis do mundo: dirigir uma iniciativa que visa ajudar a agricultura lidar com os grandes desafios que enfrenta neste momento, e também os obstáculos ainda maiores que se avizinham A Avaliação Internacional das Ciências Agrícolas e da Tecnologia para o Desenvolvimento (IAASTD, na sigla inglesa), que durou três anos, procurou avaliar os conhecimentos agrícolas generalizados, com o auxílio de governos, sociedade civil, sector privado, e centenas de peritos.
Watson iniciou o projecto quando era cientista-chefe no Banco Mundial; actualmente, é o director do IAASTD – e também cientista-chefe no Departamento do Meio Ambiente e Agricultura britânico.
As conclusões da avaliação foram apresentadas formalmente na terça-feira, depois de terem sido analisadas numa plenária intergovernamental realizada em Joanesburgo, África do Sul, entre 7 e 12 de Abril. O correspondente da IPS para o meio ambiente, Stephen Leahy, falou com Watson nesta reunião sobre o histórico IAASTD.
IPS: Qual é a importância das conclusões do IAASTD sobre a segurança alimentar mundial?
Robert Watson (RW): A importância dessas conclusões é o facto de, pela primeira vez, governos dos países desenvolvidos e em desenvolvimento, sociedade civil, autores científicos das ciências naturais e sociais, terem trabalhado em conjunto para responder ao problema crucial de como obter alimentos acessíveis e nutritivos de forma que seja sustentável do ponto de vista ambiental e social.
IPS: O IAASTD afirma claramente que não se pode continuar como dantes na agricultura. Porquê?
RW: O IAASTD baseia-se nas duas anteriores avaliações. A Avaliação dos Ecossistemas do Milénio constatou que 15 dos 24 ecossistemas naturais do planeta apresentam problemas ou estão em declínio, em larga medida devido à degradação da terra e da água — principalmente devido à agricultura. O Painel Intergovernamental para Alterações Climáticas concluíu que a agricultura era um importante contribuinte para as alterações climáticas provocadas pelo homem, e que essas alterações terão um importante impacto na produtividade agrícola.
Se nos concentrarmos apenas no aumento da produção alimentar, isso acontecerá custa de uma maior degradação ambiental.
IPS: O que é que dizem as conclusões do IAASTD sobre os actuais preços alimentares, que se encontram a níveis nunca vistos?
RW: Existem muitos factores envolvidos nos preços alimentares — a variabilidade climática que resulta na redução das colheitas nalgumas zonas, os custos energéticos mais elevados, a produção de biocombustíveis e a especulação no mercado dos futuros. Agora é altura para perguntar: como é que podemos aumentar a produção alimentar, manter os produtos alimentares a preços acessíveis e garantir que os agricultores tenham um meio de vida decente? O IAASTD é a melhor tentativa para respondermos a essa pergunta importante.
IPS: O senhor liderou o Painel Intergovernmental para Alterações Climáticas e a Avaliação dos Ecossistemas do Milénio. Como é que o IAASTD difere destas avaliações?
RW: Foi absolutamente fundamental juntar o entendimento das ciências naturais a um entendimento das instituições, do comportamento humano e das políticas. A maior parte das avaliações anteriores não compreendeu a importância das ciências sociais. Embora pudessem ter apreendido a perspectiva económica, não apreenderam a outra perspeciva não económica, o conhecimento das ciências sociais.
Não chega olhar para a ciência e tecnologia para obter respostas sobre como produzir mais alimentos sem olhar ao seu impacto nos ecossistemas naturais e nos sistemas sociais.
IPS: O IAASTD apela ao fim das monoculturas em larga escala?
RW: Se as monoculturas puderem ser modificadas para que sejam sustentáveis do ponto de vista ambiental e social, então podem continuam. Não é possível minar a base de recursos naturais da agricultura — solo, água, biodiversidade e outros — porque eventualmente entrarão em colapso.
IPS: Porque é que houve tão pouco debate sobre as alterações climáticas durante a plenária intergovernmental?
RW: As alterações climáticas são reconhecidas agora como um grave problema para o meio ambiente, desenvolvimento, saúde humana e segurança. Deixaram de ser uma questão controversa. Para nós, o desafio consiste em saber como manter e aumentar a produtividade agrícola ao mesmo tempo que se reduz a pegada ecológica, as emissões de gases com efeito de estufa e de combustíveis fósseis usados no sector agrícola. Ao mesmo tempo, temos de adaptar a agricultura ao clima em mudança. As conclusões do IAASTD apontam o caminho no que diz respeito ao tipo de conhecimento, ciência e tecnologia que precisamos para alterar as práticas agrícolas de modo a podermos lidar com esta realidade.
IPS: O senhor chamou ao IAASTD uma “experiência social única”. O que é que quis dizer com isso?
RW: Todos os sectores chave da sociedade estiveram envolvidos: governos, sociedade civil, indústria, agricultores, profissionais académicos, e organizações internacionais importantes como o Banco Mundial e a FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura). Se todos forem afectados pelos problemas da alimentação, sustentabilidade ambiental e social, então todos devem sentar-se à mesa para contribuírem com os seus conhecimentos e experiência e ajudarem a resolver o nosso problema comum.
Dada a diversidade de opiniões, foi um processo extremamente difícil e complexo. No entanto, acredito firmemente que este processo representa o caminho para o futuro e pode ser aplicado a qualquer contexto, seja ele local, regional, nacional or internacional.
Não consigo pensar numa única questão importante que não envolva múltiplos sectores.

