AMÉRICA LATINA-ECONOMIA: Do otimismo à preocupação

Santiago, 23/04/2008 – A Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe exortou ontem os governos latino-americanos a aplicarem medidas urgentes para amortizar a carestia dos alimentos, que ameaça afundar na indigência quase 16 milhões de pessoas a mais na região. Também antecipou possíveis impactos da deterioração da economia mundial. A Cepal fixou em 4,7% a projeção de crescimento do produto interno bruto regional para este ano, um ponto percentual abaixo do registrado em 2007.

O secretário-executivo da Cepal, o argentino José Luis Machinea, disse em entrevista coletiva que a recessão na qual os Estados Unidos “estão entrando terá impacto na região, embora menor do que em crises anteriores já que esta se encontra melhor preparada. As conseqüências da atual conjuntura serão diferentes em cada país. Os mais prejudicados serão os Estados mais pobres, devido ao encarecimento dos alimentos, bem como os que mais exportam manufaturas para os Estados Unidos e os grandes receptores de remessas de dinheiro de seus emigrantes, como é o caso do México e das nações centro-americanas.

O México é o maior receptor de remessas, ao somar no ano passado US$ 23,979 bilhões, equivalente a 2,7% de seu PIB. No mesmo período chegaram ao Haiti US$ 8 bilhões, que representam 30,4% de seu PIB. Segundo Machinea, é difícil projetar se haverá uma queda dos preços dos produtos primários, base da cesta exportadora da região. A forte desaceleração da economia mundial, que provavelmente afetará de forma “suave” a China, deveria levar à baixa os valores destes bens devido à queda da demanda.

Mas, paralelamente, existe um movimento especulativo em torno desses produtos básicos que dificulta as previsões, explicou o secretário-executivo da Cepal. Esta agência da Organização das Nações Unidas também projeta que o encarecimento dos alimentos pode aumentar a pobreza. “Desde o início de 2006 e especialmente desde 2007 os índices de preços ao consumidor de alimentos tiveram uma aceleração na maioria das economias da região, registrando um ritmo anual que oscila entre 6% e 20%, com média próxima dos 15%”, afirma um comunicado divulgado na sexta-feira.

Como essa situação afeta principalmente as famílias mais pobres a Cepal exorta os governos a tomarem medidas urgentes, que dependerão da realidade do país. Alguma das recomendações são reduzir tarifas alfandegárias e/ou impostos ao consumo e entregar subsídios voltados a setores mais vulneráveis ou aumentar a ajuda já existente. “Nos países que têm 15%, 20% ou 30% de indigência (em relação ao total de sua população) é necessário atuar já”, disse Machinea à IPS. “Mas, há vários países da região que não têm os recursos fiscais para agir e nestes casos a ajuda internacional é crucial”, acrescentou.

A Cepal considera necessário que os países industrializados e os de renda média, exportadores de alimentos, entreguem uma ajuda excepcional aos organismos que podem levar assistência de emergência a populações em situação de risco, com o Programa Mundial de Alimentos. O PMA estima que um aumento de 15% no preço dos alimentos elevaria a incidência da indigência de 12,7% para 15,9%. Isto que dizer que, no caso de não ser aplicado nenhum ajuste imediatamente, 15,7 milhões de latino-americanos poderiam cair na indigência e uma quantidade semelhante passaria a engrossar a lista de pobres.

No pior cenário, a América Latina e o Caribe somariam 204,5 milhões de pobres e 84,2 milhões de indigentes. Um cálculo menos dramático é feito considerando uma melhoria na renda dos lares de 5%, semelhante à média de inflação regional. Neste caso, cerca de 10 milhões de pessoas cairiam na extrema pobreza, sem contar com o agravamento da situação social de quem já vive na pobreza ou na indigência.

Consultado sobre os conflitos sociais e políticos que podem surgir na região em razão desta deterioração das condições, Machinea disse que o encarecimento dos alimentos é o principal fator de risco hoje, e não o menor crescimento do PIB, já que muitas economias latino-americanas continuarão crescendo em níveis de 5% a 7% em 2008.

A Cepal projeta que a economia panamenha será a de melhor rendimento este ano, com crescimento de 8%, seguida das do Peru e da Argentina com 7%, Uruguai com 6,5%, Colômbia e Venezuela com 6%e Bolívia, Paraguai e República Dominicana com 5%. Mais abaixo estão Brasil, cujo PIB aumentará 4,8%; Chile, Costa Rica, Guatemala e Honduras 4,5%; El Salvador 4%; Haiti e Nicarágua 4,5%; Equador 3% e México 2,7%.

A Cepal também se referiu ao “dilema da política monetária da região”. Machinea acredita que se os bancos centrais optarem por elevar as taxas de juros para deter a alta da inflação esta medida deverá estar acompanhada de intervenção no câmbio e controle da entrada de capitais de curto prazo para deter a valorização de suas moedas. Os únicos países que estão seguindo, de alguma maneira, estas diretrizes são Brasil, Argentina e Colômbia, acrescentou. O Banco Central do Chile, um dos países onde mais o dólar foi desvalorizado nos últimos meses, decidiu comprar até dezembro US$ 8 bilhões. Mas, não ainda não considera a possibilidade de restringir a entrada de capitais, como sugere a Cepal. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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