Rio de Janeiro, 11/04/2008 – O Brasil é um dos países onde as pessoas, especialmente as mulheres, mais cuidam e expõem seu corpo como fator de ascensão social e econômica, de identidade e competitividade nos variados mercados, seja profissional ou afetivo A conseqüência é uma fantástica expansão da indústria da beleza, um consumo desenfreado de cosméticos e medicamentos para emagrecer, a febre das academias de ginástica e a generalização das cirurgias plásticas, inclusive em adolescentes.
Essa cultura de supervalorização do corpo, que afirmam ter origem na colonização portuguesa do Brasil, é um tema central nas pesquisas da antropóloga Mirian Goldenberg, professora da Universidade do Rio de Janeiro que acaba de lançar o livro “O corpo como capital”, no qual aprofunda sua análise. Mas, não é qualquer corpo que representa um capital acumulado. É preciso que seja “jovem, delgado e bem modelado”, o que exige custosos “investimentos”, como muitas horas de exercícios físicos sistemáticos, dietas rigorosas, cosméticos para pele, o cabelo e cada parte do corpo, segundo a autora.
As mulheres brasileiras das camadas pobres e médias, inclusive as ricas, investem “predominantemente em seus corpos”, explicou Mirian à IPS. “É uma característica brasileira” que contrasta com a Alemanha, onde as mulheres cultivam outros valores, e se pode encontrar sem a mesma intensidade em outros países latino-americanos e europeus litorâneos do Mar Mediterrâneo, comparou a especialista. Essa preocupação mobiliza um exército de profissionais, que vão de nutricionistas a orientadores pessoais de educação física. Caso se revelem impotentes, entram os médicos ou farmacêuticos, com seus inibidores de apetite, anfetaminas, hormônios, anabolizantes e também as cirurgias.
A obsessão por um corpo magro, estimulada pelo padrão atual de beleza, provocou um grande aumento de doenças relacionadas com os transtornos alimentares, como bulimia e anorexia. O Brasil representa o maior consumo por pessoa de medicamentos para reduzir o peso, segundo a Junta Internacional de Fiscalização de Estupefacientes (Jife), da Organização das Nações Unidas. Seu mercado de ginástica, cosméticos e cirurgias plásticas compete com o dos Estados Unidos. A desproporção é gigantesca, considerando a diferença de renda, 14 vezes mais elevados na potência do Norte.
Não por acaso. O Brasil é um grande exportador de profissionais que vivem do corpo. Kaká, Ronaldinho e Robinho são marcas nacionais no rico futebol europeu, bem como Giselle Bündchen no luxuoso mundo da moda. A grande exposição do corpo pelas brasileiras não significa “liberação”, mas uma forma de prisão, de liberdade cerceada”, porque se trata da sujeição a um padrão de “magreza e perfeição”, a normas que têm de ser cumpridas para que o “sacrifício” seja recompensado, disse a antropóloga.
Essa realidade acentua as desigualdades que também fazem do Brasil um exemplo negativo. Afeta mais as mulheres, porque “os homens têm de incrementar outros capitais, não podem se concentrar em apenas um para obter prestigio e poder”, e é desigual a capacidade de investimentos das diferentes classes. “O corpo é onde se inscreve a desigualdade” no Brasil, disse Mirian Goldenberg. As mulheres estão estudando mais que os homens no Brasil, indicando que elas estão “investindo” em seu capital intelectual, mas a maior escolaridade não as isenta de modelar seu corpo. “O mercado, a sociedade, exigem inclusive da mulher que não depende de seu corpo para viver, nenhuma pode apresentar-se de pele envelhecida”, afirmou Goldenberg.
Todas as mulheres de prestigio no Brasil têm seu corpo bem cuidado, segundo a antropóloga, agora voltada ao estudo de como essa cultura, que faz parte da identidade nacional, aceitará o envelhecimento da população já em curso. As mulheres mais admiradas no país, desde os anos 80, além de belas e magras, “mas não frágeis”, são loiras. Atrizes, modelos, apresentadoras de televisão e cantoras alimentam os sonhos de ascensão social das meninas e adolescentes. O exemplo atual mais evidente é a modelo Giselle Bündchen. O futuro tende a “acentuar” essa obsessão pelo corpo, mas com uma atitude “mais crítica”, que resultará em um esperado “desenvolvimento educacional e cultural” do povo brasileiro, que deve levá-lo a cultivar também “outros capitais”, concluiu a autora.
A supervalorização do corpo magro e bem modelado não é um fenômeno apenas brasileiro, mas “está presente nas grandes metrópoles do mundo”, disse à IPS Thais Corral, baseada em suas freqüentes viagens internacionais como fundadora e diretora de duas organizações dedicadas às lutas femininas e ao desenvolvimento sustentável. O “hedonismo” das novas gerações e o mundo cada dia mais competitivo impõem maior atenção à “imagem e aparência” em todas as partes, mas, com manifestações distintas de acordo como clima e a cultura, que destacam o corpo em lugares quentes, como o Rio de Janeiro, ou as roupas, em países frios, disse Corral, também presidente do Conselho de Associação Brasileira para o Desenvolvimento de Líderes. (IPS/Envolverde )

