EUA: Guerra paga dividendos a legisladores

Washington, 09/04/2008 – A saúde das finanças pessoais de legisladores norte-americanos está ligada às operações militares no Afeganistão e no Iraque, segundo análise de documentos sobre seus patrimônios realizada pelo Centro para uma Política Sensível (CPR).

 - JCICS.org

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Membros do Congresso investiram quase US$ 196 milhões de seu pecúlio em companhias que receberam contratos do Departamento de Defesa para fornecimento de bens e serviços às forças armadas norte-americanas, de acordo com esta organização da sociedade civil. A entidade advertiu que diversos legisladores, que têm entre suas funções controlar os contratados do Departamento de Defesa, possuem ações dessas empresas, bem como seus colegas que em público criticam a guerra do Iraque.

O senador John Kerry, ex-candidato à presidência pelo Partido Democrata e atual membro da Comissão de Relações Exteriores do Senado, lidera a lista de investidores. Em 31 de dezembro de 2006, tinha em sua carteira de ações entre US$ 28,0 e US$ 38,2 milhões em ações de empresas que receberam contratos de defesa de, pelo menos, US$ 5 milhões. Os legisladores devem apresentar anualmente informes sobre suas finanças pessoais, mas isso é exigido apenas em termos gerais, sem entrar em grandes detalhes.

Outros “grandes investidores” em companhias com contratos de defesa são os representantes do governante Partido Republicano Rodney Frelinghuysen (com ações entre US$ 12,1 e 49,1 milhões, Robin Hayes (entre US$ 9,2 e US$ 37,1 milhões) e James Sensenbrenner (entre US$ 5,1 e US$ 7,6 milhões). O CRP acrescentou que o senador democrata Jay Rockefeller, presidente da Comissão de Inteligência, investiu aproximadamente US$ 2 milhões em ações de empresas contratadas pelo Departamento de Defesa.

Na lista também figuram o senador independente Joseph Lieberman, ex-candidato à vice-presidência do Partido Democrata e presidente da Comissão de Segurança Interna, e o representante republicano Howard Berman, presidente da Comissão de Relações Exteriores da câmara baixa. Dos 535 legisladores que compõem as duas Casas do Congresso, 151 – mais de um quarto – investiram no total entre US$ 78,7 e 195,5 milhões em companhias que receberam contratos de defesa no valor de pelo menos US$ 5 milhões.

Essas empresas obtiveram mais de US$ 275,6 bilhões do governo em 2006, isto é, US$ 755 milhões por dia, segundo a não-governamental OMB Watxh, que supervisiona a destinação de fundos públicos e os gastos orçamentários. Os investimentos representaram um retorno para os legisladores entre US$ 15,8 e US$ 62 milhões a título de dividendos, ganhos de capital e juros entre 2004 e final de 2006, segundo o CRP. Nem todas as empresas nas quais os congressistas colocaram seu dinheiro fabricam armas ou equipamentos militar. Algumas produzem refrigerantes ou produtos farmacêuticos e os contratos com o Departamento de Estado representam apenas uma mínima porcentagem de seus lucros.

Muitas dessas companhias são líderes em seu ramo de atividade e um investimento preferido por grande parte do público. “Grandes corporações como Pepsico, IBM, Microsoft e Johnson e Johnson receberam contratos do Departamento de Defesa e são todas investimentos muito populares, tanto entre congressistas quanto o público em geral”, admitiu o CRP. “Estas empresas são tão comuns, tanto como investimento pessoal como contratadas da defesa, que parece difícil montar uma carteira diversificada de ações líderes sem considerar pelo menos algumas delas”, acrescentou.

Colaboradores dos legisladores dizem que eles são tão inocentes quanto as ações. Alguns não as compraram, mas herdara, acrescentam, enquanto outros as possuem por terem colocado dinheiro em fundos comuns de investimento. Isto é, as decisões são tomadas por seus administradores e não pelos que contribuíram para a formação de seu capital. Apesar de tudo, diz o CRP, possuir ações de contratadas do Departamente de Defesa pode ser “problemático para congressistas que integram as comissões que devem supervisionar a destinação de fundos e as políticas do setor”.

Enquanto membros das comissões de Relações Exteriores e Defesa do Senado possuem entre US$ 3 e US$ 5,1 milhões de empresas especializadas na fabricação de armas e outros bens e serviços de uso exclusivamente militar, acrescenta o informe. Por outro lado, tanto o presidente norte-americano, George W. Bush, quanto seu vice, Dick Cheney, foram questionados por suas estreitas ligações com empresas que se beneficiaram com contratos derivados da invasão do Iraque e da guerra no Afeganistão. (IPS/Envolverde)

Abid Aslam

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