IRAQUE-EUA: Erros que se repetem

Washington, 03/04/2008 – Os aspirantes à presidência dos Estados Unidos procuram minimizar os temores da população em relação à guerra do Iraque, que, segundo quase todas as avaliações, esteve repleta de erros ao longo de cinco anos. O debate a respeito parece ter desaparecido. As pesquisas mostram a população cada vez mais preocupada com a queda da economia nacional em uma quase certa recessão. Mas, para qualquer cidadão atento às noticias do fim de semana a ofensiva militar atribuída ao governo do primeiro-ministro iraquiano, Nouri Al-Maliki, lembraram que a situação nesse país não “se modificou”, como o presidente George W. Bush assegurou no dia 20 de março, dada do quinto aniversário da invasão.

Os combates duraram mais de quatro dias desde que Maliki ordenou a incursão das forças de segurança a redutos de milicianos xiitas leais ao clérigo Moqtada Al-Sadr na cidade de Basra. Na terça-feira da semana passada. No domingo, Sadr determinou às suas milícias cessar a luta, mas até esse dia já haviam morrido 488 pessoas e mais de 900 ficaram feridas, segundo o Ministério do Interior do Iraque. O presidente Bush considerou a ofensiva um “impulso positivo” e a demonstração de que o governo iraquiano podia se defender com seus próprios meios. Estrategistas conservadores continuaram usando a queda da violência como prova do sucesso do aumento das tropas norte-americanas nesse país.

Assim, pelo menos no discurso, o “êxito” da ofensiva em Basra seria um reflexo de que, no longo prazo, o aumento do envio de solados norte-americanos, decidido no ano passado, foi uma estratégia adequada. O aumento das tropas “abriu a porta para uma grande vitória estratégica na guerra do terror” em todo o mundo, segundo Bush. “Somos testemunhas da primeira rebelião árabe em grande escala contra Osama bin Laden, sua lúgubre ideologia e sua rede terrorista” A Qaeda, acrescentou. “A importância deste processo não pode ser subestimada”, disse o presidente. Embora seja certo que o aumento de tropas ajudou a conter a violência, em sua origem foi implementada para abrir um espaço de reconciliação entre facções rivais no Iraque, o que ainda não aconteceu.

“Os progressos em matéria de segurança são reais, mas perecem”, disse Michelle Flourney, do Centro por uma Nova Segurança Norte-americana (CNAS), instituição acadêmica especializada criada em Washington no ano passado. “As coisas parecem ter se estabilizado, e parece muito difícil reduzir mais a violência”, afirmou Flourney em um debate realizado no Centro para o Progressos Norte-americano, em Washington. “A única maneira de fazê-lo é através de acordos políticos. “Os combates da semana passada revelaram uma realidade ainda mais problemática: a retórica da Casa Branca não pode ser confirmada no terreno e, no longo prazo, terá um impacto prejudicial sobre os objetivos estratégicos e de segurança nacional norte-americanos.

Apesar da força militar utilizada por Maliki – e do apoio aéreo dado pela coalizão internacional encabeçada pelos Estados Unidos – o conflito teria maiores possibilidades de ser minimizado por meio da negociação. A rede norte-americana de jornais McClatchy Nuewpapers informou no domingo que legisladores iraquianos viajaram à cidade sagrada de Qom, no Irã, para pedir apoio ao comandante das Brigadas Quds iranianas, a fim de persuadir Sadr a deter as operações militares contra o governo de Maliki. A influência iraniana, que não pode ser subestimada, contraria os objetivos políticos e militares da Casa Branca.

Mas o governo iraniano parecer ter usado os últimos acontecimentos para fortalecer sua própria posição, ao mesmo tempo em que enfraquecia a de Maliki e dos Estados Unidos. “As discussões em Qom poderão acabar ou não com os combates, mas quase com certeza já enfraqueceram Maliki, que disse reiteradamente que não haverá negociações e que tratará como renegados os que não deixarem as armas em troca de dinheiro”, segundo McClatchy. “Esta perda de credibilidade piora pelo fato de os membros de seu próprio partido terem ajudado a organizar a visita a Qom”, disse o jornal.

Em sua coluna publicada no domingo pelo jornal The New York Times, o especialista Anthony H. Cordesman disse: “Grande parte da cobertura dos combates em Basra e Bagdá, iniciados pelo governo iraquiano, partem da suposição de que o senhor Sadr e seus seguidores são os meninos maus que impedem a pacificação, e que as forças do govenro são um bando legítimo que procurar estabelecer a ordem. “Trata-se de uma simplificação exagerada, e os Estados Unidos deveriam ter o cuidado de apóiá-la”, afirmou Cordesman, do Centro para Estudos Estratégicos e Internacionais.

Depois de ter ultrapassado a marca de quatro mil mortes norte-americanas no Iraque, os políticos desse país embarcaram em um debate que parece deixar de lado os profundos desafios de Washington, não apenas em Bagdá ma s em todo Oriente Médio para os próximos anos. “O problema não é o Iraque, mas lidar com as conseqüências de nosso fracasso no Iraque”, disse o veterano Andrew J. Bacevich, hoje professor de relações internacionais na Universidade de Boston. Para Bacevich, a Doutrina Bush de segurança nacional continuará de pé enquanto seu mentor ocupar a Casa Branca. E a última que a sede do governo dos Estados Unidos mudou sua estratégia bélica para adaptá-la às condições no campo de batalha foi na guerra civil da década de 1860. (IPS/Envolverde)

Khody Akhavi

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