ALIMENTAÇÃO-ASIA: Pobreza cresce com os preços

Bangcoc, 22/04/2008 – Os preços dos alimentos continuam disparando em toda a Ásia, obrigando muitos governos a intervir para estabilizá-los por medo de uma aguda escassez e da instabilidade social, pois a crise arrasta cada vez mais pessoas para a pobreza. “Os crescentes preços dos alimentos em toda a Ásia ameaçam desfazer o milagre econômico das últimas duas décadas”, disse à IPS o porta-voz regional do Programa Mundial de Alimentos (PMA), Paul Risely. “É uma crise silenciosa, um tsunami silencioso sobre toda a região com resultados devastadores”, acrescentou.

O arroz, alimento básico do continente, é a maior preocupação. Seu preço aumenta todas as semanas desde o começo deste ano. Muitos países exportadores implementaram proibições e restrições às importações do produto para conter os preços locais. O pânico foi desatado e cada vez mais pessoas saem para comprar e guardar arroz, o que cria temores de que este e outros produtos logo estejam esgotados em muitas nações asiáticas, apesar dos repetidos chamados à calma por parte do governo. Em Bangladesh e algumas partes do sudeste asiático, em particular, houve uma compra desesperada de arroz por mede de uma iminente escassez.

As agências de assistência que trabalham com os pobres, incluindo o PMA, estão cada vez mais preocupadas, pois se a crise continuar serão obrigadas a reduzir logo seus programas. “A desnutrição seguramente aumentará significativamente em muitas partes pobres da Ásia”, disse à IPS o ativista John Samuel, especialistas da organização ActionAid. O número de pessoas em risco de fome e inanição duplicou, segundo o PMA. No Nepal, concretamente, chegou a oito milhões, um terço da população, nos últimos seis meses. Em toda a Ásia há crescentes sinais de descontentamento e temores pelo futuro.

Em Bangaldesh, nas últimas duas últimas semanas houve longas filas todos os dias nos armazéns do governo para comprar os pacotes de cinco quilos de arroz subsidiado e outros alimentos básicos. Das Filipinas ao Paquistão e da China à Indonésia os temores são os mesmos: escassez e fome. “Conforme os preços aumentarem no mercado mundial, muitos milhões de pessoas em toda a Ásia sofrerão escassez e possível inanição”, alertou Risely. Na Tailândia vende-se pacotes de arroz baratos subsidiados pelo governo, mas os principais supermercados racionaram suas vendas em três sacos de três quilos por pessoa para evitar a compra indiscriminada devido ao pânico.

O ministro de Comércio da Tailândia, Mingkuan Sangsuwan, anunciou uma redução patrocinada pelo governo de aproximadamente 10% de todos os preços no varejo a partir da próxima semana, após ter se reunido com executivos das principais redes de supermercados, moinhos de arroz e associações de empacotadores. O esquema terminará dentro de dois meses, quando a nova colheita de arroz, que se espera seja grande, garantir o fornecimento, disse um porta-voz da Associação Tailandesa de Moinhos de Arroz.

“São os pobres os mais afetados pela inflação de preços, simplesmente porque os alimentos consomem quase todo seu salário”, disse Shamika Sirimanne, especialista em políticas de desenvolvimento do Comitê Econômico e Social para a Ásia e o Pacifico da Organização das Nações Unidas, com sede em Banglades. “A maior carta, baturalmente, fica para as mulheres, responsáveis por colocar a comida na mesa”, acrescentou. “A inflação também tem impacto nos salários das camadas mais pobres da força de trabalho e dos do setor informal, tornando duplamente difícil sobreviver, porque você tem de pagar muito por seu alimento, mas o poder aquisitivo de seus salários caiu e, portanto, têm menos para gastar”?, disse Sirimanne.

Sem dúvida, é a população urbana da Ásia a que mais sofre os últimos aumentos de preços, segundo Risely, do PMA. “É isto o que deixa mais nervosos os governos da Ásia, pois temem que os crescentes preços do arroz derivem em distúrbios politgicos e sociais”, acrescentou. “As maciças manifestações por alimentos na capital do Haiti são um chamado ao despertar de todos os governos asiáticos”, disse Samuel, da ActionAid. “Se não forem tomadas medidas imediatas, como mecanismos para a proteção dos preços, é muito provável” que também aqui haja protestos. Avizinha-se uma crise social, que se converterá em um grande problema político, especialmente para as democracias da Ásia”, alertou Risely. (IPS/Envolverde)

Larry Jagan

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