DAISAKU IKEDA: Mesmo com suas limitações, a ONU é um fórum único

Nações Unidas, 02/04/2008 – Coincidindo com os 60 anos de criação da Organização das Nações Unidas, comemorados este mês, uma rede da sociedade civil pede a convocação de uma conferência que coloque a educação como instrumento de promoção dos direitos humanos

 - Seikyo Shimbun

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A não-governamental Soka Gakkai International (SGI), com sede em Tóquio e mais de 12 milhões de membros em 190 países, considera que essa reunião deveria ter como principais protagonistas organizações da sociedade civil.

Seu presidente Daisaku Ikeda, disse à IPS que os direitos humanos tradicionalmente foram, e devem ser, abordados pelos governos, embora “os esforços não devam parar nesse ponto”. Em “última instância, temos de estabelecer uma cultura universal dos direitos humanos, compartilhada por todas as pessoas e com raízes nas realidades de sua vida diária”, acrescentou Ikeda, filósofo budista e ativista pela paz. O apoio dos governos é bem-vindo, mas “considero importante que não se perca a natureza essencial da conferência como uma iniciativa da sociedade civil”, afirmou.

IPS – A Guerra Fria terminou há quase 20 anos. Mas, o mundo enfrenta cada vez mais conflitos. Por que a comunidade internacional, e em especial a ONU, não conseguem garantir uma paz estável?

Daisaku Ikeda – A ONU tem suas óbvias limitações, que são suficientemente criticadas. Mas o fato é que constitui o único fórum para o diálogo sobre os assuntos mundiais do qual participam praticamente todos os países. Por esta razão, sempre propus que as Nações Unidas devem estar no centro dos esforços para construir um mundo em paz. Em questões como ajuda aos refugiados, resolução de conflitos e pacificação, a ONU tem sido o cenário de esforços pouco reconhecidos para a criação do que poderíamos chamar de rede global de segurança. A perda destas funções incrementará notavelmente o sofrimento das pessoas em todo o mundo.

Há alguns anos, reuni-me com o então secretário-geral, Boutros Boutros-Ghali (1992-1996) para destaca que, em função das expectativas que gera e das tarefas que lhe encomendam, a ONU recebe apenas um mínimo apoio. Não se trata de uma instituição que carece de poder por natureza. O que é débil é a vontade da comunidade internacional em resolver os problemas no contexto das Nações Unidas, o que limita sua capacidade para exercer suas funções. Sempre procurei contribuir para criar um clima mais estável para a ONU, pedindo aos líderes mundiais com os quais me reuni para darem maior apoio. Pela mesma razão, todas minhas propostas de paz destacam os êxitos da ONU e sugerem novos caminhos para trabalhar através dela.

Os membros da SGI sempre cooperam com as agências da ONU e com as organizações não-governamentais para despertar maior consciência em assuntos como desarmamento e meio ambiente, e para promover uma ética cidadã global. Nossa atitude não é a de observar de longe, esperando para ver se a ONU tem sucesso ou fracassa. Queremos desenvolver um senso de responsabilidade mais profundo, perguntando-nos o que podemos e o que devemos fazer para que o fórum mundial funcione com eficácia.

Mahatma Ghandi disse que a bondade viaja à velocidade de um caracol. Não se consegue nada com lamentações pelas limitações da ONU ou reagindo cinicamente diante das duras realidades do mundo. O que importa é o esforço mantido para construir o tipo de solidariedade entre os povos que será uma fonte de apoio consistente para as atividades do órgão mundial. A experiência acumulada e a sabedoria obtida por muitos países e pessoas que trabalham através da ONU são de um valor enorme. Estou convencido de que no futuro isto será visto como o maior tesouro legado à humanidade por nossa geração.

IPS – O quanto é imperativo o diálogo entre as nações para por fim ao crescente fanatismo e intolerância que caracterizam o mundo hoje?

Daisaku Ikeda – É impossível conter, e muito menos resolver, as ameaças criadas pelo extremismo e pela intolerância através da força militar. Mas, a vontade de dialogar, sobretudo se estiver limitada exclusivamente a uma das partes, por si só não levará a uma solução imediata. A vida não é tão simples. O fato é que há casos em que parece não haver um sócio para o diálogo, ou que o passado faça com que esse diálogo seja impossível.

Mas, sem importar o quanto possa parecer justificado, recorrer à violência e à força não resolve nada. Os ódios de uma geração se reproduzem na seguinte, e o conflito se aprofunda e se prolonga. Se não conseguirmos quebrar estes ciclos de ódio e vingança, as raízes da violência permanecerão. Creio que, apesar da magnitude do desafio, uma persistente e valorosa inclinação ao diálogo é a única maneira de superar o extremismo e a intolerância entre os povos.

IPS – Que grau de confiança tem a respeito de alguns, ou da maioria, dos objetivos de suas propostas de paz se concretizarem na próxima década ou nesta geração

Daisaku Ikeda – O segundo presidente da SGI, Josei Toda, cujo 50º aniversário de morte ocorre este ano, dizia com freqüência que seu compromisso era eliminar a palavra “miséria” do vocabulário humano. Durante sua vida foi meu mestre e sua determinação para concretizar seu sonho é o que sustenta meus próprios esforços. Há no mundo centenas de milhões de pessoas que sofrem o impacto da guerra e dos conflitos, da pobreza e da fome, da destruição do meio ambiente. Minhas propostas se baseiam na aspiração de que elas se fortaleçam para poder deixar para trás os sofrimentos de suas vidas.

Não sou político nem um especialista em política. Estou certo de que minhas propostas são incompletas. Continuo escrevendo e apresentando-as como um cidadão comum com a esperança de que ajudarão a aprofundar o debate sobre temas de vital importância e servirão à a busca de uma saída para nossas presentes dificuldades. Tenho uma profunda fé na capacidade dos jovens. Creio que não há nada que não possam fazer, que não existe realidade que não possam mudar, se a isso se propõem. Ao formular minhas propostas, minha maior esperança, minha determinação e meu compromisso são plantar a semente da mudança no coração dos jovens. (IPS/Envolverde)

Thalif Deen

Thalif Deen, IPS United Nations bureau chief and North America regional director, has been covering the U.N. since the late 1970s. A former deputy news editor of the Sri Lanka Daily News, he was also a senior editorial writer for Hong Kong-based The Standard. He has been runner-up and cited twice for “excellence in U.N. reporting” at the annual awards presentation of the U.N. Correspondents’ Association. A former information officer at the U.N. Secretariat, and a one-time member of the Sri Lanka delegation to the U.N. General Assembly sessions, Thalif is currently editor in chief of the IPS U.N. Terra Viva journal. Since the Earth Summit in Rio de Janeiro in 1992, he has covered virtually every single major U.N. conference on population, human rights, environment, social development, globalisation and the Millennium Development Goals. A former Middle East military editor at Jane’s Information Group in the U.S, he is a Fulbright-Hayes scholar with a master’s degree in journalism from Columbia University, New York.

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