MULHERES: sobrecarregadas pelo livre comércio

Accra, Gana, 25/04/2008 – A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad) deve prestar atenção aos danos que a liberalização do intercâmbio causa aos pobres, especialmente às mulheres, segundo a sindicalista Esther Busser. Busser, que assiste representando a Confederação Sindical Internacional (CSI) a reunião da Unctad na capital de Gana, que termina hoje, propôs melhorar os termos do comércio internacional assegurando que os desequilíbrios de poder sejam atendidos.

Em conversa com a IPS, Busser, assessora de políticas comerciais da CI,disse que a direção da Unctad não teve vontade política para tomar decisões que beneficiem os pobres, especialmente as mulheres. Esta agência da Organização das Nações Unidas “deve abandonar o enfoque que se centra exclusivamente em temas de comércio e investimento”, afirmou. A subsecretária-geral da ONU e assessora especial em temas de gênero, Rachel Mayanja, disse que a Unctad deve ajudar os governos a por em pratica programas que garantam a equidade social em uma época de “globalização desequilibrada”.

Isto é necessário para liberar os pobres, as mulheres e outros grupos marginalizados das restrições que sofrem em matéria de emprego, tomada de decisões e acesso ao financiamento, acrescentou. “Se a comunidade internacional não modificar suas políticas para atender o impacto negativo da globalização e a desigualdade econômica sobre o desenvolvimento e a redução da pobreza, os pobres e os privilegiados continuarão vivendo em mundos separados”, disse Mayanja.

Poucos países, sejam ricos ou pobres – disse – são imunes à crescente onda de desigualdade, o que torna imperativo reduzir as disparidades sociais e de gênero. “Apesar de alguns exemplos positivos, nos quais a globalização aumentou as oportunidades de emprego para as mulheres e fortaleceu suas redes e grupos de apoio, também reforçou ou exacerbou as desigualdades de gênero que existiam”, afirmou Mayanja. As mulheres carregam uma carga desproporcional da pobreza mundial e, em alguns casos, a globalização alargou a brecha, provocando maior perda na participação feminina no emprego, nos benefícios e nos direitos trabalhistas, acrescentou.

“Assim, a igualdade de gênero, como objetivo em si mesmo e como meio para atingir metas acordadas internacionalmente, resulta ser de vital importância e deve ser abordada com urgência”, assegurou Mayanja. O secretário-geral da Unctad, Supachai Panitchpakdi, cobrou a inclusão do gênero como uma categoria nas estatísticas trabalhistas que medem o impacto da liberalização do comércio.

“Em muitos países não se reconhece aos trabalhadores o direito à sindicalização, o que causa abusos e salários muito baixos”, afirmou Busser, acrescentando que as mulheres ficam com a pior parte, porque não estão organizadas e não têm voz. Bernice Chenge, uma trabalhadora têxtil de Zâmbia contou: “Quando uma empresa estrangeira se instalou em Lusaka, as mulheres, que eram a maioria do pessoal, tinha um salário inferior ao salário mínimo. Quando tentamos protestar diante das autoridades algumas de nós foram apontadas como rebeldes e demitidas”.

Segundo Busser, a CSI comprovou que enquanto a Unctad promove a eliminação de barreiras ao comércio não cria, ao mesmo tempo, mecanismos para proteger os trabalhadores, o que deixa nas mãos de grandes empresas os benefícios da liberalização, com se comprovou nos casos do café, dos cereais e das bananas. O coordenador de políticas da organização não-governamental ActionAid, Aftab Alam Khan, destacou que as multinacionais “dominam o mercado de matérias-primas, ditam os termos do comércio e afetam os países que dependem de sua exportação, obtendo injustos ganhos”.

Pesquisa da ActionAid revelou que as seis maiores empresas de café dominavam a metade do mercado mundial em 1998, enquanto em 2002 apenas duas empresas controlavam 75% do comércio internacional de grãos e outras duas 50% das exportações de banana. Diante desta situação, “os governos estão perdendo o controle político e já não podem oferecer a proteção social que garanta os direitos dos trabalhadores”, disse Busser.

Entretanto, a presidente da Finlândia, Tarja Halonen, afirmou que os governos não estão obrigados a optar entre o crescimento econômico e a justiça social, já que ambos podem coexistir. “Um caminho seguro para consolidar os progressos sociais e melhorar a competitividade é dar voz às mulheres, para que tenham um papel ativo na tomada de decisões e sejam sócias em termos igualitários na força de trabalho e no mundo dos negócios”, afirmou. Os governos, destacou Halonen, “devem fazer mais para animar as mulheres jovens e a assumirem papeis ativos em todas as esferas sociais, através de maiores oportunidades educativas”. IPS/Envolverde

Francis Kokutse

Franics Kokutse is a freelance journalist based in Accra. In addition to IPS, he works for other media organisations including Associated Press, Dow Jones Newswires, The Nation Group of Kenya and is also the West Africa Correspondent for the New Delhi-based Indo Asian News Service. Francis is also a published poet on Poemhunters.com.

Leave a Reply

Your email address will not be published. Required fields are marked *