Praga, 28/04/2008 – Os países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) apóiam com cautela os planos dos Estados Unidos de estender seu sistema de defesa balística à Europa oriental, enquanto Washington se esforça para cumprir as condições da Rússia para que esse país tenha acesso à sua construção. Os norte-americanos querem ampliar seu sistema de defesa construindo um radar na República Checa e uma base antimíssil na Polônia, com a desculpa de proteger a Europa de eventuais ataques de países como o Irã. O presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, e seu colega russo, Vladimir Putin, se reuniram no último dia 6 na localidade de Sochi, na Rússia, para debater sobre a base militar, entre outros assuntos.
Bush prometeu tentar integrar a Rússia ao projeto “como um sócio igualitário dos Estados Unidos”, apesar de que tentativas semelhantes de cooperação entre os dois países terem fracassado no passado. Isto ocorreu após a cúpula da Otan realizada entre 2 e 4 deste mês em Bucareste, na qual foi considerada a possibilidade de integrar o projeto às estruturas de defesa da aliança.
A Europa não parece preocupada pela questionável efetividade e pelos custos do plano, e Washington pode ter acalmado aliados europeus preocupados assegurando que alcançaria um acordo com Moscu, disse à IPS Nick Witney, do Conselho europeu de Relações Exteriores. “Há uma crescente sensação de que os russos estão se reconciliando com a idéia de instalar a base. Os Estados Unidos fizeram uma série de concessões sobre o sistema, e poderiam tê-lo vinculado a outros assuntos, tal como a entrada da Rússia na Organização Mundial do Comércio”, acrescentou.
Atualmente, a Otan carece de instalações de defesa antimísseis, mas realiza estudos de factibilidade. Com a extensão do sistema, a “Otan tem apenas que se preocupar em cobrir a parte sudeste da Europa”, disse Witney à IPS. Pelo atual projeto, o sistema de defesa antimísseis iria contra o princípio de segurança coletiva e indivisível da Otan, já que apenas protegeria a Europa norte-ocidental de um hipotético ataque. “Não será um grande projeto para a aliança, e já que a maior parte do investimento será de Washington, ficará mais fácil para os europeus apóia-lo”, acrescentou o ex-presidente da Agência Européia de Defesa, em Bruxelas.
Rússia e Estados Unidos poderiam chegar a um acordo pelo qual a estação com o radar e as plataformas de lançamento de mísseis permaneceriam inativas até que se materializasse a hipotética ameaça do Oriente Médio. O governo russo, convencido de que o sistema de defesa balística o tem por objetivo, pede a Washington que esclareça em quais condições pretende instalar a base na Europa oriental, e se prevê construir mais em outras partes. Os especialistas dizem que se Moscou tiver acesso à construção da base terá uma longa lista de demandas para Washington.
De outro modo, caso as instalações sejam construídas na Europa oriental, a Rússia poderia adotar “medidas de natureza militar e técnica”, em palavras do chanceler russo, Sergey Lavrov. Funcionários militares russos disseram reiteradamente que seu país consideraria as novas instalações como alvos militares, contra os quais, inclusive, se poderia utilizar armas nucleares em caso de necessidade. Apesar da resistência polonesa e checa, os Estados Unidos, aparentemente, oferecem à Rússia a possibilidade de inspecionar as instalações e realizar um controle técnico.
Porém, os políticos checos e poloneses se negam a aceitar uma presença permanente de “tropas russas” em seus países, e apenas concordariam com inspeções ocasionais que eles dizem deveriam ser retribuídas por Moscou. Para a maioria do público e dos políticos nestes países, uma presença russa permanente em uma instalação militar é inaceitável. A Rússia pressiona intensamente para ter essa presença, mesmo consciente de que dificilmente seja aceita. Os reclamos desses dois países de que seus funcionários possam realizar inspeções recíprocas em território russo foram rejeitadas por Moscou.
“Não temos planos de trasladar nossas bases de defesa com mísseis, de instalá-las ao redor dos Estados Unidos, da Polônia ou da República Checa. Estivemos muito satisfeitos com o estado de reciprocidade exposto no tratado de defesa balística, mas os norte-americanos se retiraram, por isso agora nos se pode falar de reciprocidade”, disse Lavrov à imprensa. Nem checos nem poloneses ficam felizes pelo fato de os Estados Unidos estarem negociando com a Rússia por cima deles, e recentes informes chegam inclusive a alegar que as negociações com a mais demandante Varsóvia estão paralisadas. Meios de comunicação da Polônia disseram que Washington aproximou-se dos checos para constatar se estariam dispostos a abrigar tanto a base do radar quanto as plataformas lança-mísseis.
Porém, o governo checo, que pretende assinar um acordo sobre a construção do radar no próximo mês, terá de chegar a um acordo com a oposição dentro de sua própria coalizão ou arriscar-se a ver o projeto rejeitado pelo parlamento. O Partido Verde, sócio menor na coalizão, disse que a declaração da Otan não é suficiente para convencê-los da natureza multilateral do plano, e vários funcionários da cúpula partidária disseram que o radar deveria responder a ordens do bloco atlântico desde seu inicio. IPS/Envolverde

