RELIGIÃO-ASIA CENTRAL: Modernidade ao lado do Islã

Washington, 02/04/2008 – O vale de Fergana, no Quirguistão, na fronteira com o Tajiquistão e o Uzbequistão, no coração da Ásia central, costuma se caracterizar por instabilidade, violentos conflitos e pelo fundamentalismo islâmico. Porém, uma análise exaustiva revela uma situação mais complexa. Os três países dessa região montanhosa densamente povoada lutam para criar Estados modernos após a dissolução da União Soviética, mas o processo é tumultuado.

No Tajiquistão eclodiu nos anos 90 uma guerra civil entre facções políticas. No Quirguistão ocorreu a “revolução dos tulipanes”, em 2006. Nesse mesmo ano, cem pessoas morreram quando o governo uzbesco reprimiu protestos na cidade de Andijan, no vale de Fergana. Por outro lado, os três governos adotaram medidas contra organizações armadas islâmicas com Hizb-ut-Tahrir e o Movimento Islâmico do Uzbequistão. E há pouco surgiu um novo grupo, chamado Turbantes Negros, na cidade uzbeca de Kokand, segundo a imprensa. Mas a descrição do vale de Fergana como uma zona violenta e inclinada ao islamismo não é exata, de acordo com o presidente do Instituto da Ásia Central e do Cáucaso, da Universidade norte-americana Johns Hopkins, S. Frederick Starr.

“Existe uma tendência a dramatizar e considerar que a região tem uma série de problemas insolúveis, mas isso não é certo”, afirmou Starr em um seminário dedicado ao vale de Fergana, realizado em Washington pela Fundação Sasakawa para a Paz. “A região não é um barril de pólvora. Houve incidentes nos três países. Os conflitos anteriores a 1991 se originaram por problemas étnicos. Mas as fronteiras continuam sendo as mesmas. E os confrontos foram bastante limitados, devido às complicações da independência”, acrescentou.

Certos fatores moderaram os conflitos. “O solo é bom. As terras aráveis, se forem bem irrigadas, são espetaculares. Se diminui o dinheiro, a população ainda pode se alimentar. E as pessoas se conhecem. As famílias vivem juntas há centenas e milhares de anos”, disse Starr. Entretanto, o especialista tayiko Pulat Shozimov descreveu um vale de Fergana muito diferente. Shzimov é um dos três editores de um projeto de pesquisa multidisciplinar patrocinado pelo Instituot Ásia Central-Cáucaso que reuniu 24 acadêmicos dos três países. “É um projeto de pesquisa modelo, um espaço livre para uma discussão aberta de problemas-chave, para a descoberta de novas possibilidades para o vale de Fergana”, afirmou Shozimov.

A investigação “será o panorama mais completo dessa região já feito nos últimos 5o anos”, disse Starr. “O que conseguiram nossos editores, um para cada país, é criar um ambiente positivo para uma verdadeira colaboração regional”. A maioria da população do vale de Fergana segue a versão sunita do Islã, majoritária no geograficamente distante mundo árabe. Um elemento comum na região após a queda do regime ateu soviético foi o renascer da fé. “Definitivamente, houve um renovado interesse pelo Islã”, segundo Eric McGlintchey, professor de ciências políticas da Universidade George Mason (EUA).

“Resulta evidente, apenas vendo as concentrações humanas que rezam às sextas-feiras e pela mudança de vestimenta da população. Depois de 50 anos ou mais não podendo praticar sua religião, agora podem fazê-lo abertamente. Há uma curiosidade natural”, explicou McGlintchey. Numerosos analistas estrangeiros se centraram no perigo do radicalismo religioso no vale de Fergana. Mas, segundo Mcglintchey, o Islã radical desperta um interesse limitado. “Hizb-ut-Tahrir opera de forma bem aberta no Quirguistao, mas menos no Uzbequistão”, afirmou. “Seus membros conhecem o discurso, mas seus argumentos são rapidamente desarmados. A maioria dos religiosos não os respeita. Seu status é exagerado”.

Uma tendência mais importante, mas menos analisada, é o vínculo entre o Islã e a modernização econômica. O Partido do Renascimento Islâmico do Tajiquistão, por exemplo, cresceu até incluir uma emergente classe média. “No momento não têm um programa econômico claro”, disse Shozimov. Este setor observa o governante Partido pela Justiça e o Desenvolvimento (AKP) da Turquia em busca de um modelo que combine valores islâmicos com uma estrutura democrática em uma economia moderna e globalizada. “Foi preciso que um partido muçulmano chegasse ao governo para que a Turquia tomasse o caminho da democracia. Poderia se ver uma dinâmica semelhante no Tajiquistão”, disse McGlinchey.

Este especialista observou uma tendência semelhante no Uzbequistão. “Há um círculo que une o capital social islâmico e o crescimento econômico”, disse McGlingchey. “OS empresários criaram um fundo econômico comum e puderam desenvolver diferentes negócios. São vistos por outros que pensam: quero trabalhar em suas fábricas e aprender sua religião”, afirmou.

No vale de Fergana surgiram novas iniciativas de cooperação e novos modelos econômicos e políticos para modernizar o Islã. A frieza que domina a maioria das relações entre os três países não ajuda a fomentar a nova tendência, que surge de baixo para cima. “Aepsar da tensão óbvia entre os ter países, os povos se conhecem muito bem e interagem há séculos e sabem como manter relações, mesmo em tempos de conflitos”, disse Starr. (IPS/Envolverde)

Correspondentes da IPS

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