AMÉRICA LATINA: Recorde de investimento em 2007

Santiago, 09/05/2008 – O investimento estrangeiro direto na América Latina e no Caribe teve um recorde histórico em 2007, mas sua qualidade ainda não é ótima, afirmou ontem José Luis Machinea, secretário-executivo da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe. Graças ao crescimento econômico regional e à sustentada demanda mundial por recursos naturais, no ano passado o investimento estrangeiro direto (IED) na região atingiu US$ 105,925 bilhões, segundo um informe anual sobre o assunto que a Cepal está preparando.

Pela primeira vez na história os fluxos de capitais para a região superaram os US$ 100 bilhões. A quantia é a mais alta desde 1999, quando o investimento havia totalizado US$ 89 bilhões, fortemente relacionada com as privatizações. Entretanto, “mais importante do que as variações conjunturais do volume da IED recebida pela região é sua evolução estrutural. A escala da contribuição da IED para o desenvolvimento da região depende tanto ou mais da qualidade do investimento do que de seu volume”, destaca o informe de 290 páginas.

“Em um contexto de globalização, atrair investimentos para atividades que contribuam com a geração de emprego qualificado, capacitação empresarial e inovação exige níveis de competitividade classe mundial, já que a competição pela IED – sobretudo com essas características – ocorre em nível mundial”, acrescenta o texto. “Seria bom atrair mais investimentos, e isto não é tão fácil detectar, que exportem, formem fornecedores e inovem na região. Disso a região tem pouco. As inovações se dão em outras partes do mundo, embora as multinacionais estejam tendendo cada vez mais a descentralizar” suas operações, disse Machinea à IPS.

Atrair investimentos de qualidade que, por exemplo, “tragam laboratórios de pesquisa e gerem encadeamentos produtivos”, é uma tarefa dos governos, disse o dirigente da Cepal. Embora os Estados Unidos sejam o principal país que investe na região, a incipiente recessão que sofre não afetou significativamente o desempenho da América Latina como receptora de fluxos de capitais em 2007, já que a desaceleração se manifestou apenas durante o quarto trimestre do ano, disse Machinea. Entretanto, alertou, o efeito da crise econômica norte-americana pode ser relevante nos fluxos de IED em 2008.

O setor mais prejudicado pode ser o exportador de manufaturas do México e a bacia do Caribe. “Em 2007 a América Latina e o Caribe receberam divisas sem precedentes a título de investimento estrangeiro direto. Se o resultado verificado representa um fato isolado ou o início de um período mais longo de entrada de dinheiro nos próximos anos depende da gravidade da desaceleração da economia dos Estados Unidos e suas repercussões na economia regional”, diz o informe. No total, a IED na América Latina cresceu 46% entre 2006 e 2007, mas na América do Sul o incremento foi maior do que na sub-região compreendida pelo México e a bacia do Caribe.

A IED cresceu em quase todos os países, mas Brasil, Chile, Colômbia e México são responsáveis por 90% do incremento. Entre 2006 e 2007 o crescimento da IED no Brasil foi de 84% e no Chile de 96%. No ano passado, o Brasil recebeu US$ 34,585 bilhões a título de IED, seguido pelo México com US$ 23,230 bilhões, Chile com US$ 14,45 bilhões e Colômbia com US$ 9,028 bilhões. Em comparação ao produto interno bruto e sem considerar os centros financeiros do Caribe, os maiores receptores de investimento foram Panamá, Chile e quatro países da América Central (Honduras, Costa Rica, El Salvador e Nicarágua).

O que explica a IED dirigir-se principalmente a Brasil, Chile, Colômbia e México: Machinea disse que há alguns fatores comuns e outros específicos, como o tamanho do mercado interno e as vantagens comparativas nos mercados internacionais. O elemento que une os quatro países é que todos são “amistosos” com a IED, o, que implica que não há “mudanças nas regras do jogo” de improviso, isto é, se respeita os contratos assinados independente das idas e vindas da política. Pelo contrário, as nacionalizações de recursos naturais e empresas de serviços básicos feitas por alguns governos, como o da Bolívia, costumam gerar retração dos capitais.

O informe “O investimento estrangeiro na América Latina e no Caribe 2007” indica que o setor de serviços ficou com a maior parte do capital que entrou na região, destacando-se o Brasil, embora tenha havido grandes diferenças entre os países. No Chile, na Colômbia e no Equador o maior fluxo de IED foi para o setor de recursos naturais, enquanto no México o setor manufatureiro reteve um volume maior. Estados Unidos, Holanda e Espanha lideram a lista dos principais países estrangeiros que investiram na região durante o ano passado.

A Cepal também destacou a situação das multinacionais latino-americanas, chamadas de translatinas, apesar de o fluxos de investimento da América Latina e do Caribe para outras regiões do mundo terem diminuído de US$ 42 bilhões em 2006 para US$ 20,619 bilhões no ano seguinte. Isto se explica porque a elevada quantia de aquisição da australiana Rinker pela mexicana Cemex não foi incluída totalmente nas estatísticas de 2007, já que a compra foi financiada parcialmente por suas subsidiarias no exterior, ou seja, o dinheiro não saiu diretamente do México.

O maior país investidor no estrangeiro é o Brasil, seguido de México e Chile. Em comparação ao PIB, o Chile lidera esta lista, seguido da República Bolivariana da Venezuela e pela Costa Rica. “Muitas das translatinas estão levando seus processos de internacionalização a novos níveis, em setores distintos (software, petroquímicos, empacotadores de carne) aos que já se estabeleceram como atores internacionais (aço, mineração, cimento, gás e petróleo, alimentos e bebidas, comércio)”, diz o comunicado da conferência. (IPS/Envolverde)

Daniela Estrada

Daniela Estrada joined IPS in 2004 and has been the Santiago correspondent since July 2006. Also in 2006, her story titled "Pascua-Lama sí, pero no tocar glaciares" was singled out among 24 others from all over the world to receive the Project Censored Award from Sonoma State University in California. Born in Santiago in 1981, Daniela Estrada has a degree in journalism from the Universidad de Chile and has worked for several media outlets in the field of technology.

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